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05/JUL/2007
José Saramago
Intelectual luso cria fundação para defender
Direitos Humanos e Meio Ambiente
“O homem mais sábio que conheci em
toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da
madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras
de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao
pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam
ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da
pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos
aos vizinhos da aldeia, Azinhaga de seu nome, na província do
Ribatejo.
Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram
analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite
apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam
buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua
cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava
os animalzinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa.
Ainda que fossem gente de bom carácter, não era por primores de
alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os
preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu
ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não
aprendeu a pensar mais do que o indispensável.” Desta forma José
Saramago abriu seu discurso ao receber o mais famoso prêmio da
literatura internacional, o Nobel, concedido a ele pela academia
sueca no ano de 1998. São palavras que revelam a natureza desse
escritor português, considerado por muitos o mais importante autor
vivo em nossa língua. Avesso a badalações, racional, crítico e
circunspeto.
Nasceu em 16 de novembro de 1922, embora o registro oficial esteja
anotado dia 18. Ele seria apenas José de Souza. Mas, o tabelião
acrescentou ao seu nome o apelido do pai, ‘Saramago’, a
denominação de uma flor silvestre. O local era Azinhaga, província
de Ribatejo. Sua mãe se chamava Maria da Piedade. O único irmão,
Francisco, morreu aos quatro anos. Foi, como é fácil perceber, em
meio ao analfabetismo e a rudeza da vida campesina, uma dura
infância. Porém, jamais vista com autocomiseração. Lidando assim
com a realidade concreta, ganhando consciência ao longo dos
tempos, desde jovem tornou-se adepto do Partido Comunista
Português.
Aos 12 anos de idade entrou para uma escola técnica. E sempre que
possível fazia suas leituras, freqüentava bibliotecas. Trabalhou
como serralheiro, desenhista e funcionário público da saúde e
previdência. Aos 25 anos publicou Terra do Pecado, seu primeiro
romance. Em 1949 escreveu Clarabóia, que foi recusado pela editora
e até agora permanece inédito. Seu segundo livro publicado demorou
sete anos para aparecer: Os Poemas Possíveis. Esse tempo todo em
silêncio – entre 1947 e 1966 – alega que não tinha nada para
dizer.
Em 1970 publicou Provavelmente Alegria e tornou-se, dois anos
depois, jornalista e trabalha no A Capital e no Jornal de Fundão.
Surge em 1973 A Bagagem do Viajante. Um ano após a Revolução dos
Cravos torna-se diretor adjunto do Diário de Notícias. Logo
depois, sai da função e decide tentar viver da literatura. Tem
parte de sua renda vinda também de traduções. Nesse ano de 1975
publica O Ano de 1993, até hoje seu último livro de poesias.
Dedica-se então a realizar romances, ensaios e peças de teatro,
além de artigos para jornais. Seu primeiro romance de grande
destaque foi Levantado do Chão, de 1980. Em seguida realiza outros
sucessos de crítica: Memorial do Convento (1982), O Ano da Morte
de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986) e História do
Cerco de Lisboa (1989).
Em 1991, já desfrutando do respeito público, sua obra O Evangelho
Segundo Jesus Cristo foi censurada pelo governo. Dizem que
caminhando ele olhou para uma banca de jornal e viu de relance –
ou achou ter visto - o título em uma manchete exposta. Quando
voltou os olhos para o lugar não havia nada. Porém, a idéia não
mais lhe saiu da cabeça. E dela escreveu o romance. Assim criou-se
intensa polêmica. A história do Messias numa versão humanizada,
com suas fraquezas e virtudes. Uma licença poética. Uma postura
política. A Igreja ficou chocada e boa parte da sociedade lusitana
idem. O livro tornou-se um grande sucesso. Por exemplo, permanece
tendo reedições no Brasil. E tornou-se uma marca pelo direito à
expressão. Saramago falou certa vez sobre sua fé: "Como será
possível acreditar num Deus criador do Universo se o mesmo Deus
criou a espécie humana? Por outras palavras, a existência do
homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.”
Ele, então, saiu do país. Foi viver com simplicidade em meio a
seus livros na ilha de Lanzarote, arquipélago das Canárias, terra
vulcânica pertencente à Espanha, em pleno Oceano Atlântico, em
companhia de sua mulher, Pilar Del Rio, jornalista, que conheceu
na cidade de Lisboa quando tinha 63 anos e ela 36. Um interesse
primeiramente intelectual, afirmam ambos, vinculados pela
admiração por Fernando Pessoa e pelo marxismo. Diz ele: “a minha
vida não seria aquilo que é hoje, não teria essa biblioteca se eu
não tivesse conhecido a Pilar”. O segundo encontro entre eles se
deu em Sevilha. “E aí começa realmente a minha segunda vida.
Porque com 63 anos, o que é que se espera que aconteça? Já não
muita coisa", analisou o escritor numa entrevista à tv brasileira
sobre o fato ocorrido há mais de 20 anos.
Em 1998 José Saramago foi agraciado pela crítica internacional e
ganhou o Premio Nobel de Literatura lhe rendendo um cheque no
valor aproximado de US$ 1 milhão. Quando lhe perguntaram o que
faria com o dinheiro, considerou que todos estão acostumados com
escritores pobres. E afirmou: "como não jogo, não vou gastá-lo no
cassino; como não tenho ambições, não vou comprar dez piscinas ou
quatro carros; antes, vou gastar da maneira que puder e ajudar as
pessoas mais próximas de mim", ponderou com sua calma. Sobre sua
aptidão para os textos disse: “Não fui desses gênios que, aos 4
anos de idade, escrevem histórias. Apenas via as coisas do mundo e
gostava de vê-las. Nunca fui de grandes imaginações. Eu não me
interessava por fantasias, mas pelo que ocorria. A imaginação, o
que dizer a respeito dela? Meus livros estão aí para provar que a
tenho. Mas é uma imaginação que está sempre a serviço da razão.
Meus livros se caracterizam por uma imaginação forte, mas sempre
usada de forma racional. Posso formular assim: a imaginação é o
ponto de partida, mas o caminho a partir daí pertence à razão."
Sempre lidando com a vida de modo simples, consta gostar de
bacalhau com grão de bico e vinho à moda da casa, como aprecia ao
almoçar no lisboeta Varina da Madragoa ou degustar uma galinha a
cabidela, que janta no Farta Brutos, Bairro Alto da cidade, onde
leva os amigos como Chico Buarque e Sebastião Salgado para
conversar quando estes perambulam por terras ibéricas. Freqüente
visitante do Brasil é um cidadão atento às questões de seu tempo
por todo o planeta. Com a firmeza de quem viveu muitos anos sob o
peso da ditadura, no seu caso a experiência salazarista, pensa
assim o cenário contemporâneo: “a globalização é um totalitarismo.
Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem
castanhas, nem de suásticas. São os ricos que governam e os pobres
vivem como podem. Então, isto tem aspectos totalitários de fato,
porque se tu controlas a economia mundial, os movimentos do
dinheiro, a circulação dos bens, de certa maneira também controlas
a circulação das pessoas, que é o que está a acontecer”.
Exatamente com vistas a manter acesa a chama da Declaração
Universal dos Direitos Humanos, firmada em 1948, e da preservação
ambiental, Saramago cria agora uma entidade que além destas duas
preocupações também deve guardar toda história de sua produção
literária. A Declaração de Princípios foi publicada em 4 de julho
no Jornal de Letras, em Portugal especificando que a Fundação
nasceu em 29 de junho. A sede será dividida entre Lisboa e
Lanzarote e terão uma agência em sua aldeia natal, Azinhaga do
Ribatejo e outra em Granada, Espanha. Em Lanzarote ficará a
biblioteca com algo em torno de 22 mil obras mais sua
correspondência, a ser catalogada por especialistas. Pilar del
Rio, sua esposa, presidirá o conselho de administração. “Só a
fundação não dá conta desses problemas. Mas, deve trabalhar como
se tivesse nascido para isso,” explica o humanista português.
Evidente que José Saramago não precisaria desta Fundação para que
seu nome seja para sempre reverenciado. Isto é coisa certa. De
qualquer modo, o gesto do intelectual luso contador de narrativas,
que se inspira pela realidade, pela história, pelas experiências
das pessoas, revela sua posição frente às circunstâncias do mundo.
E julga assim ter a vida lhe ensinado: “Aprendi a ser paciente, a
confiar e a entregar-me ao tempo, a esse tempo que simultaneamente
nos vai construindo e destruindo para de novo nos construir e
outra vez nos destruir. Só não tenho a certeza de haver assimilado
de maneira satisfatória aquilo que a dureza das experiências
tornou virtude nessas mulheres e nesses homens: uma atitude
naturalmente estóica perante a vida.” Modesto, esse Saramago.
Traço inequívoco dos homens sábios.
*Saramago é o segundo português a
vencer o Nobel. O primeiro, foi em
1949, Egas Moniz, neurocirurgião e político, ganhou em medicina.
São Paulo, 5 de julho de 2007.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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