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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

07/JUL/2007

 

Desigualdades

Vida Bandida

No mesmo dia em que 1350 soldados das Polícias Militar e Civil além de membros da Força Nacional de Segurança cumpriam nova etapa de suas ações iniciadas em maio, isto é, busca de traficantes pelas favelas do bairro da Penha, zona norte carioca, e na referida incursão ao morro eliminaram 19 pessoas - contabilizando até ali 38 mortos oficiais além de mais de 70 feridos, num autêntico quadro de guerra civil - a imprensa noticiou também que o número de milionários subiu e cresceu mais no Brasil do que no restante do mundo. Ironia do destino? Pura coincidência? Nada disso. Este aparente paradoxo tem vínculos profundos e são esclarecedores. Os fatos são as duas faces de uma mesma moeda: somo um país que não permite alavancar promoção social e, portanto, não proporciona autonomia a seus pobres e miseráveis. Conservador ao extremo, impossibilita a desconcentração de renda e só lembra do ‘andar de baixo’ quando este ameaça a boa vida de quem desfruta da ‘cobertura’ da pirâmide econômica. Não custa recordar aqui alguns casos para demonstrar essa avareza.


A pesquisa realizada em parceria pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas - Ibase e pelo instituto Polis que foi publicada em 2006 é um exemplo. Feita com 8.000 jovens revelou que 27% dos brasileiros de 15 a 24 anos das oito maiores regiões metropolitanas estavam sem atividades profissionais ou educacionais. E essa avaliação foi bem parecida com a obtida pelo IBGE em dezembro de 2005 que envolveu seis regiões metropolitanas. Neste levantamento, se indicou que 23% da população - 1,7 milhão de jovens - entre 16 e 24 anos não estudava e ou trabalhava. Desse total, 67% nem sequer procurou emprego no mês de referência da pesquisa, revelando o desalento de um milhão e cem mil indivíduos. Tal combinação de pobreza com falta de estudo é dramática. Aliás, além da falta de estudo, aos extratos mais populares é relegada uma educação de péssima qualidade, conforme as avaliações recentes constatadas pelo Ideb – Índice de Desenvolvimento da Educação Brasileira do MEC estimulando os abandonos. Ao cruzar notas de português e matemática mais o tempo que o aluno levou para completar um ano letivo o resultado nacional ficou em 3,8 contra a média dos países desenvolvidos que é 6,0. Bem inferior. Das 4350 cidades responsáveis pelo ensino até a 4ª série, somente 33 delas tem nível satisfatório, isto é, menos de 1%. E se não bastasse, há poucos dias, a da Câmara da Educação Básica do Conselho Nacional de Educação publicou relatório que denuncia um déficit de 235 mil professores no ensino médio brasileiro. As maiores ausências estão nas áreas de ciências exatas, ou seja, professores de química, matemática e física. No caso da física, por exemplo, existe uma necessidade de 55 mil professores. É uma vergonha tanto descaso com questões tão cruciais. Ainda mais se considerando as carências nas periferias, sem estrutura que estimule esporte, cultura, lazer e atividades afins. Há ausência de políticas públicas, de infra-estrutura. Nas favelas paulistanas a taxa de natalidade média chega a 5,21 filhos por mulher, na Grande São Paulo é 1,65. É preciso, desta forma, assistência, apoio aos mais carentes.

 

Sem emprego, educação e ações de integração social, como salvar essas almas do inferno? Desagregação familiar, vícios, violência e pragas afins rondam esse ambiente. Tais números desesperançosos são adubos dos mais fortes que vicejam a tentação pela marginalidade, afinal, para quem não enxerga futuro, para quem não tem o que perder, o que vier pode ser lucro em meio a tanta crueza. E o tráfico se nutre disso. Fraquejou é engolido pelas engrenagens da criminalidade.

 

Alucinação de ascensão social em seu meio: dinheiro, sexo e poder - pelo restinho de sua existência. Elixires num buraco sem fundo.
Por outro lado, os ricos no país cresceram em 2006 10% relativos ao ano anterior. Uma expansão mais acelerada que a média mundial de 8,3% de endinheirados e bem maior que o aumento do PIB em 3,7%, resultado este muito aquém às necessidades para incorporar o mais de milhão de pessoas entrando no mercado de trabalho ao ano, especialmente se considerarmos as mais de duas décadas de fraquíssimo andamento da economia e a destruição de postos com as inovações tecnológicas e organizacionais ocasionando imenso mar de informalidade. Desta forma, 120 mil patrícios são detentores de no mínimo US$ 1 milhão em ativos financeiros. Tem uma gorda poupança com suas rendas. Beneficiários das altas nas commodities – petróleo, metais, soja, café, milho, açúcar, carne bovina -, das valorizações do Real e dos investimentos bem remunerados. Estão no seleto time de 9,5 milhões de pessoas no mundo que controlam mais da metade do PIB internacional, que chegou aos US$ 66,2 tri em 2006. Porém, ainda terão que se esforçar mais para pisar nos degraus superiores desse Olimpo da opulência, o ‘clube dos bilionários’, hoje contando com 946 pessoas. E entre eles 16 brasileiros privilegiados.


Em resumo: de minha parte, nada contra os palacetes se não fosse o número de barracos ou de sem-tetos em proporções astronômicas no mesmo Estado Federativo. De acordo com a ONU nossa nação apresenta-se na 10ª colocação internacional em desigualdade de renda entre 126 observados. É irracional. Uma lógica demente. Perversa. Predadora de sonhos futuros. A propósito: os 19 cadáveres naquela ação militar receberam 78 tiros, 41% dados pelas costas. Três eram menores de 18 anos. E a grande maioria tinha pouco mais de 20 anos, segundo apurou o IML. Vida bandida, meu irmão.

 

São Paulo, 6 de julho de 07.
 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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