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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

02/JUL/2007

 

Migração

A Superlotação das áreas urbanas no Mundo

De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas - UNFPA neste mês de junho de 2007 o progressivo fluxo de migração do campo para as cidades chegou a uma marca histórica: os atuais 6,6 bilhões de habitantes do mundo estão divididos igualmente entre as regiões urbanas e as zonas rurais. E ano que vem o jogo já estará virado. É o resultado de uma evolução - o nascimento das vilas urbanas cogita-se entre 15.000 e 5.000 anos atrás - que tem suas raízes mais dinâmicas há cerca de 3 séculos, enquanto o sistema capitalista gestava a industrialização. E agora, como lidar com isso?


Em seu “A Era das Revoluções – 1789/1848” o historiador Eric Hobsbawn explica que no mundo do período da revolução industrial a população planetária era 30% do existente quando escreveu a obra, na virada entre os anos 1950 e 60. Desse total, dois terços eram asiáticos, um quinto era europeu, um décimo africano e um trinta e três avos (1/33) americano ou da Oceania. Enquanto a França derrubava a Bastilha e os donos do capital avançavam o pioneiro processo de industrialização nas ilhas britânicas as pessoas eram essencialmente moradoras do meio rural. Lugares como a Rússia, a Escandinávia ou os Bálcans tinham entre 90 e 97% da sua população vivendo no campo. Na Inglaterra, a população urbana somente viria a ultrapassar a rural pela primeira vez em 1851. O problema agrário era, assim, essencial. Por isso a primeira escola de economia na Europa tinha como postulado básico que a terra é a única fonte de riqueza. Era a Teoria Fisiocrata desenvolvida por pensadores franceses, como Quesnay e Turgot. Nesse fundamental período do fortalecimento do capitalismo a terra seria transformada em mercadoria, em propriedade privada e negociável. Dominada por pessoas que pudessem extrair dela o máximo para atender um mercado em expansão. E a massa dos trabalhadores campesinos, ao menos em parte significativa, deveria se transformar em mão de obra assalariada, para o setor não-agrícola da economia em crescimento. Pressão contra o que era compreendido como arcaico e retrógrado, aspectos do moribundo feudalismo. Assim, em mais de seis milhões de acres de campos e terras comuns após 1760 foram realizados cercamentos. Depois, em 1834, a ‘Lei dos Pobres’ apareceu tornando a vida intolerável para os carentes no campo, forçando-os a abandonar seu chão e rumar para onde houvesse ‘mais qualidade’ de oportunidades, de emprego, ou seja, as cidades. A fuga do meio rural aumentava e em 1850 foi um fato generalizado na precursora do capitalismo industrial, a Grã-Bretanha. EUA e boa parte da Europa Ocidental e Central também principiavam suas experiências naquele que mais tarde seria denominado setor secundário.


E as populações cresciam. Entre 1750 e 1850 a população do Reino Unido triplicou. Representou mais consumo e maior força de trabalho disponível. Entre 1816 e 1850 cinco milhões de europeus deixaram seus países de origem, rumando desse conjunto 80% para as Américas. E isto se multiplicaria posteriormente: entre 1850 e 1888: 22 milhões atravessaram o Atlântico para o Novo Mundo. Nesse cenário, entre 1815 e 1848 a situação dos pobres passou a ser assustadora, piorando com a marcha do tempo. Tanto que Thomas Malthus sustentou que o número de pessoas superaria o crescimento dos meios de subsistência. Grande pobreza estava no campo, especialmente afligindo os trabalhadores sem propriedade, assalariados. Mas, diz mestre Hobsbawn, a verdadeira miséria habitava as cidades e zonas industriais onde se morria de fome sem se ocultar como em outros lugares. Os serviços sociais não conseguiam acompanhar a demanda de necessitados, cuja ‘dieta alimentar tradicional pré-industrialização’ foi reduzida para a rudeza e austeridade limitante da ração consumida nos intervalos da produção. A expectativa média de vida na década de 1840 era duas vezes maior entre os trabalhadores rurais do que os da grande Manchester ou de Liverpool. Excesso de gente para poucas oportunidades amontoava desempregados pelas ruas dos centros industriais.


O Brasil, país independente desde 1822, estaria efetivamente desenvolvendo seu processo de industrialização somente no século XX, após a quebra da bolsa de valores de Nova York em 1929 e de seus reflexos que levaram à Grande Depressão, deixando a economia capitalista internacional em más condições durante vários anos. Por isso, a nossa elite, agrário-exportadora, consumidora de produtos industrializados dos EUA e Europa, a contra gosto foi obrigada iniciar o chamado Processo de Substituição de Importações para atender a demanda interna, já que não podia contar com a paralisada oferta externa. Permaneceríamos, no entanto, um país de economia rural até os anos 1970. A partir daí atingimos estágio com um parque industrial desenvolvido e a população urbana finalmente suplantou a rural. E o curso se acentuou com o decorrer do tempo. Quando chegamos ao ano 2000 o IBGE registrou que do total de 170 milhões de habitantes 81% viviam nas cidades. Tendência internacional provada pela UNFPA através dos dados revelados há pouco.


Apesar de Malthus ter errado, pois as técnicas agrícolas possibilitaram produção viável para alimentar a demanda existente e a marcha da população - 1 bilhão em 1800, 2 bilhões em 1930, 3 bilhões em 1960, 4 bilhões em 1974, 5 bilhões em 1987, 6 bilhões em 1999 - persistir, porém, de forma mais suave, ainda assim, para especialistas, em 50 anos a população somará novos 3 bilhões de indivíduos. Hoje, de cada cem pessoas que vivem no mundo, 61 estão na Ásia, 14 na África, 11 na Europa, 9 na América Latina, 5 na América do Norte e menos de uma na Oceania. O máximo crescimento demográfico deu-se na década de 1960 quando muitos países fizeram sua ‘transição demográfica’ trocando taxas de natalidade e mortalidade elevadas por outras baixas. Os europeus vivenciaram esta transição a partir do século XVIII enquanto os países em desenvolvimento a experimentaram na segunda fase do séc. XX. É uma quantidade compatível com os recursos existentes. O problema está na concentração de riquezas.
Em 2005 a ONU advertiu as autoridades num encontro realizado em Nairóbi, Quênia, que o número de favelas no planeta deve triplicar até 2050, chegando aos 3 bilhões de moradores. Em dois anos o número de favelados cresceu 50 milhões. Os mais ameaçados por esse processo são países periféricos do capitalismo industrial, ou seja, africanos, asiáticos e latino-americanos, com o Brasil ocupando uma posição de infeliz destaque. É uma reprodução em escala global do que aconteceu com os menos abastados súditos da realeza britânica naqueles idos da Revolução Industrial.


Entre os anos 1940 e 90 a taxa da população urbana brasileira passou de 25 para 80%. Em 30 anos, de 1960 a 90, elevou-se em mais 85 milhões os habitantes das cidades. Entre 1950 e 90 formaram-se 13 cidades com mais de 1 milhão de habitantes. 12 regiões metropolitanas – um conjunto de mais de 200 cidades – e 37 grandes aglomerações urbanas somam 47% da população. Regiões Metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, fenômenos da industrialização, concentram 34% da população brasileira. Saímos da economia baseada no café para uma grande diversificação em pouco mais de 30 anos, passando a exportar produtos siderúrgicos, automóveis, eletroeletrônicos, além de um vertiginoso crescimento do setor de serviços e financeiro. Contudo, sem um planejamento adequado e sem distribuir renda. Estima-se, minimamente, que haja no país um déficit habitacional de 7,5 milhões de moradias, representando nos últimos 10 anos elevação de um milhão de indivíduos nesta precarização. No clássico critério da ONU de cinco habitantes por moradia, projeta-se que 1/5 da população, mais de 35 milhões de patrícios, podem ser incluídos no nefasto censo. As metrópoles aparecem e com elas os bolsões de pobreza periféricos, com loteamentos clandestinos, moradias sem adequação, usos de locais de risco, ausência de infra-estrutura e violência. Déficits de presença organizacional do Estado. Apesar de todo esforço, por exemplo, no caso paulistano, como a criação de 121 km de corredores de ônibus municipais nos últimos 30 anos ou a inauguração de 35 mil novas moradias populares por ano, tudo ainda é muito pouco para uma megalópole de 11 milhões de habitantes, com mais de 5 milhões e meio de automóveis, congestionamentos gigantes diários, metrô entupido nos horários de pico e filas para qualquer motivo básico. Dos pobres instalados nas dez grandes metrópoles do país, 35,8% estavam em São Paulo no ano de 2004. Segundo o governo estadual paulista, a taxa de natalidade média na Grande São Paulo era de 1,65 filho por mulher, enquanto nas favelas o número chegava a 5,21. No total, havia 2.979 favelas na região e 1 milhão e 800 mil pessoas morando em barracos. A taxa de fecundidade brasileira, que vem caindo, em 2004 era de 2,1 filhos por mulher. Se paga agora o preço pelo descaso passado.


O fato é inexorável. Por isso é preciso providências. Os países desenvolvidos conseguiram um equilíbrio. Entretanto, o alerta para o restante do globo está dado. Não se pode tirar a liberdade de migração das pessoas. E é necessário suprir as condições básicas de sobrevivência, como moradia, saúde, educação e, evidentemente, geração de empregos onde quer que seja. No Brasil, a luta pela reforma agrária, pode indicar saída para fixação do homem no campo, desde que sejam dadas as condições para sua manutenção. Desfazer a concentração fundiária, assim, é fato óbvio. Melhorar as condições da vida no meio rural torna-se essencial, portanto. Por outro lado, concomitante a isso, cada governo urbano deve estudar com profundidade as características de suas insuficiências específicas e tratá-las com planejamento cuidadoso porque já se errou demais. Regularizar lotes em áreas de não risco ou mananciais e abrir de linhas de credito para construções populares e oferta de serviços públicos estimula a rede social. Revitalizar imóveis abandonados, construções ociosas, urbanizar favelas, reciclar o uso dos espaços já utilizados. É preciso se debruçar com vontade e espírito público para atacar essas questões, racionalizando a verba disponível e atingindo objetivos, envolvendo movimentos populares, escolas, igrejas, empresários, ONGs. Já que cada vez mais nos concentramos nas cidades é vital se intensificar o espírito coletivo, de pertencimento local. Cidadania.


De todo jeito, estas reflexões me levam a crer cada vez mais que o sistema capitalista precisa ser ultrapassado por um outro modo de produção menos predatório, excludente e poluente. O mesmo período de intensificação do avanço sobre as zonas urbanas industriais coincide com o afrontamento ao meio ambiente, chegando aos resultados presentes do alto aquecimento global, das extinções de várias espécies animais e vegetais, da contaminação de rios, lagos, mares e oceanos, exaustão de terrenos, desmatamentos, queimadas etc. O homem se pensa desvinculado da natureza. E hoje 3,3 bilhões de pessoas se confinam em apenas 2,8% da superfície terrestre, os grandes assentamentos urbanos. Migrações são determinadas por alternativa de trabalho e por motivações ambientais. É um caos que se agiganta em grande parte dos casos. E muitos ainda duvidam ou dão pouca importância, por mais que cientistas venham alertando para as conseqüências desse mundo futuro.


A humanidade está verdadeiramente numa encruzilhada: toma consciência e revê seu modelo exploratório de produção e sociedade ou a barbárie estará imperando no planeta num tempo não tão distante. É preciso uma nova ‘era de revoluções’, não mais pelos moldes dos interesses burgueses de lucro e imperialismo, como descrevem os estudos do professor Hobsbawn, mas por um outro ideal, solidário e harmônico, entre os seres e com seu espaço de conviver.


São Paulo, 30 de Junho de 2007, inverno na cidade.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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