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02/JUL/2007
Brasil/Política
Polêmicas governamentais pouco debatidas não
suscitam boa-fé
O governo Lula vem tomando algumas
atitudes que não estão deixando os movimentos sociais satisfeitos.
Se não bastasse a crise moral por conta dos casos do mensalão, da
máfia dos sanguessugas, das alianças com parceiros suspeitos e
outras coisas do gênero, a gestão anda agindo de maneira pouco
aberta às perguntas da população. Está faltando sintonia e maior
transparência. São temas polêmicos, sem dúvida, mas, é preciso
exatamente por isso maior entendimento e participação dos seus
eleitores nas discussões, a grande maioria dos brasileiros.
Vejamos:
Na madrugada de terça-feira, 26/6, a área destinada ao início das
obras da transposição do rio São Francisco na região de Cabrobó -
PE foi ocupada por entidades contrárias ao projeto vindas em
caravanas de vários estados vizinhos. Cerca de 1.200 pessoas. Eram
sem terra, indígenas, quilombolas, pescadores, sindicalistas e
religiosos – entre eles o bispo de Barra – BA, d. Luiz Flávio
Cappio, que em 2005 fez greve de fome durante 11 dias contra a
pretensão do governo. O terreno é o local onde o Batalhão de
Engenharia do Exército deu início aos trabalhos para construção do
canal de aproximação do Eixo Norte, uma vala de 350 m2. Os
movimentos iniciaram a montagem de um acampamento permanente e
ainda aterraram parte da área escavada. Exigem o arquivamento da
idéia e a criação de projetos de desenvolvimento local que
contemplem itens como a reforma agrária, acesso à água e a adoção
de alternativas e tecnologias voltadas à convivência com o
Semi-Árido. Os movimentos também buscam a retomada do território
em que as obras estão ocorrendo em áreas dos povos Truká,
Tumbalalá, Pipipã e Cambiwá, atingidas pela transposição. Num
manifesto, intitulado “O Nordeste é Viável sem Transposição e com
Ética na Política", afirmam que a região não precisa dessa
empreitada. A opinião publica está sendo manipulada. Declararam
que o governo erra, pois arrisca com problemas ambientais e
beneficia o capital. Não enxergam com isso o fim da política e da
indústria do combate à seca. Houve pressa nos estudos que não
foram completos, críticas de especialistas foram ignoradas, acordo
com o Comitê da Bacia não se cumpriu e políticos da região tiveram
apoio comprado com verba da revitalização, dizem. Tudo muito
estranho.
Outro fato tenso também nesta semana: o Conselho Nacional de
Política Energética aprovou a retomada da construção da usina
nuclear de Angra III cuja capacidade gerará 1.350 MW. A construção
terá investimentos de R$ 7,2 bilhões em cinco anos e meio. Apenas
metade desse orçamento terá licitações. Por exemplo, a construtora
Andrade Gutierrez teve acordo assinado em 1983 e será mantido,
após ter paralisado os trabalhos em 1986. A ministra Marina Silva,
Meio Ambiente, contrária à proposta atômica, foi voto vencido.
Entidades ecológicas alegam que tal gasto deveria seguir para
outras fontes de energia, como eólica e solar. A energia nuclear é
suja e arriscada. Há risco de acidentes. Para ONGs como o
Greenpeace, podemos ter muito mais energia se investirmos o valor
declarado em fontes alternativas e maior eficiência energética.
Segundo os pesquisadores do grupo inglês Oxford a energia nuclear
atende a 16% da procura mundial energética atual. Por isso, para
que tenha um papel importante na luta contra o aquecimento global,
necessário seria até 2075 que ela fosse usada por um terço da
população. Isso significa iniciar a construção de uma usina por
mês nos próximos 70 anos. Um absurdo e evidente perigo.
Para finalizar, uma terceira querela, a construção das usinas no
Rio Madeira. Em matéria publicada na Agência ADITAL, Luis Fernando
Novoa Garzón, sociólogo e mestrando na Unicamp, alerta que tal
solução não vai ampliar realmente o abastecimento energético
porque existem saídas de curto prazo bem menos impactantes e mais
baratas do que o decidido, como, por exemplo, a repotencialização
das velhas usinas, os programas de eficiência energética e,
também, as pequenas centrais hidrelétricas. Atenta para o que diz
ser uma área muito frágil, do ponto de vista ecológico, sem a
forte presença do Estado e que, portanto, significa também colocar
em risco a soberania sobre um território estratégico para o Brasil
e para os países vizinhos da América do Sul, pondera. Estaria se
oferecendo à sociedade brasileira alternativa que, no fundo, é do
grande empresariado e que requer energia em larga escala, em curto
prazo, sem medir conseqüências, sem compromisso com o
desenvolvimento sustentável da nação.
São apenas três questões, controversas, é verdade, mas todas
convergem para uma pressa governamental que causa estranheza e
indignação porque são custosas do ponto de vista financeiro,
envolvem fortes impactos ambientais, mexem com a vida de muita
gente e os resultados não estão claros sob diversos aspectos. É
evidente ser preciso maior debate e soluções honestas que
satisfaçam dentro das possibilidades os interesses mais amplos da
sociedade brasileira num maior consenso e, especialmente, que não
pairem dúvidas de lisura sobre as decisões.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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