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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

25/JUN/2007

 

Você está servindo a um Transgenicozinho?

Entre os desafios para erradicar a fome e as ambições particulares

Desde quando resolvi estudar Ciências Econômicas, passei a me interessar cada vez mais pelas leituras e pesquisas sobre as questões da desigualdade social no país. Afortunadamente então durante o ano de 1983 foi realizado na PUC-SP, onde era aluno, uma semana de debates com gente da área de economia, nutrição, política, sociologia, ecologia e dos movimentos sociais para tratar do tema “Raízes da Fome”. Aproveitava-se também para lembrar dos 10 anos de passamento de um grande brasileiro que durante aqueles anos de repressão, então em seu final à época, havia lamentavelmente morrido no exílio: o médico, professor e escritor pernambucano Josué de Castro. Ele foi, só para citar algumas de suas funções, presidente da Sociedade Brasileira da Alimentação de 1942 a 44, delegado brasileiro na Conferência de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas – FAO em 1947; presidente da FAO de 1952 a 56; convidado de governos internacionais para estudar problemas alimentares e de nutrição em países como Argentina (1942), EUA (1943) e França (1947). Escreveu, entre outros livros, os clássicos “Geografia da Fome” (1946) e “Geopolítica da Fome” (1961), obras pioneiras sobre o assunto no Brasil que denunciaram a vergonha da subnutrição num país com tamanho potencial agrícola e também como algo fabricado pelo homem, não um fenômeno natural, batendo desta forma frontalmente contra o neomalthusianismo. Sua “Geografia” foi traduzida para 25 idiomas e “Geopolítica” também teve muitas versões. As palestras acabaram sendo publicadas pela Vozes/Fase, com organização de Mª Cecília de Souza Minayo sob o próprio título dos encontros, “Raízes da Fome”. E Ricardo Abramovay, coordenador do evento, lançou "O Que é Fome" pela Brasiliense, mesma editora de antológicos livros de Josué de Castro, reconhecido postumamente 'Cidadão do Mundo'. Aquelas falas nunca mais sairiam da minha cabeça e, se o objetivo deles era a reflexão sobre a desnutrição ser um escândalo e não uma fatalidade, conseguiram seu intento. Ao menos sobre mim.


O malthusianismo alegava que a população cresceria geometricamente e a produção alimentar aritmeticamente, isto é, a progressão do nº de pessoas seria de tal forma violenta que não haveria comida para tanta gente. Pensou o aumento populacional como fator variável frente a um fator fixo produtivo, a quantidade de terras aráveis. No início da Era Cristã havia cerca de 250 milhões de pessoas no mundo, segundo a UNESCO. No século XVII 500 milhões de pessoas. Em 1900 havia 1,6 bilhão. Em cinqüenta anos pulou-se para a casa dos 2,5 bilhões. Mas, o salto para as dezenas de bilhões no ano 2000 não chegou nem próximo. Há cerca de 6,5 bilhões de seres no planeta hoje e a taxa de natalidade decresce em muitos lugares do mundo. teoria falhou. Se o fantasma do apocalipse da fome insiste, permanece, não é pelo excesso populacional em relação à pequena produção. O problema é a distribuição de renda: faltam recursos para os subnutridos poderem consumir as calorias, proteínas e vitaminas necessárias por dia. E mais: a culpa não é dos pobres. É do mecanismo que gera a miséria e tudo o que a cerca: falta de infra-estrutura sanitária, educacional, de saúde enquanto concentra fartura nas mãos, bolsos e mesas de poucos.


Em 1974 a FAO concluía no seu 4º Inquérito Mundial sobre Agricultura e Alimentação que havia alimentos suficientes para toda humanidade ter uma dieta adequada, isto é, o consumo das 2300 calorias médias diárias – o ideal varia de acordo com a idade e as atividades do indivíduo. Dados foram mostrados pelos debatedores: o então Terceiro Mundo tinha 450 milhões de subnutridos por falta de acesso ao alimento ou por não ter poder de compra enquanto os países centrais pessoas viviam problemas pelo excesso de alimentação. Havia, portanto, contraste entre abundância e desperdício versus carência violenta, a geração de uma ‘sub-raça’. Naquele início dos 80 o nosso país, por exemplo, era o 4º exportador de alimentos ao mesmo tempo em que tínhamos, segundo a FAO, o 6º lugar em subnutrição mundial. De acordo com a FGV em 1983 28 produtos alimentares e agrícolas tiveram elevação de preço acima dos 400% enquanto a inflação do ano tocou os 221%. Assim, quem tinha renda poderia consumir a produção não exportável e, portanto cara, enquanto a concentração fundiária permanecia sem ser tocada, sem haver maior equilíbrio de posses que beneficiasse pequenos proprietários. Em 1984 35 milhões de hectares no Brasil pertenciam às multinacionais. De 5,2 milhões de proprietários rurais, 540 mil detinham 80% das terras no país. 2 milhões de hectares de terras produtivas eram inexploradas. Uma questão de soberania e segurança nacional. Ficava clara a responsabilidade do modelo econômico. Tudo relatado na 3ª edição de “Raízes da Fome” (1987) que incorporou novos dados aos apresentados pelos estudiosos anos antes, naquelas noites no Tuca, na rua Monte Alegre.


Durante os anos 1930 os países desenvolvidos pensaram em ajudar com sua tecnologia a estimular os subdesenvolvidos a produzirem mais baseados em sementes selecionadas por laboratórios que, juntamente com pacote de fertilizantes, máquinas e agrotóxicos específicos, levantariam a produtividade das nações atrasadas. A chamada de ‘Revolução Verde’. Porém, elevar a produção iria mesmo baratear os preços e levaria comida para quem não tinha renda para comprá-la? Essa era a saída? Segundo o prof. Abramovay o governo dos EUA em 1974, por exemplo, determinou o aumento da superfície plantada em 24 milhões de hectares com relação a 1972, época de menor interesse nas cotações. Em 83, enquanto a seca assolava a África, agricultores norte-americanos recebiam isenções para deixar de plantar. Assim como o Canadá, cuja produção de cereais poderia aumentar em 50% se houvesse demanda efetiva para o consumo. Não há possibilidades de erro: sem dinheiro não se faz ou não se prosseguem negócios. Deste modo, a importação do kit tecnológico e suas reposições produzidas pelas multinacionais para haver aumento da colheita era a própria geração de maior dependência do terceiro mundo, embora resultados tenham sido alcançados: O México elevou em 20 anos três vezes o total da colheita e na Ásia países chegaram a acrescentar 20 milhões de toneladas ao ano a suas safras. Concomitante a tais fatos, os EUA entre 1962 e 72 elevaram as vendas de insumos fertilizantes – para que as super sementes funcionassem a contento – a 14 países pobres de US$ 22,7 milhões para US$ 143,7 milhões e em máquinas agrícolas de US$ 11 milhões para US$ 127,4 milhões no mesmo período. Uma mão lava a outra. Só que tem reflexos. Fora a dependência do consumidor pelos materiais importados, esse ‘progresso’ no campo expulsa os menos adequados estimulando o êxodo rural. No Brasil a década de 1970 teve por ano uma oscilação entre 1,4 e 1,7 milhão de pessoas rumando, sem eira e nem beira inúmeras vezes, para as cidades onde precisariam encontrar a geração de 300 mil novos empregos/ano, coisa inexistente dentro do quadro de crescimento econômico do país, mostra o professor. Lutar contra fome é lutar contra privilégios. E tudo o mais são regras de mercado que, aliás, são bem frias e visam lucro e competitividade.


Hoje, passados mais de 20 anos daquela Semana Josué de Castro, em plena era pós Guerra Fria, com Globalização capitalista e incontáveis avanços científicos, o tema da fome insiste dramaticamente em progredir. O Brasil ficou mais velho, entre 1940 e 2000, segundo o IBGE, declinou a fecundidade e a parcela de idosos subiu de 4,15 para 8,6%, com uma expectativa de vida agora de 70 anos. Se não fossem os benefícios da previdência em 2005 42,5% da população estaria abaixo da linha da pobreza e com eles a proporção cai para 31%. É muita vítima. E ainda estima-se em cerca de 15 milhões de patrícios os desnutridos segundo a FAO. No mundo, o combate contra a fome também deixa a desejar. Em 2006 constata-se a existência de 854 milhões de famintos. Para a entidade, erradicar esse flagelo continua sendo possível, desde que haja um bom entrosamento entre governos locais, ONGs e empresários que, de forma responsável, cooperem para o intento, fazendo chegar recursos às populações. Na África o nº de excluídos continua a crescer. Sintomaticamente, os investimentos em armas aumentaram nos últimos 10 anos em 37%, chegando a casa dos US$ 1,2 trilhão. Somente os EUA representam 46% desses gastos, consumindo US$ 529 milhões em 2006, de acordo com o Instituto Internacional para as Pesquisas sobre a Paz, da Suécia. Promessas de esforços chegam e somem, dissolvem-se com o passar dos dias e os problemas persistem infamemente.


No pós-‘Revolução Verde’, temos atualmente proposta dos países centrais pelo uso dos transgênicos, plantas criadas em laboratório com técnicas da engenharia genética, a transgenia, introduzidas desde 1973, que permitem extrair e cambiar genes de um organismo para outro, mudando e manipulando a estrutura natural dos organismos a fim de alcançar algum objetivo específico. Não há limites para esta técnica. A principal implicação é a quebra de barreiras entre diferentes espécies, permitindo artificialmente cruzamentos impossíveis pela natureza, envolvendo plantas, animais, bactérias e vírus. Quais efeitos podem resultar em seus processos bioquímicos e metabólicos? Se isso ao mesmo tempo é uma fascinante mostra da grandiosa capacidade de criação da inteligência, também traz consigo preocupações em relação ao seu uso. Afinal, sabemos o que outra característica humana, a ganância e, através dela, a busca do lucro, são capazes de fazer.


A natureza possui seus ‘próprios prazos’ para se revelar. O planeta tem mais ou menos 4,6 bilhões de anos de existência. Se o transformássemos em um indivíduo e déssemos a ele 46 anos de idade, somente aos 45 anos apareceriam os dinossauros. Nos últimos oito meses os mamíferos, na última semana o hominídeo, três dias antes de fazer 46 anos sofreria a última glaciação e o Homo Sapiens surgiria nas últimas quatro horas, descobrindo então a agricultura se tornando sedentário apenas nos 60 minutos finais. No último minuto é que aconteceria a Revolução Industrial e, nestes segundos restantes vividos, conseguiríamos colocar todo equilíbrio do meio ambiente numa crise sem precedentes, sujando a atmosfera e toda crosta, solos, rios, mares, lagos e oceanos.


Há muito o homem intervém na natureza. Para o bem e para o mal. Destrói e também contribui de forma intensa. Faz manipulações através de enxertos e alporquias para novos produtos. É muito comum vermos, por exemplo, ficus, avencas, orquídeas e rosas diferentes das originais. São híbridos com características mais fortes, dentro das suas respectivas famílias. Entre os animais, novos cães e gatos são feitos ao cruzarem as raças. Assim como a mula, híbrido do jumento com a égua, que é estéril. E por aí adiante. Contudo, normalmente, quotidianamente não ingerimos tais coisas. Pelo menos que não tenham sido testadas pelo tempo. Quero dizer com isso que, ninguém ainda, do ponto de vista da pesquisa científica, tem condições de afirmar categoricamente que o uso dos transgênicos na alimentação não resulte em efeitos colaterais, ou seja, não provoque danos a quem o coma. Estamos tratando de mutações nucleares recentes das células em laboratórios. É preciso muita precaução para seu consumo desenfreado. E sem contar os danos a biodiversidade, supressão de espécies benéficas, porque ele é mais forte e sua polinização pode sufocar as plantas naturais. É possível projetar aparecimentos de alergias pelas mutações, resistência a antibióticos, vírus ‘recombinados’, surgimento de ‘superpragas’ resistentes a herbicidas etc. Isto além da questão já discutida na ‘revolução verde’: necessitar de adubos e agrotóxicos específicos, cujos direitos são de pouquíssimos laboratórios transnacionais. Ou seja: mais da antiga dependência.


É possível se encontrar dados através do movimento ecológico Greenpeace sobre a avaliação feita ao longo dos nove anos iniciais de cultivos dos transgênicos nos EUA. Nos três primeiros anos do cultivo de plantas com resistência aos herbicidas, houve uma redução na quantidade de agrotóxicos usados nas plantações daquele país. Entretanto, do sexto ano em diante, a quantidade de agrotóxicos usada nas lavouras transgênicas aumentou muito. Surgiram "superpragas".
Atualmente, segundo o próprio Greenpeace, 99% dos transgênicos plantados no mundo correspondem a soja (61%), milho (23%), algodão (11%) e canola (5%). O lucro das empresas donas das patentes genéticas é proporcional à área plantada. Então, quanto mais importante a cultura, mais interesse em se desenvolver transgenia. No Brasil sabe-se que ao menos a soja e o milho transgênicos foram plantados sem autorização. E são produtos alimentares. A Argentina já plantou canola transgênica. É preciso atenção a ela. E o algodão também, embora este não sirva como comida. Em 2003 a Lei 10.814 autorizou o uso da soja transgênica sob pressão dos agricultores gaúchos, que disseminaram o produto na região de forma não oficial desde a segunda metade dos anos 90. Em março de 2005 foi sancionada a nova Lei de Biossegurança, que regulamenta o plantio e a comercialização das variedades transgênicas. Pelas regras toda e qualquer empresa que desejar plantar e/ou comercializar transgênicos precisa submeter um pedido à CTNBio - Comissão Técnica Nacional de Biossegurança.


Pois bem, há poucas semanas uma pesquisadora titular da CTNBio, Lia Giraldo da Silva Augusto, pediu afastamento do conselho por não concordar com os procedimentos do órgão, conforme denunciou a Adital – Agência de Informação Frei Titto para a América Latina e também o Greenpeace. Discutia-se o caso da aprovação da liberação da comercialização do milho da Bayer e também a votação do uso de um milho da Monsanto, o MON810. A cientista resolveu pedir sua saída. Ela afirma que os votos são pré-concebidos e são realizadas ‘artimanhas obscurantistas’ para as questões de biossegurança serem consideradas como ‘dificuldades ao avanço da biotecnologia’. A razão colocada em jogo na CTNBio é a racionalidade do mercado e não a biossegurança, explica ela. Em outras palavras, a saúde, a qualidade de vida e a ecologia ficam desprezadas frente aos interesses financeiros. Também o MST, que acaba de realizar seu 5º Congresso, criticou a facilidade de liberação desses produtos pelo governo. Especialmente porque, há poucos dias, na França, foi divulgado um estudo assustador que revelou as cobaias alimentadas com transgênicos apresentaram 60 diferenças em relação às cobaias alimentadas com milho convencional em seus órgãos internos. Houve alteração nos tamanhos de rins, cérebro, fígado e coração, além de mudança de peso, em ratos alimentados com milho transgênico por 90 dias, o que pode ser sinais de intoxicação. A base foi o produto da Monsanto, o NK603, que é comercializado na Europa. Em março, outra pesquisa, feita pelos Arquivos de Contaminação Ambiental e Toxicologia, em relação ao milho MON863, mostrou em primeira vez que um produto geneticamente modificado, liberado para o consumo humano e de animais, apresentou sinais de ter provocado efeitos tóxicos em órgãos internos de seres vivos. Estes produtos foram pedidos pela Monsanto para liberação também no Brasil.


Em síntese: o povo precisa ser informado em abundância sobre essas questões. Evitar sua ‘invisibilidade’ em meio aos ingredientes de pães, bolachas, balas, óleos etc. Não podem permanecer herméticas essas decisões. Debater é fundamental. Na mídia, na escola, na igreja, nas associações de bairro, nos partidos e sindicatos. É preciso prevenir para não precisar remediar. E os movimentos populares não podem baixar a guarda devendo, por tudo o que relatamos, ficar atentos e insistir em mudanças para melhorar a qualidade de vida dos brasileiros especialmente pela desconcentração de poder, pela elevação de sua renda, pela conquista de emprego formal, pelas possibilidades de freqüentar ao máximo os estudos e podendo se alimentar convenientemente conforme sua necessidade. A resposta não vem de ‘revoluções verdes’ ou mesmo da transgenia, ambas reforçando os caixas das grandes corporações, cultivando atrelamento. A fome, como há mais de 60 anos denunciava o brasileiro Josué de Castro, é um crime humano, não um fenômeno natural. A saída, portanto, está na justiça econômica e social vindas por um sistema menos predatório e mais harmônico entre os seres viventes neste organismo vivo chamado Terra.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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