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20/JUN/2007
G8, Periféricos e
promessas não cumpridas
Há poucos dias terminou na Europa a reunião anual do G8, o grupo
das sete nações economicamente poderosas do planeta – EUA,
Inglaterra, França, Alemanha, Canadá, Japão e Itália - mais a
Rússia. Em meio a comes, bebes e reuniões de trabalho, eles
analisaram o cenário da globalização, as questões do fornecimento
de gás russo para os parceiros europeus, a hipótese da construção
de um escudo antimíssil norte-americano junto à República Tcheca e
Polônia e uma base militar em parceria com a Rússia na República
do Azerbaijão. Declararam também serem relevantes as preocupações
sobre alternativas para evitar maior dispersão de poluentes na
atmosfera - aqueles que contribuem para o aquecimento - e
afirmaram igualmente a importância em se pensar no combate às
doenças e pobreza que atingem a África. Com uma pendenga aqui e
outra acolá retornaram para suas casas sem maiores angústias.
A rodada também apresentou como convidados do encontro cinco
países em desenvolvimento: Brasil, Índia, China, África do Sul e
México. Entre estes participantes do andar de baixo da economia
internacional a Índia afirmou que não adianta pressionarem porque
está fora de cogitação cortar mais emissões de gases, pois o país
precisa manter seu crescimento dada a dimensão nacional com mais
de 1 bilhão de habitantes. Na mesma arenga posiciona-se a China,
1,3 bilhão de pessoas, a vice-colocada como maior poluente. O
Brasil, por sua vez, reclamou pelo não esforço dos ricos em atacar
efetivamente a emissão de agentes tóxicos, já que são responsáveis
por mais de 60% do gás carbônico da Terra e iniciadores da
revolução industrial há quase dois séculos. E por aí foi. Muito
discurso, pouca clareza e mínimo esforço para decisões. Como
cortar 50% do gás carbônico até 2050 sem apoio incondicional de
Bush, dos demais industrializados e de chineses e indianos? É um
grande jogo de empurra. E que não reflete, nem pelos países
periféricos e muito menos pelos centrais, a necessidade de uma
reflexão profunda sobre o modelo de produção e consumo
massificado, desperdício e acumulo de detritos, realizado pelo
sistema capitalista global que usa o meio ambiente por um lado
como despensa e, por outro, como lixão. Pobre natureza.
Enquanto isso, do lado de fora do refinado balneário alemão de
Heiligendamm onde se deu a cúpula, a polícia teve trabalho no
período para conter as manifestações de protesto. Incluindo um
barco do Greenpeace que foi atropelado por embarcação da marinha
germânica. Agitações se espalharam pela vizinha Rostock. Mais de
1000 feridos totalizados. Um show, segundo organizadores, agregou
cerca de 80 mil pessoas. Dessa forma, tais grupos puderam mostrar
o mal-estar sentido por muitos, porém, pouco respeitado, pelos
senhores mundiais e seus vassalos. Os interesses econômicos
sobrepujam-se aos valores éticos universais sem a menor sombra de
dúvidas.
Há uma década os ricos recordaram da fome dos outros, em muitos
casos suas próprias ex-colônias de exploração. Agora a FAO –
Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação
divulgou relatório mostrando que nos últimos 10 anos a meta de
cortar pela metade o número de famélicos não está se dando
conforme deveria. Há ainda hoje 850 milhões de desnutridos no
planeta, sendo a maioria africana, onde as taxas se elevam. Os
técnicos dizem que não acontece comprometimento político e nem
ações imediatas concretas, tanto de governos locais quanto de
empresários, em sintonia com as organizações internacionais,
elementos básicos para reduzir a estatística.
Depois, em 2005, o G8 lembrou da falta de auxílio ao continente
africano. Comprometeram-se então a enviar uma ajuda anual de 50
bilhões de dólares até 2010. Não o fizeram, chegando a pouco mais
de 30% do anunciado até aqui.
Contudo, justamente dentro desta última década de projetos não
cumpridos, os gastos militares subiram 37%, tocando a casa do 1,2
trilhão de dólares. Os EUA lideram a corrida armamentista: em 2006
queimaram em sua ‘luta contra o terrorismo’ US$ 529 bilhões, valor
que representa 46% do conjunto mundial. Inglaterra, França,
Alemanha, Japão e China gastam cada um entre 4 e 5% do total entre
os países. A venda de armas também é um negócio em expansão,
crescendo 3% em 2005, sob a liderança de empresas estadunidenses e
européias, algo em torno de US$ 290 bilhões, de acordo com o SIPRI
- Instituto Internacional para as Pesquisas sobre a Paz, da cidade
de Estocolmo, Suécia. Gastos militares subiram 3,5% de 2005 para
2006. A Rússia, quarto país europeu em armamento, elevou 19% do
esforço em 2005 e em 2006 12%. Nos referidos 10 anos a Ásia
Central registrou um aumento extraordinário de 73%, com destaques
para o Azerbaijão e a Bielorussia, ambos pertencentes à extinta
URSS. Destaca o relatório do SIPRI que a mídia dá grande ênfase ao
consumo armamentista do Irã, tendo como fornecedor o mercado
russo. Todavia, ressalta que as transferências para Israel, Arábia
Saudita e Emirados Árabes por EUA e União Européia são muito mais
relevantes. E aponta ainda que exatamente as disputas pelos
recursos energéticos não renováveis - gás e petróleo, além da água
- podem estimular o mercado bélico por possíveis conflitos
territoriais no futuro. Assim, se outros planos, principalmente
aqueles por causas ambientais, humanitárias e pacifistas, não são
bem engendrados, ao mesmo tempo fica evidente que o mercado dos
arsenais é deveras eficiente e próspero.
O ser humano é, de fato, muito cínico.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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