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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

12/JUN/2007

 

Trabalhar é necessário, mas na época justa

O 12 de junho, dia dos namorados e véspera das comemorações pelo famoso ‘santo casamenteiro’, o lisboeta Sto. Antonio, marca outro acontecimento, bem menos romântico que estes anteriores, todavia também muito importante: o dia mundial da luta contra o trabalho infantil. Pois é, não bastasse a exploração sobre a mão de obra adulta, há ainda esse crime humanitário espalhado pelo planeta.


No início dos anos 90 calculou-se que tínhamos cerca de 8,4 milhões de crianças e adolescentes obrigadas a trabalhar no país. Hoje, este número reduziu-se para 5 milhões. Uma boa queda. E o Brasil tornou-se então referência na resolução dessa questão. Mas, ainda é um dado extremamente absurdo, considerando-se que essa gente entre 5 e 17 anos deveria estar estudando, se aprimorando, se preparando para ingressar no mercado de trabalho. Porém, a baixa renda familiar ou a inexistência de apoio de pais e parentes próximos, lançam esses menores à sobrevivência e tantas vezes ao total desamparo. E pasmem, desses 5 milhões de vitimas atuais, cerca de 1,6%, ou seja, 80 mil indivíduos, tem entre 5 e 9 anos de idade apenas.


O esforço feito até aqui pelos governos e empresários surte efeito. Contudo, é pouco. Não basta. Há muito ainda para se erradicar definitivamente essa vergonha. As meninas são ‘contratadas’ para lavar, passar, cozinhar e cuidar de crianças menores que elas. Isto quando não são capturadas pela prostituição. Os meninos catam bagulhos, materiais que possam ser aproveitados para reciclagem, vendem bugigangas nas ruas e fazem acrobacias nos faróis. Servem de entregadores para narcotraficantes. Estes fatos não podem ser tolerados. A cidade de São Paulo, por exemplo, tem pelo menos 210 mil crianças forçadas ao batente e o Estado é o 4º colocado dentro do Brasil em uso de mão de obra infantil. Como forma de combate há o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti) que tem cadastrado na metrópole paulistana mais de 4300 crianças recebendo bolsa de R$40 mensais. Complementam essa ação atividades culturais e pedagógicas prestadas em 401 núcleos sócio-educativos. Se estiverem também cadastrados no Bolsa Família, os recursos sobem para R$ 95. Não custa lembrar que o Ministério da Educação está em franca campanha para aumentar as matrículas a partir de 6 anos de idade. Cerca de 4% do PIB é gasto em educação e batalha-se para que isto chegue a 5% e se sustente nessa elevação nos próximos 10 anos visando aprimoramento do setor. Criança tem que ir para a escola e aprender, dar asas a imaginação, criar e construir conhecimento. É crime na Constituição utilizar trabalho de menores de 16 anos, exceto em caráter de aprendiz. Até o final de 2007 a meta do governo é tirar mais 1,5 milhão de menores da labuta.


De acordo com a OIT há hoje 230 milhões de crianças trabalhando no mundo e 130 milhões estão no campo, sendo utilizadas no plantio e colheita de produtos agrícolas. A faixa etária desses trabalhadores mirins vai de 5 a 14 anos. São parte da cadeia de produção de alimentos e bebidas, além de fios para o setor têxtil. Na área urbana estão envolvidos no setor informal da economia. Calcula-se que na China, grande referência do capitalismo contemporâneo, haja 70 milhões de menores em tais condições abusivas.


O seqüestro desse período tão curto na existência humana não pode ser tolerado pelas sociedades. Os adultos devem ser responsáveis por elas. Criança é feita para brincar, estudar, se alimentar bem e se divertir. Trabalhar não é ruim, mas tudo tem seu tempo certo.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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