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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

08/JUN/2007

 

Negros e pobres se destacam no ProUni

Quando entrei na escola, ao final dos anos 60, estudei no SESI da Rua Catumbi, Bairro do Belenzinho na cidade de S. Paulo, onde fiz meu pré-primário e, depois, primeiro ano. Nesta classe fui aluno de uma professora circunspecta, dona Wanda, uma mulher negra. Confesso que naquele período nem me tocava sobre estes aspectos. Gente era tudo a mesma coisa. Embora, com algumas diferenças. Por exemplo, meninos e meninas. Fortes e fracos. Ou outras particularidades, tipo quem tinha a lancheira mais legal, quem era o mais rápido na corrida ou quem acertava mais os exercícios propostos. Essas eram algumas das distinções que fazia do alto dos meus sete anos. E quanto a minha p’ssora – assim que a gente a tratava –, o que ressaltava era sua seriedade. Ela não dava moleza para a garotada. Era rigorosa em seu trato conosco. Só mais tarde é que fui verificar estar envolvido por uma sociedade que ressaltava as diferenças por outros aspectos que não aqueles meus infantis punindo os indivíduos com uma coisa chamada preconceito. E aquela mestra seria uma raridade para o restante de minha existência.


Ao mudar para a zona norte, estudei da segunda série até o final do colégio em escolas públicas. Primeiro na prefeitura e, em seqüência, no estado. Não me lembro de ter tido outro professor negro. Isto vale até minhas pós-graduações. Quanto aos colegas, ao menos aí, havia vários afro-descendentes. E, entre essas pessoas, uma se destacou muito e tornou-se para mim exemplo de perseverança. Por volta dos meus 15 ou 16 anos conheci dona Benedita numa tarde de final de verão. Era 1977 ou 78. Ela, corajosamente, com três filhos em fase de adolescência, resolveu voltar a estudar depois de afastada da escola vários anos. Dona de casa de família humilde saía daquela rotina quotidiana de limpar, passar e cozinhar para se aventurar num curso regular, no meio de um bando de moleques cheios de espinhas na cara e hormônios pululando. O marido, sr. Pedro, ficou na dúvida. - Será que vai dar? -pensou. Decidida, ela foi, enfrentou e venceu. Não apenas viu seus filhos concluírem o colégio e ingressarem na faculdade, como assim o fez também. Com muita disposição, prestou vestibular na PUCSP e entrou para cursar Ciências Sociais. E, mais tarde, saltou da graduação para a pós, realizando um mestrado. Grande performance, digna de aplausos.


Lembro dessas coisas quando vejo os recentes resultados do ENADE – Exame Nacional de Desempenho de Estudantes e constato algo muito interessante: os bolsistas, em sua grande maioria pobres e negros, quebraram mais um preconceito e mostraram seu valor. De acordo com o MEC os estudantes do ProUni tiveram média melhor do que os outros. Para ser do ProUni é preciso ter estudado o ensino médio na escola publica ou no setor privado com bolsa total. Em 11 das 14 áreas que houve participação eles tiveram um desempenho superior aos demais. Tanto em humanas, quanto em biológicas ou exatas. Esses fatos servem para fortalecer o repúdio à discriminação. E, mais ainda, para estimular a importância de se aumentar políticas que possibilitem inclusão, que dêem chances aos menos privilegiados. Especialmente aos de etnia negra que nunca foram reparados por conta do crime humanitário referente a 4 séculos de escravidão que levaram nas costas a economia brasileira e ao ser assinada a Lei Áurea não tiveram ajuda para seus destinos. Tornaram-se “livres” para viverem em cortiços, barracos ou habitarem as ruas, sendo preteridos inclusive pela imigração estrangeira. Tudo isso há pouco mais de 110 anos apenas.


Quantos talentos são desperdiçados por falta de recursos, sendo condenados a uma existência degradada, cheia de privações e violência nas periferias e favelas, sendo seduzidos pela escapatória via banditismo ou o tráfico?


Somos uma nação com 6,2% de negros assumidos, mais 38,5% que se colocam como pardos (IBGE/2000). O ideal democrático de uma sociedade justa não comporta racismo e preconceito. Os resultados do ENADE são mais uma boa constatação nesse sentido. Tomara que muitas professoras Wandas e mestras sociólogas Beneditas se formem por este país afora para ajudar a fazer daqui um lugar de gente mais educada, solidária e feliz.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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