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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

01/JUN/2007

 

Violência

O Hábito do Espancamento Feminino

 

Não há nenhuma novidade, infelizmente, quando se sabe que ocorreu mais um crime na cidade. Assalto seguido de morte. Os telejornais de final de tarde estão cheios deles e os matutinos pendurados nas bancas idem. Trágico quotidiano. No entanto, chamou a atenção o caso ocorrido na Vila Alpina, zona leste de S. Paulo, revelado pela mídia em 30 de maio.


Em resumo: casal de idosos morava tranqüilo com seu cachorro de estimação e, todo final de semana, a senhora ligava para o neto, metalúrgico de 27 anos, querendo trocar notícias. A última vez que se viram foi no dia das mães. E transcorria sem maiores transtornos. Mas, neste último domingo, não houve contato. Nem na segunda e terça feiras. Então, o rapaz preocupado resolveu averiguar. Foi até o local e o achou todo mudado, incluindo móveis, com uma placa de vende-se na porta e um pedreiro na parte de dentro fazendo reforma. Assustado, perguntou se sabia o paradeiro dos proprietários e recebeu como resposta que a casa tinha sido negociada e ele não dispunha de outras informações. Ligou para a polícia. Quando a viatura chegou o pedreiro repetiu que apenas fazia um serviço encomendado. Porém, uma mancha de cimento recente no fundo do quintal chamou a atenção. Estourada, denunciou o fato: o casal estava enterrado, amarrado e encapuzado com sacos plásticos na cabeça. Junto com o seu cachorro de estimação. Soube-se que o pedreiro era conhecido de um dos filhos deles e estava sendo abrigado pelos idosos porque havia pouco tempo em liberdade após passar período encarcerado e não tinha para onde ir. Frieza, não?


O que, porém, para mim se destacou no cruel acontecido foi a postura passiva das pessoas diante da atrocidade que presenciavam. Sim, os vizinhos ouviram toda gritaria vindo de dentro da residência do casal. Perceberam a voz desesperada da senhora, ruídos entre outros sons, noites atrás. Todavia, declararam achar que era briga de casal, que ela estava apanhando. Assim, ninguém se mexeu para conter o problema. A mulher estaria sendo surrada pelo esposo: normal, coisas de casamento... Aliás, este episódio veio à tona coincidindo com a soltura na carceragem da Casa Verde, zona norte paulistana, do cirurgião plástico Jorge Farah que matou e esquartejou sua amante quatro anos atrás. Como ainda não foi julgado, mesmo tendo confessado o crime e, segundo o STF, por não oferecer risco à ordem publica, foi liberado. É tudo uma grande barbárie. Em pleno século XXI e no Estado mais rico da Federação. Imaginem como são as coisas nos cafundós.


No planeta, um terço das mulheres já foi espancada, forçada a fazer sexo ou sofreu algum outro tipo de abuso durante sua vida. E o autor da agressão é, na maior parte das vezes, alguém muito próximo, membro da família. É uma violação constantemente reproduzida contra os direitos humanos e, ao mesmo tempo, como podemos notar, dos menos reconhecidos. Lamentavelmente em todos os quadrantes a violência sobre a mulher permanece, inúmeras vezes, ocultada. Existe o temor de represália de maridos, pais, parentes, chefias etc. Há, por conseguinte, uma série de danos físicos, psicológicos e sexuais que desgastam a pessoa vitimada, tratada como coisa, como objeto. Algo tão sério que em 1993 a ONU adotou a Declaração para Eliminação da Violência Contra as Mulheres e no ano de 94 foi a vez da OEA com a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher entre outras instituições internacionais.


É de extrema importância que mobilizações sejam feitas de forma permanente para exterminar atitudes e comportamentos que não criminalizem a bestialidade contra os seres do sexo feminino, meninas ou adultas. Esses hábitos nocivos precisam ter um fim. Assim como a falta de indignação frente a atos de violência contra outro ser humano. Não dá mais para aturar.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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