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31/MAI/2007
Brasil
Movimentos Sociais
reclamam de abandono por parte do Governo
Quando o PT venceu as eleições e Lula
foi empossado Presidente da República em 2003 muita gente tinha
esperança que o país, finalmente, pudesse rumar a um destino de
maior justiça social. Era a primeira vez que um partido concebido
como ‘de esquerda’ chegava ao poder desde que o Brasil se formou.
Atenções gerais se voltaram para cá. Claro que os menos eufóricos
já previam uma luta dura, afinal, a resistência secular dos
conservadores seria tenaz e eles tentariam, de qualquer maneira,
bloquear os avanços das aspirações populares. Algo normal. Mas,
havia a confiança de que aquele nordestino retirante, operário,
líder das greves no ABC durante o período militar nos anos 70,
junto com seus conselheiros, pegariam firme as rédeas e tocariam
na direção de enfrentar os desafios tão enraizados nesta nação,
como melhor distribuição de renda, investimento em saúde e
educação públicas de qualidade, punição aos corruptos, reforma
agrária e tantas outras questões.
Com o passar dos meses, porém, pode-se perceber que a esperada
combatividade estava sendo acomodada por conchavos, preço pago
pelas alianças eleitorais com grupos tradicionais há muito
encastelados no poder. Além disso, o próprio Partido dos
Trabalhadores, num processo que já vinha se desenhando ao longo de
seus Congressos, passou a punir seus militantes mais desafiadores,
promovendo o expurgo de vários deles da sigla, numa confirmação de
ajustamento mais conciliador. Assim, aos poucos, pode-se constatar
na prática que o governo manteria uma continuidade na política
econômica tucana - justamente a que fora, ou pensávamos tivesse
sido, derrotada na eleição - com altos juros, pesada carga
tributária e forte controle de gastos para a calma dos credores.
Incluindo a manutenção de uma tributação regressiva, onde há
muitos impostos e pobres pagam como se fossem ricos. Resultado: o
emprego formal não cresce como precisa, a massa vive de ‘bicos’ na
informalidade entulhada na periferia e os rentistas seguem
preservados em seus privilégios. Entretanto, conseguiu a
reeleição, com importante participação dos humildes beneficiados
pelo Bolsa-Família.
No dia 23 de maio houve uma mobilização dos movimentos sociais
pela luta de ‘nenhum direito a menos’ porque, além de toda
frustrante descrição acima no governo encabeçado pelo PT, ainda há
o irônico risco de perdas de direitos trabalhistas conquistados há
décadas, a chamada ‘flexibilização das relações’ entre patrões e
empregados.
Dois dias após as manifestações nacionais o secretário-geral da
Presidência, Luiz Dulci, se reuniu em S. Paulo com os dirigentes
do ato para um diálogo. Ele tentou mostrar o bom desempenho na
área econômica. Contudo, não convenceu seus interlocutores. Há
idéias como a previsão de R$ 170 bi para investimento em habitação
e saneamento básico. Só que os interesses dos componentes das
alianças do governo não convergem para o mesmo ponto. Então, ficou
muito claro que se não houver pressão popular a verba não sai. A
direita não pretende dividir o dinheiro público com políticas aos
mais carentes. E choveram as reclamações: por que cortar o direito
de greve dos servidores? Por que agora os usineiros são heróis?
Por que Lula não recebeu os movimentos sociais que já tiveram 3
audiências pedidas, como o fez com Bush duplamente em apenas um
mês? O governo só procura os movimentos sociais quando está em
crise? E, de fato, assumiu Dulci: “No auge da crise do Mensalão o
governo perdeu a governabilidade política, mas não a social. Se
tivesse perdido as duas, não se sustentaria”. Então, prometeu
levar as queixas ao Palácio do Planalto.
Como uma das maiores características do brasileiro é ter fé, já
que 97% da população dizem crer em Deus, vamos esperar que Lula
desça do pedestal e se mobilize efetivamente por aqueles milhões
que ainda hoje reproduzem suas origens pobres de migrante. Se é
inviável a revolução, que ao menos vingue uma verdadeira inclusão.
Os movimentos sociais não podem arredar pé.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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