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28/MAI/2007
A Banda dos Corações
Solitários do Sgto Pimenta faz 40 Anos
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Manuel de Almeida/Lusa

Disco dos
Beatles "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", faz 40 anos. |
Eu já estava com 15 ou 16 anos quando
fui apresentado à famosa ‘bolacha’. Tenho quase certeza que foi na
casa de um amigo de colégio, o Marcelo, cujo irmão tinha um acervo
fantástico de bandas de rock, folk e blues dos anos 1960 e
daqueles 70. Um tesouro incrível guardado numa residência singela
no bairro do Carandiru, zona norte de S. Paulo. Nós, mais Pedrão,
Ricardo, Miguel e meu irmão Mauro, fizemos naquela época uma
beatlemania extemporânea. Que, ao menos para mim, não acabou até
hoje. Sinto ainda um grande prazer em desfrutar o trabalho daquele
quarteto em cada um de seus LPs lançados entre 1962 e 70. Difícil
ter vontade de pular faixas. É um tema atrás de outro que se ouve
e já quer cantar junto. John, Paul, George e Ringo constituíram um
grupo muito especial para a música popular internacional. Tanto
que foram adequados à musica sinfônica, ao jazz, ao nosso choro e,
recentemente, trilha de espetáculo do Cirque du Soleil entre
outros. Não há normalmente qualquer disco da sua coleção vendido a
preço de banana nas casas comerciais. Quer dizer, permanecem,
depois de 27 anos de sua dissolução como conjunto, ainda muito
procurados e, acima de tudo, queridos. E o tal vinil especial, há
4 décadas, se mantém festejado, uma referência para muitos pelo
mundo afora. Sejam ou não beatlemaníacos.
Entre 1994 e 95, George Martin, produtor musical, chamado de ‘o 5º
beatle’, lançou um livro de memórias e denominou sua experiência
com os quatro rapazes de ‘aquele conto de fadas’. Intitulou seu
escrito de “Paz, Amor e Sgt. Pepper”, tendo servido sua pesquisa
também para o lançamento de um documentário para a televisão. No
seu prólogo recorda os acontecimentos vividos naquele período. Os
norte-americanos despejavam 800 toneladas de bombas por dia no
norte do Vietnã; Mao Tse Tung fazia a Revolução Cultural na China;
o povo de Biafra passava fome na África e, entre outras coisas,
acrescento ao sr. Martin, a América Latina iniciava um período de
endurecimento político com golpes de estado, como o ocorrido no
Brasil em 1964. Ou seja, muitos conflitos e violência. Mas, também
coisas bem positivas. Good Vibrations. Mobilizações populares,
energia, idealismo, psicodélica esperança, apesar de tudo, numa
‘Nova Era’ de paz. Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Bob Dylan, Rolling
Stones, Doors, Beach Boys, The Who. Cá em Pindorama, tínhamos o
cinema de Glauber Rocha, o teatro de Zé Celso Martinez Correa, os
festivais da MPB com tantas promessas despontando com Elis, Chico,
Milton, Edu Lobo, Vandré, Nara, Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, a turma
da Jovem Guarda. Então, para fazer a trilha da ocasião, aconteceu
aquela intitulada por George Martin de ‘a sinfonia hippie nº1’.
Levada pela gravadora EMI ao público consumidor em 1º de junho de
1967 havia sido, porém, executada pelas ondas da pirata Rádio
London em 12 de maio de 1967. E, na versão oficial, teve como
estréia a execução da faixa A Day in the Life pela BBC em
21.05.67. Estava chegando, enfim, aos ouvidos do planeta o
lendário Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band dos Beatles.
Foram seis meses nos estúdios em Abbey Road com seus quatro canais
aprimorando idéias num custo de 25 mil libras. Tinha que sair algo
de especial, numa seqüência que já incluíra trabalhos belos como
Robber Soul (1965) e Revolver (1966). O seu som estava ficando
sofisticado - como prova a composição e produção da canção
Strawberry Fields Forever que acabou sendo lançada num compacto
simples tendo como outro lado Penny Lane - e não era mais possível
fazer o que desejavam em excursões e shows para estádios berrando
ininterruptamente, apesar da dúvida quanto a isso do amigo e
empresário Brian Epstein. Os quatro e seu produtor desejavam fazer
algo diferente do que acontecia. Queriam colocar em xeque o mundo
do rock, da música pop. Ajudar a agitar ainda mais aqueles tempos.
Por isso puseram suas imaginações para ferver. E, de fato,
conseguiram criar um disco estranho, curioso, atraente. Um
encontro de sons do ocidente com o oriente. Místico, tecnológico,
livre para voar, ou melhor, para capturar o incauto ouvinte. Uma
obra de 40 minutos de duração – ou curtição – embalada por uma
capa não menos bolada, cheia de significados explícitos e
implícitos, contando com imagens de personalidades da literatura,
política, música, cinema que foi desenvolvida em parceria com
artistas do movimento pop art Peter Blake e Jann Haworth. Desde
então muita gente a imitou ou se inspirou nela, caso dos baianos e
seu Tropicália ou Panis et Circencis. Era um todo aquele trabalho.
Pura contracultura na forma e no conteúdo. Hoje, com os MP3 e
afins digitalizados, esse barato de pegar o álbum, olhar a capa,
ler os detalhes, símbolos e cores estão perdidos artisticamente. E
eu acho isso uma pena...
Quando a agulha do pick-up toca a superfície do lado A no disco
ouve-se aos poucos o burburinho de um público em crescendo,
afinação de alguns instrumentos, até que entra o som cortante do
rock cantado por Paul McCartney, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club
Band, convidando a todos para o espetáculo, para o show sonoro,
que a imaginação deveria se incumbir de dar feitio na mente de
cada um. Eles conceberam um outro jeito de excursão sem sua
presença física. Ao encerrar a entrada, o tema é atrelado à canção
With a Little Help From My Friends, cantada pela voz limitada do
baterista Ringo Starr e que seria um grande sucesso do também
britânico Joe Cocker em sua apresentação no pacifista Festival de
Woodstock em 1969. Chegando sua finalização entra Lucy in the Sky
with Diamonds com John Lennon, ocultando para muitos uma viagem de
LSD, contudo, atribuída por ele a um desenho infantil de seu filho
Julian. Segue então Getting Better, com sons de cravo, piano e
instrumentos indianos, levada por Paul, também líder vocal na
seqüência com Fixing a Hole, que teve parte da gravação fora de
Abbey Road porque Paul inspirou-se em momento de não
disponibilidade dos estúdios e, como não sabia escrever música,
igualmente aos outros três, precisou gravar o que tinha na cabeça
onde encontrasse chance. Fizeram o serviço básico no Regent Sound
e concluíram os retoques ‘em casa’ mais tarde. Ao seu final surge
uma harpa que anuncia a chegada de She’s Leaving Home, também
cantada por Paul, tendo o contraponto de John e um conjunto de
cordas como base: quatro violinos, duas violas, dois cellos e um
contrabaixo. Foi, no entanto, o único arranjo não feito por George
Martin, substituído por Mike Leander. Entra, depois, John com
Being for the Benefit to Mr. Kite, uma faixa bem psicodélica onde
é possível se sentir num carrossel, num picadeiro. Tremenda viagem
inspirado num cartaz de propaganda circense vitoriano. E então, o
girar sossega momentaneamente. Pausa para virar o LP.
O lado B chega com uma atmosfera bem misteriosa. With You Without
You, de e com George Harrison, sua única composição a entrar no
álbum. E não contou com os demais beatles por ser baseada num mix
de orquestração ocidental com um grupo indiano com tablas,
tambouras, dilrubas e cítara, tocada por George, que durou mais de
11 horas de gravação. Foi inspirada na tradição dos Vedas, onde
nada é mais importante musicalmente que a voz. George havia ficado
atraído pela música indiana anos antes. Certa vez contou: “Ela não
fazia nenhum sentido para mim, mas em algum lugar aqui dentro fez
um sentido absoluto. Mais do que qualquer coisa que já tivesse
ouvido antes”. When I’m Sixty-Four é uma faixa bem humorada
composta por Paul e conta com arranjo de trio de clarinetas e
toque de sino. Ele interpreta como um nostálgico crooner de
vaudeville. Homenageava o pai. Hoje, Paul já tem 65. Vem então
Lovely Rita, cantada também por Paul, com momentos dobrados por
John no refrão. Há um solo central de piano curto e bem bacana.
Uma canção simples, mas que tem vários detalhes sonoros e acabou
levando mais de 15 dias para ser concluída. Good Morning, Good
Morning é uma tremenda gozação, começando com um cocoricó de galo,
há um naipe de metais ao fundo e a colagem de vários sons. Segue,
sem pausa, uma reapresentação mais pesada de Sgt. Pepper’s Lonely
Hearts Club Band, com apenas 1:20 minutos e, então, a trajetória
encerra-se com A Day in the Life, considerada por muitos o mais
importante registro do álbum, um retrato do quotidiano londrino. É
cantada por John em quase todo o tempo, excetuando-se o trecho
central que é conduzido por Paul pintando a rotina de um cidadão.
O acorde final atacado no piano e nas cordas dura até o
encerramento de suas vibrações ao longo de 42 segundos gravados.
Foram 41 músicos clássicos para fazer acordes em espirais e 24
compassos deslizando durante o tempo de fecho. A sessão foi uma
espécie de happening, pois além dos instrumentistas os quatro
beatles, vestidos com roupas flower power, ainda trouxeram mais 40
amigos para assistirem ao evento, entre eles Mick Jagger, Brian
Jones e Graham Nash. E uma porção de crianças, segundo relato do
produtor e arranjador George Martin. Os quatro beatles percorreram
as cadeiras dos músicos e distribuíram a eles óculos
multicoloridos e outros adereços carnavalescos. Bolhas de sabão,
estrelinhas de fogos, cheiro de incensos no ar. O líder da
Filarmônica de Londres usava um enorme nariz vermelho. Era,
conforme o produtor, um orgasmo orquestral. Isto apenas 5 anos
após o contrato firmado por 3 anos com o grupo em 4 de Junho de
1962 para o disco de estréia na EMI, selo Parlophone, Please,
Please Me, com suas 14 músicas em poucas horas de estúdio. Estavam
no auge de sua criatividade. E tinham acabado de concluir uma obra
seminal da música popular internacional.
Ao longo de todos esses anos, desde que fui apresentado ao
referido trabalho, não afirmo categoricamente que seja o meu
eleito. Talvez sim. Gosto muito também do Álbum Branco, do Let it
Be e do próprio Abbey Road. É difícil como fã escolher. Todavia,
para quem curte uma boa música popular, bem elaborada, inteligente
e, sobretudo, bonita, é certo que se tem em qualquer dos vários
discos dos Fab Four momentos de emoção e inesquecível prazer
sonoro. Os Beatles são um patrimônio cultural internacional, não
apenas de Liverpool. Esse é um fato. E esta Banda dos Corações
Solitários do Sargento Pimenta que tocou há 40 anos atrás não
deixa dúvidas disso.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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