SERVIÇOS >> EDITORIAIS / COLUNAS
 

Comente este artigo.

» Colunas do Autor

25/JUN/2007

» Você está servindo a um Transgenicozinho?

20/JUN/2007

» G8, Periféricos e promessas não cumpridas

12/JUN/2007

» Trabalhar é necessário, mas na época justa

11/JUN/2007

» Negros e pobres se destacam no ProUni

08/JUN/2007

» Os Benefícios da Previdência Social

01/JUN/2007

» O Hábito do Espancamento Feminino

31/MAI/2007

» Movimentos Sociais reclamam de abandono por parte do Governo

28/MAI/2007

» A Banda dos Corações Solitários do Sgto Pimenta faz 40 Anos

18/MAI/2007

» O Companheiro Bush, o Etanol e os Bóias-Frias

16/MAI/2007

» Ambições atrapalham metas de Equilíbrio Ambiental

11/MAI/2007

» O Revigoramento do Ensino Técnico

» Bang-Bang sem final feliz

05/MAI/2007

» Papo com a Janaína Repórter

03/MAI/2007

» A Voz dos Professores

29/ABR/2007

» Educação e Qualidade só podem dar samba

27/ABR/2007

» Meio Ambiente pede por novo modelo de civilização

25/ABR/2007

» Abril tinge o Campo de Vermelho

23/ABR/2007

» 23 de Abril, Dia de São Pixinguinha: Ano 110

23/ABR/2007

» Brasileiros velhos sem saúde e Previdência

05/ABR/2007

» A Educação na Cratera

19/MAR/2007

» Água Doce

09/MAR/2006

» O Companheiro Bush

02/FEV/2007

» O Inferno está aqui?

30/JAN/2006

» Uma Proposta para ajudar a Educação

 
 

Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

18/MAI/2007

 

O Companheiro Bush, o Etanol e os Bóias-Frias

A última parte do 4º relatório sobre o aquecimento global foi publicada e nela os 2500 cientistas que estudam o assunto apontam a necessidade urgente de investir 3% do PIB mundial até 2030 para amenizar as conseqüências dos estragos naturais que o capitalismo realizou. E, como parte da solução para o problema ecológico, o etanol brasileiro surge em substituição ao petróleo que, além de escasso, é poluidor da atmosfera.


Há cerca de dois meses o presidente dos EUA G. W. Bush visitou e recepcionou Lula. Teve intenção de mostrar que está atento aos movimentos dos governos populares e da formação da aliança Bolivariana, encabeçada pelo venezuelano Hugo Chávez, com quem temos boas relações e é opositor das demandas imperialistas dos norte-americanos no continente. Mas, como os EUA são grandes consumidores de petróleo, o mercado de etanol também foi assunto dos encontros.


Eles produzem etanol, porém, o extraem do milho. Seu custo de produção – que envolve carvão e gás para obtenção do álcool - acaba encarecendo o produto final e ainda pode ter maior desvio para os tambores de combustível que para as mesas da população, como pratos da culinária de seus vizinhos mexicanos, porque este grão serve igualmente de matéria prima para fins alimentares. O etanol brasileiro, por outro lado, vem do bagaço da cana de açúcar e tem um poder energético 8 vezes maior que aquele. Muito mais interessante sob essa ótica, portanto. Então, nossos usineiros estão radiantes com as possibilidades lucrativas que se desenham e já são tratados como heróis por Lula. Uma euforia.


Em meio à festa surgem, contudo, vozes de alertas. Para aumentar a área de plantio de cana pela pressão internacional teme-se pelo desmatamento, pela degradação ambiental. Lavoura de cana consome muito fertilizante químico e exaure o solo. Uma maior disputa por terras é outro efeito colateral. O fortalecimento dos latifúndios, a intensificação das aquisições no setor pelas multinacionais é sério risco. Como os pequenos proprietários serão beneficiados se os custos para produção de bioenergia não são baratos? E as ausências dos direitos humanos e trabalhistas, tão comuns no campo e repetidamente denunciados por entidades, têm nos canaviais um dos piores cenários. Não se acentuarão?


Nessa folia ninguém se lembra da questão dos bóias-frias. Em 2006 a Pastoral do Migrante publicou artigo de pesquisadores da UFSCar onde se detalhava todo sistema de produção da cana e denunciava por que os trabalhadores despencavam mortos em plena labuta. Mostrando a intensificação do processo, desde a implantação do Proálcool – maior programa público de incentivo ao combustível alternativo no planeta – nos anos 1970 até os dias atuais, constata que hoje os trabalhadores para manterem seus empregos devem cortar, em média, 12 toneladas de cana por dia. Um aumento de 100% de produtividade desde os anos 80. Resumidamente: diariamente o bóia-fria deve caminhar cerca de 8.800 metros, realizar mais de 366 mil golpes de facão e carregar 12 t em montes de 15 kg em média, ou seja, 800 trajetos sustentando 15 kg nos braços em uma distância de 2 a 3 metros. Faz mais de 36.600 flexões de perna para golpear a cana e, por fim, perde 8 litros de água em média por dia para realizar sua tarefa, sob o forte sol interiorano, com toda poeira e condições da própria movimentação local, incluindo queimadas. Isto não é um relato da era mercantilista. É um retrato do século XXI no estado de São Paulo. Pergunta o engenheiro e professor da UFSCar, Francisco Alves: - quantas mortes não devem ocorrer clandestinamente por esses latifúndios afora?


Brasil e países equatoriais não devem se confortar em ser neocolônias, meras áreas para plantio em larga escala de matéria-prima energética para os países mais desenvolvidos. Essa postura lembra a clássica Teoria das Vantagens Comparativas, de David Ricardo, e não pode ser retomada porque provou historicamente que, em longo prazo, país que se especializa em produto primário perde para aqueles que agregam tecnologia. É retrógrado e perdura a dependência. Este é um momento delicado e exige toda atenção dos movimentos sociais pelos riscos futuros. Se exaura o organismo terrestre e a massa de trabalhadores pelos quatro cantos. Encontrar alternativas de novas energias não basta: é preciso ultrapassar o predatório modelo capitalista.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

» Artigos

» Editoriais / Colunas

» Espaço Leitor

» Agenda


© 2006 Jornal Mundo Lusíada - O melhor veículo de comunicação da Comunidade Luso-Brasileira.
Artigos assinados não exprimem propriamente a opinião do jornal Mundo Lusíada.

Colunas e textos de opinião com assinatura são de responsabilidade de seus autores.