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18/MAI/2007
O Companheiro Bush, o
Etanol e os Bóias-Frias
A última parte do 4º relatório sobre o
aquecimento global foi publicada e nela os 2500 cientistas que
estudam o assunto apontam a necessidade urgente de investir 3% do
PIB mundial até 2030 para amenizar as conseqüências dos estragos
naturais que o capitalismo realizou. E, como parte da solução para
o problema ecológico, o etanol brasileiro surge em substituição ao
petróleo que, além de escasso, é poluidor da atmosfera.
Há cerca de dois meses o presidente dos EUA G. W. Bush visitou e
recepcionou Lula. Teve intenção de mostrar que está atento aos
movimentos dos governos populares e da formação da aliança
Bolivariana, encabeçada pelo venezuelano Hugo Chávez, com quem
temos boas relações e é opositor das demandas imperialistas dos
norte-americanos no continente. Mas, como os EUA são grandes
consumidores de petróleo, o mercado de etanol também foi assunto
dos encontros.
Eles produzem etanol, porém, o extraem do milho. Seu custo de
produção – que envolve carvão e gás para obtenção do álcool -
acaba encarecendo o produto final e ainda pode ter maior desvio
para os tambores de combustível que para as mesas da população,
como pratos da culinária de seus vizinhos mexicanos, porque este
grão serve igualmente de matéria prima para fins alimentares. O
etanol brasileiro, por outro lado, vem do bagaço da cana de açúcar
e tem um poder energético 8 vezes maior que aquele. Muito mais
interessante sob essa ótica, portanto. Então, nossos usineiros
estão radiantes com as possibilidades lucrativas que se desenham e
já são tratados como heróis por Lula. Uma euforia.
Em meio à festa surgem, contudo, vozes de alertas. Para aumentar a
área de plantio de cana pela pressão internacional teme-se pelo
desmatamento, pela degradação ambiental. Lavoura de cana consome
muito fertilizante químico e exaure o solo. Uma maior disputa por
terras é outro efeito colateral. O fortalecimento dos latifúndios,
a intensificação das aquisições no setor pelas multinacionais é
sério risco. Como os pequenos proprietários serão beneficiados se
os custos para produção de bioenergia não são baratos? E as
ausências dos direitos humanos e trabalhistas, tão comuns no campo
e repetidamente denunciados por entidades, têm nos canaviais um
dos piores cenários. Não se acentuarão?
Nessa folia ninguém se lembra da questão dos bóias-frias. Em 2006
a Pastoral do Migrante publicou artigo de pesquisadores da UFSCar
onde se detalhava todo sistema de produção da cana e denunciava
por que os trabalhadores despencavam mortos em plena labuta.
Mostrando a intensificação do processo, desde a implantação do
Proálcool – maior programa público de incentivo ao combustível
alternativo no planeta – nos anos 1970 até os dias atuais,
constata que hoje os trabalhadores para manterem seus empregos
devem cortar, em média, 12 toneladas de cana por dia. Um aumento
de 100% de produtividade desde os anos 80. Resumidamente:
diariamente o bóia-fria deve caminhar cerca de 8.800 metros,
realizar mais de 366 mil golpes de facão e carregar 12 t em montes
de 15 kg em média, ou seja, 800 trajetos sustentando 15 kg nos
braços em uma distância de 2 a 3 metros. Faz mais de 36.600
flexões de perna para golpear a cana e, por fim, perde 8 litros de
água em média por dia para realizar sua tarefa, sob o forte sol
interiorano, com toda poeira e condições da própria movimentação
local, incluindo queimadas. Isto não é um relato da era
mercantilista. É um retrato do século XXI no estado de São Paulo.
Pergunta o engenheiro e professor da UFSCar, Francisco Alves: -
quantas mortes não devem ocorrer clandestinamente por esses
latifúndios afora?
Brasil e países equatoriais não devem se confortar em ser
neocolônias, meras áreas para plantio em larga escala de
matéria-prima energética para os países mais desenvolvidos. Essa
postura lembra a clássica Teoria das Vantagens Comparativas, de
David Ricardo, e não pode ser retomada porque provou
historicamente que, em longo prazo, país que se especializa em
produto primário perde para aqueles que agregam tecnologia. É
retrógrado e perdura a dependência. Este é um momento delicado e
exige toda atenção dos movimentos sociais pelos riscos futuros. Se
exaura o organismo terrestre e a massa de trabalhadores pelos
quatro cantos. Encontrar alternativas de novas energias não basta:
é preciso ultrapassar o predatório modelo capitalista.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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