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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

16/MAI/2007

 

Ambições Particulares atrapalham metas de Equilíbrio Ambiental

Para avaliar as questões sobre o aquecimento global, que vem sendo há anos denunciado por ecologistas, a Organização Meteorológica Mundial e o Programa da ONU para o Meio Ambiente deram início em 1988 aos trabalhos do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. Em 1995 o 3º relatório da entidade foi base para a elaboração do Protocolo de Kyoto, que propôs aos países desenvolvidos uma meta de redução em 5,2% das emissões de gases de efeito estufa até 2012, com cada país tendo sua quota de participação. Mas, a proposta, tímida para muitos cientistas, ainda assim não foi subscrita pelos EUA e nem pela Austrália. O presidente Bush reclamou dos ‘custos’ para sua economia e alegou que os países em desenvolvimento não cumpririam o combinado. Durante os anos 90 o total de emissões de dióxido de carbono caiu 3%. Tal fato ocorreu especialmente por conta da crise econômica nos países da ex-URSS e camuflou uma elevação de 8% nas emissões por parte das potencias econômicas. Até 2012 a ONU calcula que, nessa caminhada, apenas 04 países da União Européia podem ajudar a atingir as metas. Porém, apesar do baixo impacto prático, a ação continuou.


Este mês de maio trouxe a terceira e última parte do contundente 4º relatório realizado por 2500 cientistas de 130 diferentes países e publicado a partir do início de 2007. Diz o estudo que as concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso elevaram-se de maneira assustadora desde que o homem deu a partida para seu processo de industrialização no século XVIII e estes fatos são resultado especialmente do uso de combustíveis fósseis. Os cientistas voltam a chamar atenção para a urgência da ação, pois, entre 1970 e 2004, as emissões de gases que realizam o efeito estufa na atmosfera subiram 70% e, se não forem estancados, em 2030 crescerão entre 25 a 90% em relação a 2000. Nessa rapidez, em 2100 teremos uma temperatura 2°C acima da média anterior a industrialização. E seus efeitos já vêm sendo sentidos em todos os pontos do planeta com elevações de temperatura, derretimento de geleiras, furacões, inundações, alterações comportamentais em animais, piora da seca em regiões já áridas, impactos sobre a agricultura etc. Um cenário nada afável.


No referido capítulo final do 4º Relatório há uma relação de estratégias para mitigar os estragos sobre a atmosfera e seus efeitos. Entre outras se listam redução do desmatamento, economia de energia elétrica, uso de biocombustíveis e o retorno da manutenção da energia nuclear. Contudo, a ação deve ser sem demora e custará cerca de 3% do PIB mundial até 2030, destacando-se que os países em desenvolvimento, como o Brasil, poderão ter um custo menor, com ênfase na queda do desmatamento. Surgiu então certo otimismo com a possibilidade. Inclusive a Alemanha se propôs, até 2050, reduzir suas emissões de gases do efeito estufa e 10 estados dos EUA tentarão baixar sua participação em 10%. É algo positivo. Todavia, ainda permanece a inquietação. Isso irá adiante se expandindo para valer? As potências, responsáveis por 75% dos gases acumulados, minimizarão suas emissões? E a China, que disputa a supremacia da poluição com os EUA, e nem tomou conhecimento das propostas? A Índia, outra economia pujante nos últimos tempos, também não sinalizou apoio. É difícil, convenhamos, deixar de ser cético desta forma.


A natureza está clamando por equilíbrio. Quantas espécies da fauna e flora sumiram com esta postura predatória do ser humano? Embora 70% da superfície da Terra sejam constituídos por água, somente 3% é doce e, deles, apenas 0,01% está disponível para o consumo. Segundo análises da Oceana, órgão que estuda a preservação da água, já há hoje 1,2 bilhão de pessoas, especialmente na América Latina, África e Ásia, que vivem com a escassez desse elemento imprescindível. De acordo com a ONU, em meio século, um terço dos habitantes da Terra terão acesso a pouca ou quase nenhum liquido potável. São, obviamente, eminentes riscos de conflito, também provocados por deterioração poluidora dos rios, lagos ou mesmo da contaminação dos lençóis freáticos. Que criatura mais ingrata com a Terra é o ser humano. Nada fica preservado.


Vivenciamos uma cultura absolutamente antropocêntrica, onde a natureza, como dizia Lutzemberger, é entendida como um mero almoxarifado para as peripécias da humanidade, não sendo respeitada e muito menos cuidada. Sentimos-nos superiores a ela e não parte integrante de um todo onde, na verdade, estamos inseridos. A enxergamos como insumo para a produção. Como energia para ser queimada em nosso tresloucado consumo e desperdício. O petróleo e o carvão são bases de nossa indústria, de nossos veículos. Poluentes e finitos. Fizemos a revolução industrial e várias guerras por eles. Agora que este manancial está se esgotando, vem a hipótese do investimento em bio-combustíveis originários da cana de açúcar, do milho, da soja que dão grande desgaste ao solo e, claro, sobra para os países pobres participarem do jogo. Por que não se utilizar da energia solar? Pesquisar mais sobre a energia eólica ou as possibilidades da biomassa? O Brasil é um país com imensa capacidade nestes quesitos. Por que não colocar esforço verdadeiro no desenvolvimento tecnológico dessas alternativas? Baratear o custo e aprimorar o uso de baterias solares para residências e empresas. Extrair combustível a partir do lixo orgânico e ajudar, assim, a também reduzir o problema dos poucos aterros sanitários existentes. É preciso uma reeducação sócio-ambiental. Uma outra forma de conduta.


A humanidade entra o século XXI cheia de problemas em mega-proporções provocados pelo seu modelo de civilização organizado nos últimos 200 anos. Sua racionalidade visa maximizar lucros e, nesse mecanismo, a exploração do meio ambiente e dos indivíduos beneficiam minorias que definem os destinos globais com bases em seus anseios privados e suas metas de altos faturamentos. Não importando se há fome, mesmo com uma produção mundial de alimentos suficiente para todos, se há danos ecológicos, sede, doenças, desabrigo ou um estoque de 200 milhões de pessoas sem empregos no mundo, conforme a OIT computou em 2006.


Sem charlatanice não há outra saída: o capitalismo precisa ser ultrapassado historicamente por um modo superior de vida mais justo, solidário e holístico. A mãe Terra se regozijará certamente com a regeneração desses seus filhos.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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