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16/MAI/2007
Ambições Particulares atrapalham metas de
Equilíbrio Ambiental
Para avaliar as questões sobre o
aquecimento global, que vem sendo há anos denunciado por
ecologistas, a Organização Meteorológica Mundial e o Programa da
ONU para o Meio Ambiente deram início em 1988 aos trabalhos do
IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. Em 1995 o
3º relatório da entidade foi base para a elaboração do Protocolo
de Kyoto, que propôs aos países desenvolvidos uma meta de redução
em 5,2% das emissões de gases de efeito estufa até 2012, com cada
país tendo sua quota de participação. Mas, a proposta, tímida para
muitos cientistas, ainda assim não foi subscrita pelos EUA e nem
pela Austrália. O presidente Bush reclamou dos ‘custos’ para sua
economia e alegou que os países em desenvolvimento não cumpririam
o combinado. Durante os anos 90 o total de emissões de dióxido de
carbono caiu 3%. Tal fato ocorreu especialmente por conta da crise
econômica nos países da ex-URSS e camuflou uma elevação de 8% nas
emissões por parte das potencias econômicas. Até 2012 a ONU
calcula que, nessa caminhada, apenas 04 países da União Européia
podem ajudar a atingir as metas. Porém, apesar do baixo impacto
prático, a ação continuou.
Este mês de maio trouxe a terceira e última parte do contundente
4º relatório realizado por 2500 cientistas de 130 diferentes
países e publicado a partir do início de 2007. Diz o estudo que as
concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso
elevaram-se de maneira assustadora desde que o homem deu a partida
para seu processo de industrialização no século XVIII e estes
fatos são resultado especialmente do uso de combustíveis fósseis.
Os cientistas voltam a chamar atenção para a urgência da ação,
pois, entre 1970 e 2004, as emissões de gases que realizam o
efeito estufa na atmosfera subiram 70% e, se não forem estancados,
em 2030 crescerão entre 25 a 90% em relação a 2000. Nessa rapidez,
em 2100 teremos uma temperatura 2°C acima da média anterior a
industrialização. E seus efeitos já vêm sendo sentidos em todos os
pontos do planeta com elevações de temperatura, derretimento de
geleiras, furacões, inundações, alterações comportamentais em
animais, piora da seca em regiões já áridas, impactos sobre a
agricultura etc. Um cenário nada afável.
No referido capítulo final do 4º Relatório há uma relação de
estratégias para mitigar os estragos sobre a atmosfera e seus
efeitos. Entre outras se listam redução do desmatamento, economia
de energia elétrica, uso de biocombustíveis e o retorno da
manutenção da energia nuclear. Contudo, a ação deve ser sem demora
e custará cerca de 3% do PIB mundial até 2030, destacando-se que
os países em desenvolvimento, como o Brasil, poderão ter um custo
menor, com ênfase na queda do desmatamento. Surgiu então certo
otimismo com a possibilidade. Inclusive a Alemanha se propôs, até
2050, reduzir suas emissões de gases do efeito estufa e 10 estados
dos EUA tentarão baixar sua participação em 10%. É algo positivo.
Todavia, ainda permanece a inquietação. Isso irá adiante se
expandindo para valer? As potências, responsáveis por 75% dos
gases acumulados, minimizarão suas emissões? E a China, que
disputa a supremacia da poluição com os EUA, e nem tomou
conhecimento das propostas? A Índia, outra economia pujante nos
últimos tempos, também não sinalizou apoio. É difícil,
convenhamos, deixar de ser cético desta forma.
A natureza está clamando por equilíbrio. Quantas espécies da fauna
e flora sumiram com esta postura predatória do ser humano? Embora
70% da superfície da Terra sejam constituídos por água, somente 3%
é doce e, deles, apenas 0,01% está disponível para o consumo.
Segundo análises da Oceana, órgão que estuda a preservação da
água, já há hoje 1,2 bilhão de pessoas, especialmente na América
Latina, África e Ásia, que vivem com a escassez desse elemento
imprescindível. De acordo com a ONU, em meio século, um terço dos
habitantes da Terra terão acesso a pouca ou quase nenhum liquido
potável. São, obviamente, eminentes riscos de conflito, também
provocados por deterioração poluidora dos rios, lagos ou mesmo da
contaminação dos lençóis freáticos. Que criatura mais ingrata com
a Terra é o ser humano. Nada fica preservado.
Vivenciamos uma cultura absolutamente antropocêntrica, onde a
natureza, como dizia Lutzemberger, é entendida como um mero
almoxarifado para as peripécias da humanidade, não sendo
respeitada e muito menos cuidada. Sentimos-nos superiores a ela e
não parte integrante de um todo onde, na verdade, estamos
inseridos. A enxergamos como insumo para a produção. Como energia
para ser queimada em nosso tresloucado consumo e desperdício. O
petróleo e o carvão são bases de nossa indústria, de nossos
veículos. Poluentes e finitos. Fizemos a revolução industrial e
várias guerras por eles. Agora que este manancial está se
esgotando, vem a hipótese do investimento em bio-combustíveis
originários da cana de açúcar, do milho, da soja que dão grande
desgaste ao solo e, claro, sobra para os países pobres
participarem do jogo. Por que não se utilizar da energia solar?
Pesquisar mais sobre a energia eólica ou as possibilidades da
biomassa? O Brasil é um país com imensa capacidade nestes
quesitos. Por que não colocar esforço verdadeiro no
desenvolvimento tecnológico dessas alternativas? Baratear o custo
e aprimorar o uso de baterias solares para residências e empresas.
Extrair combustível a partir do lixo orgânico e ajudar, assim, a
também reduzir o problema dos poucos aterros sanitários
existentes. É preciso uma reeducação sócio-ambiental. Uma outra
forma de conduta.
A humanidade entra o século XXI cheia de problemas em
mega-proporções provocados pelo seu modelo de civilização
organizado nos últimos 200 anos. Sua racionalidade visa maximizar
lucros e, nesse mecanismo, a exploração do meio ambiente e dos
indivíduos beneficiam minorias que definem os destinos globais com
bases em seus anseios privados e suas metas de altos faturamentos.
Não importando se há fome, mesmo com uma produção mundial de
alimentos suficiente para todos, se há danos ecológicos, sede,
doenças, desabrigo ou um estoque de 200 milhões de pessoas sem
empregos no mundo, conforme a OIT computou em 2006.
Sem charlatanice não há outra saída: o capitalismo precisa ser
ultrapassado historicamente por um modo superior de vida mais
justo, solidário e holístico. A mãe Terra se regozijará certamente
com a regeneração desses seus filhos.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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