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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

11/MAI/2007

 

Bang-Bang sem final feliz

Quando eu era pequeno, correndo pelas ruas de paralelepípedos do Belenzinho, gostava bastante de brincar com revólver, de plástico ou feito com dois pauzinhos amarrados, e disparar tiros imaginários para todo lado. À noite assistia pela televisão aos seriados de bang-bang, cheio de bandidos em luta contra mocinhos, estes andando em belos cavalos e sempre saindo vencedores, mesmo que atingidos por um meliante mais rápido que ele no gatilho. Mas, no encerramento, era sempre a mesma moral: o bem vencia o mal, por mais forte que este aparentasse ser. Porém, o tempo passou e fui largando aquele hábito ingênuo de gostar de armas e coisas afins. Ferir ou matar são verbos que passei a achar detestáveis. Principalmente porque aprendi que a vida é bem diferente daqueles efeitos especiais cinematográficos e seus ‘Happy Ends’.


Em 2005 houve um referendo no Brasil, com intensa pressão dos grupos conservadores pró-armamento que seduziram e amedrontaram a opinião pública com seus argumentos falaciosos e resultou daí a derrota da proposta contra a venda de armas de fogo. No início deste mês de maio o Supremo Tribunal Federal deu parecer favorável ao Estatuto do Desarmamento. Contudo, estabeleceu que é possível estender a liberdade provisória para comércio ilegal e tráfico internacional de armas para evitar, na sua interpretação, prejuízo ao cidadão enquanto se avalia sua inocência no processo.


Continuo demais inconformado com tudo isso. A quem interessa nesta sociedade já tão violenta portar armas e, mais ainda, armas ilegais? Ao cidadão comum? Que traquejo, em geral, gente de bem tem com revólveres ou fuzis? É um absurdo. A sociedade precisa se desmilitarizar. É necessário sim se dificultar ao máximo o acesso às armas para quem não é profissional do ramo. E ainda assim, tem sido comum vermos os acidentes fatais causados por disparos treinados - supostamente - que atingem inocentes. Tirar essas máquinas de circulação é racional. Atacar e frear o contrabando. Haver punição rigorosa aos envolvidos. Inflexibilidade total da justiça. Como se está, só facilita aos bandidos.


Há estatísticas que revelam um índice de homicídios de 100 vitimas por dia no país (Arbex Jr., revista Caros Amigos, Abril/2007). Gente sem identidade. Morrem como se fossem cachorros atropelados em vias públicas. Coisa banal. É mais um. Rende meia dúzia de linhas, quando muito, no matutino do dia seguinte. Uma sociedade doente, fragmentada. Nesta semana, de visita do Papa Bento XVI a S. Paulo, aconteceu a 13ª chacina no Estado. Sete jovens foram assassinados na zona norte sem ter passagens por delegacias. A polícia ‘acha que é acerto de contas entre vagabundos’... E há quem defenda a necessidade da pena de morte. Ora, ela já não existe?! É só prestar um pouco de atenção.


Não custa lembrar que vivemos num país cuja educação publica está falida, não há emprego suficiente e andamos entre os 10 piores em concentração de renda no planeta. O 69º no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU divulgado em 2006. Um sucateamento de indivíduos na periferia, abandonados pelo Poder Público. Fundamental é pão, livro, trabalho e solidariedade. A maldade já vimos demais.

 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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