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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

05/MAI/2007


Papo com a Janaína Repórter

Num encontro com repórter de revista especializada em negócios e empreendimentos fui questionado sobre ‘as perspectivas da população brasileira que parecem ter mudado de foco: muitos jovens não desejariam apenas entrar no mercado de trabalho, mas estariam pretendendo ter seu próprio negócio. Isso seria causado pela insegurança no mercado formal?’ E ‘medidas como o PAC e a nova Lei Geral das Pequenas e Microempresas tendem a aumentar essa pretensão, ter seu próprio negócio?’


Pois bem, nos anos 1990 muitos estudiosos passaram a acreditar que o mundo do século XXI traria entre seus desafios, seus problemas mais sérios, a questão do emprego. Isto porque o capitalismo desde a década de 80 e fortalecido após o fim da Guerra Fria entrou numa nova fase de organização produtiva e administrativa buscando minimizar mais seus custos, maximizar resultados e ampliar liberdade e espaços de mercado. Dentro desse processo a tecnologia teve um papel fundamental. Mas, em contrapartida a esse conjunto de fatos modernizantes, muitas funções, muitos empregos foram eliminados e a grande tensão no mundo do trabalho instaurou-se.


A OIT (Organização Internacional do Trabalho) publicou relatório no início de 2007 exatamente alertando para esse cenário. Os jovens entre 15 e 24 anos são os mais atingidos pelo desemprego. Representam 86 milhões de pessoas e equivalem a 44% dos desempregados no mundo. Nota-se que, embora haja mais pessoas trabalhando do que antes, o número de desempregados chega a 200 milhões de pessoas em 2006. O trabalho com carteira assinada é, incontestavelmente, de grande escassez em escala global.


Do ponto de vista nacional, há dois meses a UNICAMP tornou publico estudo com base nos dados do IBGE-Pnad referente a dez anos, 1995 a 2005. Mostrou que de cada 100 jovens estreantes no mercado de trabalho, 55 ficaram desempregados e apenas 45 encontraram uma ocupação. No período, o desemprego entre a população jovem, de 15 a 24 anos, cresceu bem mais do que para as outras faixas etárias. Em 2005 a quantidade de jovens sem emprego foi 107% maior que 1995. E para o resto da população a coisa também não foi muito mais branda: o desemprego foi 90,5% superior desde há 10 anos. Em 2005 havia, assim, um desempregado a cada cinco jovens. De acordo com o IBGE, entre 1995 e 2005, o país gerou 17,5 milhões de novos postos de trabalho. Dois milhões dessas vagas foram preenchidas por pessoas na faixa entre 15 e 24 anos. Lembro outro caso, refletindo ainda essa problemática relação ‘jovens e emprego’ que em meados de 2006 o Seade indicava que vive na periferia 65% da juventude entre 15 e 19 anos. Para o Dieese a taxa desemprego nessa faixa chega a 70%. Em São Paulo 500 mil jovens entre 15 e 24 anos não estudam e nem trabalham! E é a região mais rica da nação, convém não esquecer. Penso: que podemos esperar de um país cuja juventude não vê condições de planejar seu futuro? Em quatro anos (2002-06) a população carcerária cresceu 67%, passando dos 401 mil detentos no Brasil. Prejuízo brutal. Assim, obviamente, aqueles que têm mais condições financeiras, podem optar por tentar como saída abrir os seus negócios, seus empreendimentos, considerando a baixa oferta de empregos.


O Brasil deveria crescer 5% ou 6% dez, doze anos seguidos para poder absorver os 2,5 milhões de pessoas que ingressam no mercado de trabalho. Mas, por enquanto, isto ainda é mero desejo. Na realidade, a condição é bastante diferente. Aliás, é para isso que este governo lançou o Plano de Aceleração Econômica – PAC, porque estamos fazendo um desempenho lamentável nas últimas décadas. Os anos 80 foram chamados de ‘década perdida’ e os anos 90 conseguiram apresentar rendimento pior, permanecendo ainda amarrado neste novo século. Há 25 anos temos tido baixo crescimento econômico, em torno de apenas 2 % ao ano. O PIB de 2006, para se ter idéia, ficou em 3,7%, num recálculo do IBGE onde foi introduzida nova metodologia, cujo resultado anterior tinha sido 2,9%. Só para comparar, o PIB africano em 2006 ficou em 5,7%. É muito pouco, portanto, para nossas necessidades sociais. E a Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas foi também apresentada pelo governo nesse esforço para estimular o crescimento. Pretende facilitar, simplificar as possibilidades daqueles que querem montar seu negócio. Por exemplo, não pagando imposto de exportação. O SEBRAE (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) diz, porém, que muitos desses empreendedores tem enormes dificuldades em tocar seus negócios, chegando a 85% sem noção clara dos custos existentes, o que eleva gastos com terceirização do controle através de firmas de contabilidade em cerca de 64% dos pesquisados. Há muita reclamação de dificuldades burocráticas e da carga tributária. São as condições de quem tenta fugir da procura por emprego num país onde, em 2006 conforme o CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), de 1,5 milhão de novos postos abertos com carteira assinada, 1,4 milhão pagou no máximo 1,5 salário mínimo mensal. Emprego que surge é pouco e a grande maioria é de baixa qualidade. Assim, pensar então em equilibrar nossas desigualdades sociais é quase uma fantasia. Há 4 milhões de famílias no país sem remuneração.


O foco estratégico de crescimento neste governo e nos anteriores não é o trabalho e sim o combate à inflação e o ajuste fiscal. Com isso a taxa de juros permanece elevada demais, apesar de sua redução gradual nos últimos meses, o que empurra o investidor da produção - e consequentemente a geração de empregos - para a especulação financeira. Isto também não resolve a dívida porque o que o governo capta serve para rolar juros contraídos e o principal permanece. Aliás, esse rentismo aprofunda as desigualdades: entre 7 a 8% do PIB são transferidos para poucas famílias detentoras dos títulos públicos. Se o governo pretende estimular um crescimento de 5% conforme o PAC é preciso uma taxa de investimento na ordem de 25% do PIB e ela está por volta de 16%. Além do que há também o desestímulo por conta do câmbio que valorizado diante do dólar estimula a importação, encarece a competitividade da exportação e deixa o empresariado preocupado no mercado interno. Sobreviver na economia brasileira é uma prova de coragem, persistência e criatividade.
 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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