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29/ABR/2007
EDUCAÇÃO E QUALIDADE SÓ PODEM DAR SAMBA
A tradicional escola de samba Vai-Vai do bairro do Bexiga, centro
de S. Paulo, fundada em 1930, decidiu neste final de abril colocar
como tema de seu próximo carnaval a importância da educação.
Assim, a seu modo, busca colaborar chamando a atenção para algo
lamentável que a sociedade deixou por excessivos anos correr
frouxo, sem tomar atitude concreta, isto é, o arrasamento da
educação brasileira, especialmente a educação pública, que atende
a maioria da população.
Se pensarmos o fato em perspectiva histórica, quando a própria
Vai-Vai era apenas um alegre bloco, há décadas atrás, o docente
era tratado como ‘o senhor professor’ pela rapaziada e suas
respectivas famílias. Moças sonhavam em ser professoras. E elas
davam saudades anos depois aos já marmanjos como, aliás, Ataulfo
Alves deixou registrado no clássico “Meus tempos de criança“. Uma
profissão valorizada. Havia respeito para com o mestre e vínculo
afetivo maior entre o aluno e a escola. Claro que era uma época
mais formal, mais tradicional que a atual, contudo, o que se fazia
em frente ao quadro negro era bem melhor do que assistimos agora.
Posso garantir que ainda durante os duros anos 70, quando eu
passava pelo ensino fundamental e médio, eram raras as aulas vagas
por falta de professores. E estudei na zona norte, bairro de Vila
Guilherme, nada sofisticado. Os conteúdos, embora
‘compartimentados’, sem muita conexão entre, por exemplo,
português e história e estas com matemática, geografia, inglês e
ciências, apresentadas de maneira independentes uma das outras, ao
menos eram dados com comprometimento e cobrança do que foi
ensinado. Além disso, dentro do básico, também aprendíamos desenho
geométrico, música e a obrigatória Educação Moral e Cívica, que
tratava dos símbolos patrióticos, suas origens, fora ‘orientações
de cidadania’ para entendermos a função do presidente – embora
vivêssemos sem poder votar no executivo federal -, dos
governadores, prefeitos e dos respectivos cargos legislativos. Uma
matéria bastante hipócrita para aqueles tempos de ditadura que, em
compensação, sem sua existência atualmente e em pleno gozo de
democracia, ironicamente percebemos as pessoas revelarem-se
ignorantes sobre os papéis dos políticos, de suas instâncias e, em
maioria, nem mesmo guardar o nome do candidato que votou no último
pleito. Apesar desses assuntos estarem sugeridos dentro dos
parâmetros curriculares contemporâneos e suas
interdisciplinaridades... Enfim, da minha classe no 2º grau na
Escola Estadual Casimiro de Abreu saíram alunos para a PUCSP, USP
entre outras faculdades.
Nos últimos 20 anos o que ficou absolutamente perceptível foi o
sucateamento da escola pública e o seu abandono por parte da
classe média que rumou para a ‘superioridade do ensino privado’
oferecido pelas várias escolas que passaram a ferver no mercado.
Sem essa importante camada social e não podendo esperar nada da
elite, sempre distante das aspirações populares, o drama foi
instaurado.
A educação foi se tornando uma mercadoria a ser bem paga por uma
parcela da população que não quis permanecer se misturando com a
‘plebe’ enquanto aumentava sua entrada e buscou ‘excelência’. Cada
vez mais se valorizou o conhecer de caráter utilitário, prático,
pouco transcendente, reflexivo e crítico. E à massa restou a
precariedade. O Estado falido contribuiu para essa derrocada, com
professores desassistidos, baixos salários, sem estrutura local
para atrair a atenção dos alunos no momento em que a tecnologia da
informática ganhava cada vez mais campo propondo a navegação do
ciberespaço, da realidade virtual, de outras possibilidades de
conhecer. Estresse da docência com declínio de sua auto-estima.
Mal dispondo de giz e lousa, esses profissionais foram desistindo
da carreira por outras que lhes rendessem um ordenado melhor, já
que após investir numa faculdade, em cursos paralelos e
especializações, notaram a excessiva injustiça em ser remunerados
na faixa de motorista de ônibus ou diarista de madames. Assim, há
oferta de vagas para aulas de química, biologia, entre outras.
Alguém se dispõe a assumir as classes? Só com muito altruísmo ou
falta de opções. Isto sem contar os riscos da crise de valores
pela qual passamos, com explosão de indisciplina e violência
quotidiana. Famílias se desagregam ou os pais não dispõem de tempo
para assistir aos filhos e então empurram também aos professores
essa tarefa complexa, problemática, ou seja, de além de tudo que é
de sua função, também atuarem como conselheiros, psicólogos,
babás, bombeiros etc. Os efeitos práticos disso são revelados nos
desastrosos dados das mais recentes pesquisas: os educadores fazem
de conta que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Saibam que
se hoje o país matricula 99% das suas crianças, 65% dos
brasileiros são analfabetos funcionais: escrevem e lêem, mas não
sabem interpretar o texto ou fazer cálculos básicos. Aliás, 27%
dos brasileiros entre 15 e 24 anos não freqüentam os bancos
escolares. Quer dizer, nem simulam estudar: desistiram mesmo. Que
esperar de um país com tamanhas características excludentes?
O governo federal lançou agora o Ideb – Índice de Desenvolvimento
da Educação Brasileira através do MEC – Ministério da Educação e
Cultura para auxiliar na verificação não só do aspecto quantidade,
que é muito enganoso, mas do mais importante, da qualidade do
realizado. Tomam como base as disciplinas português e matemática
do fundamental mais o tempo médio que o aluno de cada rede leva
para completar o ano letivo. Então, os primeiros levantamentos
confirmam o quadro grave: das 4350 cidades responsáveis pelo
ensino até a 4ª série 0,8% tem um nível satisfatório, ou seja,
apenas 33 delas. São Paulo, a maior metrópole brasileira, grande
centro econômico do país, posiciona-se na fraquíssima 1300ª
posição. Sua nota chegou apenas a 4,1. E a região nordestina é a
que tem o pior desempenho, colecionando 81% das mil piores notas.
Nenhuma capital chegou a nota 5,0. Dos 239 municípios que
obtiveram acima de 5, estão no sudeste 80% deles. Um vexame.
Utilizando-se desse termômetro, os gestores de educação no país
aspiram elevar nosso resultado – nota 3,8 – até 2022, bicentenário
da independência, à equivalência da média dos países
desenvolvidos, ou seja, nota 6,0. Para tanto, pretende-se investir
nos piores municípios em caráter de urgência, implementar
parcerias com universidades publicas para formação de professores,
instalar 150 escolas técnicas junto a cidades pólos de
desenvolvimento regionais, levar luz, ônibus e barcos para as
escolas mais distantes e carentes, distribuir computadores para as
escolas públicas, colocar dinheiro direto nas escolas rurais de
ensino fundamental, criar piso de R$ 850,00 para professores da
rede pública entre outras ações. É uma nova tentativa, o Programa
de Desenvolvimento da Educação – PDE.
É preciso, entretanto, que essa proposta não fique no papel, como
várias outras promessas, comece logo e vá sendo aperfeiçoada. Não
é mais possível a inércia com tamanho problema e muito menos
lançar mão de ‘mágicas’ do tipo construir escolas e instalar
computadores nelas, como se isso fosse remédio, acabando sim por
virar palanque para político fazer discurso de inauguração e
colocar seu nome em placa comemorativa. Intelectuais como Dermeval
Saviani, da Unicamp, questionam o investimento como sendo aquém ao
necessário, inclusive por não corrigir o valor pelo PIB, cujo
recálculo pela nova metodologia do IBGE elevou seu crescimento de
2,9 % para 3,7% resultando num total de R$ 2,3 trilhões em 2006.
Isto deve refletir no percentual da educação, referente a 4,3% do
PIB, antes em R$ 43 bi para R$ 76 bilhões. Depois, é de extrema
importância para evitar desvios e fraudes controlar bem o uso
dessas verbas. É preciso resultados palpáveis. Então as
prefeituras e comunidades locais devem estar atentas aos repasses
e ao uso dos montantes.
É necessário incentivo aos docentes com remuneração decente,
recursos instrumentais na escola e capacitação de forma
continuada. Valorização do professor e de seu ambiente de
trabalho. Por isso é que há crítica também ao valor proposto do
piso para tamanha importância e responsabilidade para dar uma boa
aula, ter tempo de preparação e de outros cuidados em relação à
sua escola. Ele deve se sentir respaldado para poder se entregar
de verdade ao que faz e avaliar com rigor o andamento de seus
alunos. Estes, por sua vez, devem perceber que facilidades acabam
gerando uma falsa realidade de aproveitamento, prejudicial a ele
próprio. Aprendizagem pode e deve ser algo agradável e até mesmo
divertido, mas requer dedicação, concentração e esforço. Boas
notas devem ter como base o mérito.
Em pleno século XXI, terceiro milênio, o Brasil carece demais dar
uma guinada rumo ao enriquecimento da educação, que é sinônimo de
desenvolvimento tecnológico, artístico e social. É sua
responsabilidade republicana: garantir igualdade de oportunidades
aos seus cidadãos. Impedir por mais tempo o acesso da população a
esse direito é um crime. É hora da nação passar na avenida com um
samba enredo-educacional que encante aos seus componentes, de
forma criativa e estimulante, mostrando que o futuro pode vir a
ser, com muito trabalho, uma grande apoteose de maior justiça e
equilíbrio social. Então, vamos já esquentar os tamborins. Basta
de mediocridade, abram alas à educação para todos e de qualidade.
José de Almeida
Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada
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