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Notas Quotidianas » José de Almeida Amaral Jr.

25/ABR/2007


Abril tinge o Campo de Vermelho

Vivemos nestes dias o chamado ‘Abril Vermelho’, nome dado pelos movimentos dos sem-terra em homenagem à memória dos trabalhadores que foram mortos e dos que ficaram feridos em Eldorado dos Carajás, mês de abril de 1996, no confronto com a polícia militar. Foi feita execução sumária segundo legistas, mas os policiais foram absolvidos pela justiça do Pará, estado campeão da violência contra os trabalhadores do campo, registrando, segundo a Comissão Pastoral da Terra – CPT, entre 1971 e 2002, 726 assassinatos de camponeses. A violência, contudo, está presente em todo o país, do norte ao sul, com um intenso grau de impunidade, conforme denúncia da CPT.


O problema da concentração de terras no Brasil é um drama cujas raízes surgem quando este país ainda estava sendo inventado, nas ações para a colonização, época em que poucos pensavam deixar a Europa para arriscar a sorte por este lugar distante.


O primeiro regime de propriedade que experimentamos foi o das sesmarias e durou três séculos. A Coroa dividia as capitanias hereditárias (1534) em extensões enormes, cujos proprietários tinham compromisso de cultivá-los, especialmente com cana. Cheios de limites imprecisos, os lotes eram cedidos aos ‘amigos do rei’, que concentravam seus poderes e posses. Com a independência em 1822 essa política acabou e o país ficou quase trinta anos sem maiores regras para a questão da propriedade rural. Então, o governo imperial decretou a Lei 601, conhecida como Lei de Terras de 1850, onde buscava se organizar a situação dos registros de terras doadas desde o período colonial e legalizar as ocupadas sem autorização. A nova lei estipulava que terra pública poderia ser adquirida mediante compra. Esse ano, 1850, coincide também com a abolição do tráfego negreiro. E aqui é feita outra manobra histórica de nossa elite: os terrenos eram muito caros e assim os negros libertos não teriam chances de se tornarem pequenos proprietários, sendo pressionados, portanto, a venderem sua força de trabalho aos ex-senhores para sobreviver. Em contrapartida, essas terras públicas, chamadas devolutas, caras para os ex-escravos e para os campesinos, eram relativamente baratas para os grandes fazendeiros que as adquiriram a fim de plantar e exportar café. Então, as terras passavam a se valorizar ainda mais e tornavam-se muito distantes de compra pelos humildes. Latifundiários se fortaleciam legalmente.


Então veio a República, a revolução de 1930, o Estado Novo, o processo de industrialização, o golpe militar de 1964, a redemocratização, a Constituição de 88 e nada se fez de concreto para se desconcentrar a terra e pacificar o campo. As Ligas Camponesas de Francisco Julião não vingaram, as reformas de base de Goulart foram sufocadas, a reforma agrária do gal. Castelo Branco não saiu do papel.


Em 2000 o INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária apresentou um índice Gini de 0,802 (1,0 é concentração total) referente à posse de terras. Um retrato bastante injusto para atravessarmos ao novo milênio.


Forçado pelo MST (nascido em 1984) o duplo mandato de FHC assentou 635 mil famílias. Insuficiente para a demanda. Lula, apoiado pelo movimento, venceu as eleições em 2002. Porém, seu governo cheio de alianças não avançou no processo de desapropriação de latifúndios improdutivos e em outras áreas como terras griladas. Assentou 380 mil famílias, 95 mil ao ano, ou seja: 93% da meta (400 mil) frustrando expectativas. Como reflexo, até 2006 foram registradas 1036 invasões dos sem-terra. A lentidão do processo e os afagos do petista aos usineiros, chamando-os de ‘heróis’, irrita os movimentos sociais.


Não custa lembrar que, nesse transcorrer do tempo, para muitos a reforma agrária tem sua razão questionada, isto é, ela não é mais essencial. Críticos reclamam que o país deixou de ser basicamente rural, desde a década de 1970, tornando-a assim mais simbólica, parte de um imaginário popular, do que algo necessário. Uma meta de 50 anos atrás, não passando agora de um discurso vazio de grupos ativistas que sobreviveriam dessas ‘agitações’. Bradam que o agrobusiness traz para a economia brasileira bons resultados e não se pode criar problemas para o modelo em grande escala sob pena de perdermos eficiência e competitividade no mercado devendo o governo se preocupar em facilitar sua expansão, devido aos problemas de altos juros e do câmbio desfavorável, entre outros. Em 2007 espera-se colher a maior safra agrícola de todos os tempos no país.


Por outro lado, olhos menos conservadores insistem que a reforma agrária tem sim importante papel. Como agricultura familiar e posse de propriedade, não devendo ser encarada necessariamente como participante do modelo agroindustrial da economia brasileira como um todo. Não é especifica para auxiliar num aumento de produção agrícola e expandir a participação entre os setores no PIB. Ela serviria principalmente para ajudar a conter os fluxos para o saturado meio urbano, para propiciar alimentos para as famílias e como obtenção de renda, atuando em áreas improdutivas e de grileiros. Maior número de pequenos proprietários poderá dar fortalecimento a essa classe e, consequentemente, maior representatividade. De qualquer modo, frise-se, se viabilizará caso haja programas de apoio com crédito e infra-estrutura, senão as propriedades estarão sem grandes chances de sobreviver, seja do ponto de vista econômico ou do social.


França, Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, México entre outras nações passaram pelo processo de reforma agrária desde o séc. XIX desconcentrando as propriedades e beneficiando seus cidadãos. No Brasil ela ainda permanece uma incógnita, embora a posse de muitas terras nas mãos de uma minoria seja incontestável. E vem mantida desde há 500 anos, num território continental de mais de 8,5 milhões de km2. Quantos meses de abril serão necessários para existir paz e democracia neste quadrante do planeta?
 

José de Almeida Amaral Jr.
Economista e professor universitário em Ciências Sociais
Pós-graduado em Sociologia e mestre em Políticas de Educação
Colunista pela Pascom na Rádio 9 de Julho Am 1600
Colaborador do Jornal Mundo Lusíada

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