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O futebol expressa o
sentimento das nações; todos içam a bandeira e em cada cidadão
rejubila a nação inteira. Nesta altura até a esquerda é patriota.
Em nome da Seleção, enquanto a corrida para o título dura,
acabam-se as discórdias entre os clubes e as sobrancerias de
classes e posições. No reino do futebol, a nação une-se por um
momento e até a política consegue passar ainda mais desapercebida.
A nação deita-se a pensar em futebol e levanta-se a sonhar
futebol.
No canto chão da rua
encontra-se o chão da nação. Com o campeonato a mente popular
estimula-se dando lugar à perdida memória coletiva da nação. Não
fosse Portugal futebol e o Brasil Carnaval e futebol, por onde
andaria a consciência de povo e a fama da nação!
Porquê tanto interesse,
tanto entusiasmo, tanta admiração, em torno do futebol?
O Homem não é de pau e
precisa de festa, precisa de ritos e liturgias, precisa de pontos
altos que o eleve da banalidade do quotidiano. A liturgia profana
da política é muito circunscrita e reservada só para alguns.
No futebol, o campo
torna-se no altar da nação! Aí, a vítima é imolada à imagem dos
ritos religiosos dominicais. Cada adepto levanta a sua prece ao
seu ídolo, de forma ordenada e recolhida nas bancadas.
No Olimpo das nações, os
seus deuses continuam a comportar-se à maneira dos deuses gregos.
A nação vitoriosa (Paraguai…) até chega a dedicar um dia sabático
para que o fervor do ato seja depois prolongado em ato de memória
e como ação de graças aos deuses do poder. A divindade da nação
sacrificada (Nigéria…) e ofendida troveja, do alto do seu Olimpo,
castigos e actos de reparação para os seus sacerdotes…
Com o futebol, na orgia
dos sentimentos, ganham todos: os contentes e os descontentes. Ele
integra sentimentos e normaliza as tensões; permite também picar
sem fazer doer.
Os jornalistas,
satisfeitos, especulam em torno de jogadores e adeptos. Quando a
equipa da nação perde chegam até a ir ao arsenal da História
procurar motivos para aliviar o desconsolo da derrota.
Uma sociedade ainda não
desquitada procura pessoas com quem possa sofrer em conjunto e com
quem estar orgulhosa.
No canto da rua apenas
uma desafinação: árbitros com atitudes desconformes, mancham o
azul do céu. Esperanças desiludidas, as vítimas da canelada e da
“febre-amarela” que por vezes chega mesmo ao rubro e das equipas
castigadas com apitos arbitrários ou com golos oportunistas dos
habituais espertos que jogam bem mas fora de jogo. Afinal também
esta liturgia festiva mostra as suas limitações apontando para as
carências do dia a dia banal. Enfim, vive-se de gozos precários
mas sempre à procura da felicidade.
Também os políticos, com
a sua tática, procuram a proximidade do futebol e dos futebolistas
num passe de jogo de alegria seleta baralhada na alegria popular
espontânea. A política serve-se, louvando, instigando, comentando.
Chama-lhe um figo em campanha da promoção. Neste momento todo o
mundo é solidário, oprimidos e opressores cantam a mesma canção. O
banho ocasional dos políticos nos sentimentos positivos do povo só
traz vantagens além da certeza de serem citados nas notícias e
mostrados no telejornal.
O espetáculo torna o
governo mais amado e o jugo esquecido. Desvia do dia a dia.
As elites das rasteiras
têm mão no jogo e o jogo na mão! Em campo não há crise, todo o
mundo joga e ganha. A guerra doce serve a globalização; contribui
para a identidade da nação, alivia do saber que faz doer e serve a
bolsa da promoção.
Para os críticos resta a
demarcação de S. Mateus que dizia: “nem só de pão vive o Homem…”
De resto, a nação
cumpriu a sua função: de trabalho e de distração se faz a ração.
António da Cunha
Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
http://antonio-justo.blogspot.com/
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