1.
Um Homem Paradoxal
O aguilhão de Saramago talvez nos faça falta. Poderemos não
concordar com ele, em algumas de suas diatribes polêmicas, no
entanto, não podemos negar sua coerência de homem livre. Por outro
lado, ele carregou consigo um grande mérito: Suas posições
políticas, como cidadão, não interferiram em sua obra: não fez
literatura partidária.
Politicamente, no entanto, teve atitudes, para muitos,
abomináveis. Ninguém é perfeito... Até dos seus erros podemos
tirar ensinamento.
Saramago com sua vida e obra, com seus defeitos e virtudes, estará
no Panteão da Lusofonia, quer queiramos quer não.
No Panteão da Lusofonia não cabem ódios nem rancores. Saramago não
colocou ódios ou rancores na sua obra. O tempo o absolverá de seus
erros políticos. Restará sua obra. Esta o elevará.
Acredito que está na hora de Portugal redescobrir Saramago, sem
preconceitos, como um de seus filhos amados, apesar dos pesares.
2. Saramago foi um homem e um artista que teve como seu
grande mérito, o seu esforço por acordar a sociedade de certa
letargia: provocou as pessoas para que refletissem, em busca da
consciência do ser. A rejeição que ele teve faz parte dessa tomada
de consciência...
A incredulidade que ele tanto propagava, acredito que faz parte de
seu processo de provocação à sociedade para que sua fé não seja em
decorrência de uma tradição formal, da inércia e de uma vontade de
ser igual e de não destoar do meio em que convive.
Talvez uma afronta, subconsciente, ao “pensamento único” e
“inquestionável” que move ações e atitudes, mas não move corações,
convicções e sentimentos coerentes, e conscientes.
Não move o espírito.
Suas polêmicas acordaram muita gente. Ribombaram como trombetas...
Mas as pessoas não gostam de ser “perturbadas”, como os homens não
gostam de ir ao médico.
Mesmo quando acusou Deus e todas as religiões, por todos os males
e misérias do mundo, por todas as guerras e maledicências,
provocando um grande terremoto de agressões e contestações e
constrangimentos, acredito que foi mais um ato provocativo de bom
resultado. Fez as pessoas pensarem e reagirem. Despertou
consciências.
Acordou os que estavam sonolentos, “estagnados”, no átrio das
igrejas.
Ajudou a curar a cegueira de muitos...
Até o seu último romance, “CAIM”, com todas as suas
inconsistências, foi uma obra que, socialmente, deixou um saldo
positivo. Provocou uma grande corrida à Bíblia, para conferir os
textos originais...
3. Sejamos Críticos, mas não Injustos
Podemos e devemos ser críticos, mas não injustos. Não podemos
demonizar as pessoas.
Podemos não concordar em tudo o que Saramago agitou, mas não
podemos deixar de reconhecer o valor de sua lealdade a princípios,
até quando abala alguns dogmas da Igreja. Até quando venerou o
“bezerro de ouro” do poder despótico e deletério de seu país, que
nos causa repugnância.
Naturalmente podemos discordar de muitas de suas posições, mas não
podemos deixar de dar valor à sua bela história humana.
Tanto política como literariamente, Saramago foi um homem
coerente. Nunca temeu perder leitores com suas atitudes. Isto
ninguém pode negar. Foi um homem de coragem. Ao contrário de
muitos que o criticaram...
Saramago foi um homem simples. Um homem dedicado à sua obra.
4. Vai-se o homem, fica a obra. Devemos perdoar-lhe (?!)
alguns de seus eventuais desvios, mas não podemos de deixar de
apreciar o difícil percurso, seguido por um homem humilde de
nascimento, que conseguiu subir todos os degraus da fama e
encantar milhões de pessoas, com mérito e qualidade. Saiu do
anonimato, para se projetar na história, como um vencedor que, com
sua obra literária, deixou o mundo mais belo.
Acredito que não vendeu sua alma ao diabo... Se vendeu,
recuperou-a.
Já vi pessoas lendo Saramago nos lugares mais inesperados, como em
praias do Brasil, em banco de praça e nos metrôs de
Lisboa... etc, etc.
Foi um grande escultor da frase e um genial contador de
histórias.
Diz uma grande crítica literária brasileira:
“Com ele, a Língua Portuguesa readquiriu, ao mesmo tempo, a
majestade de um Vieira, o humor de um Eça de Queirós e a beleza
poética de Pessoa prosador” (Leyla Perrone-Moisés).
Chico Buarque fala de Saramago como “um ser humano admirável,
um escritor imenso, um zelador apaixonado da Língua Portuguesa”.
Sei que estas ideias são uma reviravolta naquilo que muitos pensam
em Portugal sobre Saramago.
Precisamos repensar sempre nossos conceitos, quando surgem novas
luzes. Não nos fechemos à luz, como as ostras.
5. Saramago no Brasil
José Saramago tinha profunda estima pelo Brasil, que muito
admirava.
No Brasil tinha e tem muitos milhares, talvez milhões de
admiradores. Aqui veio muitas vezes. Sentiu o coração do Brasil
palpitar no ritmo e com a força do coração português. Era e é o
autor mais vendido da etiqueta literatura estrangeira. Aqui falou
sempre bem de Portugal.
Do Brasil dizia:
“Somos gente da mesma família,
de uma mesma língua,
de uma mesma cultura que é, embora diferente, a mesma”.
Para ele, o Brasil e Portugal estavam fadados a viverem unidos.
Saramago sempre se sentiu muito bem, entre os brasileiros, que
retribuíam com grande carinho. O Brasil é um novo Mundo.
No Brasil encontrou o céu em vida.
Foi muito amado, aqui. Porque ele era muito bom. Mas nem todos
souberam ver o que ele nos oferecia...
Em Portugal Saramago foi muito antipático. Isto é questão
circunstancial; não diminui o valor de sua obra e de sua vida.
Precisamos apreciá-lo com certa objetividade, desapaixonadamente,
para não sermos atropelados pela história. Saibamos que a
realidade tem muitos ângulos, e não só um.
6. Saramago vai ao Paraíso
Até Deus Pai, lá do Céu, quando Saramago chegou, foi recepcioná-lo
à porta, junto com São Pedro, o homem das chaves.
Deu-lhe as boas vindas, com um grande abraço. E ele encabulado...
sem dizer nada...
Tinha aqui na terra, falado muito mal de Deus e do seu Cristo! O
Pai logo atalhou: filho, eu ausculto os corações... Quando falavas
mal de mim, criticavas o que eu não era e não a mim. Criticavas
porque amavas o que eu sou. Eu sou justo e generoso. Sou a
Sabedoria.
Muito do que fizeste, às vezes por caminhos tortuosos, fez
as pessoas pensarem e acertarem suas vidas. Tiraste muita gente da
monotonia e da inércia.
As pessoas te criticavam mordazmente e com razão; mas fizeste-as
pensar. Já te deram a pena que mereceste.
Vem comigo. Também aqui terás por missão provocar, em todos, um
sorriso largo, com teu humor e teus paradoxos. Precisamos inovar
sempre... Precisamos despachar mais sinais de esperança
para teus irmãos, lá na terra de onde vens.
7. O Grande Legado de Saramago
A vida e a obra de Saramago, o segundo Prêmio Nobel da Língua
Portuguesa, têm algo de monumental que apela à nossa
consideração.
[Nosso primeiro Prêmio Nobel foi o Médico, Dr. Egas Moniz, (1949).
Um grande homem.]
Quaisquer que sejam as nossas apreciações, Saramago é um
imortal, em dimensões de literatura universal.
Saramago saiu da vida e entrou na história.
Na história ele continua vivo, em outra dimensão. Ninguém
conseguirá tirar-lhe o que lhe pertence. Os méritos são dele.
Seus críticos vão e ele fica.
Agora cabe a nós fazermos a nossa lição de casa, sem preconceitos
e sem simplismos.
Compete a cada um de nós detectar onde está os melhores
tesouros que nos legou.
Se soubermos olhar, apesar dos percalços, o saldo é muito
positivo. Merece o nosso apreço e a nossa consideração.
A posteridade, apagados os erros de percurso, saberá lhe fazer
justiça, enaltecendo a sua imagem.
Não podemos repetir o que o país tradicionalmente fez com as
pessoas que mais se destacavam no seu povo. Estas, de praxe, são
renegadas por seus contemporâneos. O P. Antônio Vieira, um dos
maiores ou talvez o maior sábio do século XVII denunciou este
costume execrável, de que ele quase foi vítima.
É de Vieira esta frase constrangedora:
“Defendeste a pátria?
Cumpriste o teu dever.
A Pátria foi ingrata?!
Fez o que costuma fazer.”
Lembremo-nos de que Camões, se não fosse a dedicação de seu
escravo, teria morrido de fome. E que Pessoa também foi
rejeitado por muitos, no seu tempo. Vieira, se não fosse
tão sagaz, teria sido queimado pela Inquisição, e foi uma das
maiores inteligências da História de Portugal e do Brasil, de
todos os tempos.