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Mesmo antes de chegar às
livrarias, o livro “A Imitação dos Sentidos”, do prof. Leopoldo
Bernucci, publicado pela Edusp em 1995, já era notícia e provocava
polêmica.
Era de se esperar, uma vez que o autor acusa Euclides da Cunha de
copiar ou “incorporar” reportagens de jornais e outros documentos
na elaboração de “Os Sertões” e aponta esses trechos,
comparando-os com “as fontes”. Entretanto, laudas e laudas de
resenhas e debates posteriores ao lançamento do livro, o grande
público continuou e continuará a ler Os Sertões, justamente porque
desde há muito essa (quase) inclassificável obra, vem despertando
constante interesse pela comunidade mundial de historiadores e
críticos e provando sua perenidade.
Este exemplo serve para
ilustrar o sempre polêmico tema de plágio que, volta e meia, ocupa
as manchetes dos meios de comunicação de massas e que neste
momento é também largamente discutida no espaço virtual.
Michel Schneider, em
“Ladrões de Palavras”, publicado pela Editora da Unicamp em 1990,
joga baldes de água fria nesse sempre acalorado debate.
Schneider analisa com
profundidade o plágio na obra literária e prova, com exemplos
irrefutáveis, o que, aliás, sem erudição nenhuma, o nosso velho
guerreiro Chacrinha apregoava sem cansar: nada se cria tudo se
copia. De Shakespeare a Camões, de Balzac e Flaubert a discípulos
de Freud, passando por Montaigne, reconhecidamente plagiários e,
inclusive, elogiados pela pilhagem, poucos passaram ilesos.
Uma coisa é copiar uma obra, pura e simplesmente, outra é a
apropriação de idéias, trechos ou fatos que, nas mãos de hábeis
escritores, como foi Euclides, sofrerão a “transmutação criadora”,
resultando em obra original.
Vejamos o que diz
Schneider: “só escrevem aqueles cuja língua dói, e mais gravemente
afetados são aqueles a quem dói a dos outros” (…) “Os atos de
escritura são aparentemente falhos, estranhos, aberrantes; neles
apreender o lado excepcional é um modo de atingir o permanente. Se
aceitarmos este método, veremos no plágio o protótipo da
elaboração estilística e, na incorporação, o da identificação” ou,
ainda, citando Paulhan: “Em literatura, há apenas um sentimento
absolutamente tolo: é o medo de ser influenciado”.
Lembro de dois casos
ocorridos na região do Grande ABC (SP) nos anos 80. Num deles, um
escritor convocou, de forma sensacionalista, a polícia que invadiu
a Feira do Livro de Santo André, apreendendo todos os exemplares
de um livro que estava sendo autografado por sua autora, sob a
acusação de que inúmeros trechos dessa obra eram de sua autoria.
Processo em curso, consultados especialistas em literatura, enfim,
a sentença: todas as frases que o queixoso desejou provar como
suas, não passavam de chavões considerados de domínio público.
Assim, o delito não ficou caracterizado, acabando com os sonhos de
glória de plagiador e plagiado.
Também por ocasião da
Feira do Livro de Santo André, em 1985, a tradutora Nair Lacerda
deparou-se com um romance de Taylor Caldwell, anos antes traduzido
por ela, naquela ocasião relançado pela Editora Record com o
título “Médico de Homens e de Almas”. A edição dava como autor da
tradução um tal de Aidano Arruda, mas na verdade, conforme a
própria Nair constatou, tratava-se de cópia literal da sua, frase
a frase, inclusive as notas de pé de página. Apesar de gravíssimo,
o caso até hoje não ficou solucionado e a saudosa dona Nair morreu
sem receber qualquer ressarcimento moral. Ao que parece, sempre
difícil de provar, mais difícil ainda de incriminar, mesmo em
casos flagrantes como este.
Fácil, no entanto,
perceber porque só aos grandes escritores está reservado o ato do
amálgama da informação, da pesquisa com a criação. Só esses sabem,
com sabedoria, transformar fatos cotidianos ou históricos em um
ato estético chamado literatura. O simples furto está reservado
aos desonestos e medíocres.
Dalila Isabel Agrela
Teles Veras
Escritora portuguesa natural do
Funchal, Ilha da Madeira, emigrou para o Brasil em 1957
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