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Tiveram lugar, à luz do calendário
corrente, as comemorações do Dia de Portugal, e com elas os usuais
atos solenes. Em todo o caso, e dentro do que me foi dado observar
pela localidade em que me encontro do País, tais atos pouca ou
nenhuma relevância tiveram, mormente se a medirmos pelas conversas
ao longo de todo o dia: uma praticamente total ausência. Conversas
que incidiram, acima de tudo, sobre o que rodeia o Mundial de
Futebol da África do Sul, a poucos dias do seu início oficial.
Seria interessante, para esta análise, comparar o nível das
audiências televisivas ligadas ao Dia de Portugal e à cerimônia
que a RTP 2 transmitiu desde o final da tarde até às dez horas da
noite.
Das cerimônias do Dia de Portugal, como
é já usual, há a destacar a atribuição das condecorações a
personalidades portuguesas diversas, mas também os discursos,
muito em especial o do Presidente da República. E se a primeira
parte se constituiu num elemento informativo ainda útil, a segunda
pecou por razões diversas.
Diga-se o que se disser, a verdade é que a corrida presidencial de
Aníbal Cavaco Silva está já em pleno desenvolvimento, fato que
nunca seria relevante, se acaso as suas intervenções não se
virassem contra a situação difícil em que se encontra Portugal.
Infelizmente, tanto o discurso de António Barreto como o do
Presidente Cavaco Silva só serviram para fragilizar a situação do
País e para dividir os portugueses entre si, e mais ainda do que
já se encontram.
Algo inacreditavelmente, António Barreto
veio agora apontar os governantes – certamente que também Cavaco
Silva – de nada terem feito em defesa da dignidade dos que
defenderam Portugal nos teatros da guerra. E foi mesmo mais longe:
acusou a generalidade dos próprios portugueses de assim se
comportarem também. Uma situação claramente inoportuna e
divisionista da unidade do País, que mostra, afinal, que os
portugueses se desprezam a si mesmos. De resto, fazendo contas
simples, torna-se mesmo evidente que o tema abordado por António
Barreto constitui um problema sem solução, porque nunca tendo a
mesma surgido ao longo de décadas e com sucessivos governos, só
por milagre poderia ser agora encontrada, quando a margem de
manobra dos portugueses e de Portugal se vê estrangulada como
consequência da crise mundial criada pelas perversões do modelo
neoliberal.
Mas se o discurso de António Barreto
pouca importância pode comportar, já o mesmo se não pode dizer do
de Aníbal Cavaco Silva, uma vez que ele desempenha hoje o cimeiro
papel político de Presidente da República. Um papel que sempre
deverá pautar-se como um centro da unidade nacional e nunca como
uma função cujo valor ajude a que as coisas possam ser tornadas
ainda piores do que já se encontram.
Infelizmente, foi esta segunda situação que teve lugar com este
inútil e prejudicial discurso do Presidente Cavaco Silva.
Foi um discurso inútil porque
completamente banal, sem um ínfimo de conteúdo realmente válido, e
até com inconsistências internas muito evidentes. Sem manias, eu
mesmo seria capaz de elaborar um outro discurso que defendesse
muito melhor a imagem de Portugal no momento difícil que
atravessa, tal como se está a dar por mil e um outros lugares do
Mundo, consequência, mais que expectável, da aplicação cega do
modelo neoliberal. Modelo neoliberal sobre que nunca se terá
ouvido uma crítica explícita do Presidente Cavaco Silva neste seu
primeiro mandato.
Aliás, o discurso do Presidente da
República apresentou mesmo fortes inconsistências internas, porque
ao mesmo tempo que apelou à unidade dos portugueses e à
necessidade de colocar de lado diferenças políticas e ideológicas,
acabou por aceitar que as atuais medidas são para aplicar, mas sem
identificar a responsabilidade da crise mundial atual pelo seu
verdadeiro nome: o modelo neoliberal, com as consequências que
teve a sua aplicação cega e sem um ínfimo de controlo.
Pior do que inútil este discurso foi, à
semelhança do de Ano Novo, um discurso claramente prejudicial para
a imagem de Portugal. Com aquela sua primeira intervenção, depois
de um jornal de referência norte-americano nos ter colocado no
grupo de países intermédios em matéria de situação econômica e
financeira, conseguiu-se, já pelo final de Janeiro, que esse mesmo
jornal nos colocasse na situação de lanterna vermelha da União
Européia. Pois se o próprio Presidente da República, numa sua
intervenção muito referente, vinha dizer aos portugueses e ao
Mundo que a situação de Portugal poderia vir a tornar-se
explosiva, porquê continuar a manter Portugal no tal grupo
intermédio?! Bom, o resultado foi o que depois se pôde ver.
Imagine o leitor que a sua equipa se encontrava no último oitavo
da classificação, a quatro jornadas do fim, com os jogadores a
atuarem sem grande vontade nem qualidade, mas também sem suplentes
à altura.
Seria um tal momento adequado a tecer
críticas públicas sobre o estado da situação financeira do clube e
que os ordenados poderiam deixar de ser pagos?! Pense neste
exemplo e compare com a realidade nacional, ao redor daquele
infeliz discurso do Presidente Cavaco Silva.
Pois, foi isto mesmo que voltou agora a
ter lugar. Embora o significado dos recentes valores do nosso
crescimento econômico não tenha repercussão no nível de vida dos
portugueses, nem no crescimento do emprego, a verdade é que aquele
crescimento está já hoje confirmado. Portanto, porquê vir agora
repetir que Portugal se encontra numa situação insustentável?
Quais serão as consequências, na opinião do meu caríssimo leitor,
que este discurso poderá ter na erosão da imagem que o País tem já
hoje no exterior? Ajudará a que essa imagem melhore, ou, pelo
contrário, dará uma boa mão no sentido inverso? É difícil haver
duas opiniões…
Por fim, a corrida presidencial. É
também difícil deixar de interpretar este discurso como mais uma
intervenção com repercussões no plano político-partidário: basta
reparar nas reações dos diversos partidos, e todas as dúvidas se
dissipam. Também aqui o discurso não colheu. Simplesmente, por
esta razão sempre acabará por ser este discurso interpretado com
estando já integrado numa estratégia de explicitação da imagem
pública de Aníbal Cavaco Silva como candidato presidencial: a uma
primeira vista, ele vem avisando os portugueses do risco que estes
correm, embora o resultado seja o que vai tendo lugar por toda a
parte. Até já na Alemanha! Por detrás de tudo isto há uma causa, a
tal que Cavaco Silva nunca refere pelo seu nome: o modelo
neoliberal, com o cortejo de desemprego, pobreza e miséria. Enfim,
um discurso inútil e prejudicial para os portugueses e para a
imagem do País. Um discurso que já não consegue evitar ser
interpretado como ligado à respectiva campanha para a eleição
presidencial.
Hélio Bernardo Lopes
De Portugal
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