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Por Hélio Bernardo Lopes


Sexta - feira | 11 JUN 10

“Inútil e Prejudicial”

Tiveram lugar, à luz do calendário corrente, as comemorações do Dia de Portugal, e com elas os usuais atos solenes. Em todo o caso, e dentro do que me foi dado observar pela localidade em que me encontro do País, tais atos pouca ou nenhuma relevância tiveram, mormente se a medirmos pelas conversas ao longo de todo o dia: uma praticamente total ausência. Conversas que incidiram, acima de tudo, sobre o que rodeia o Mundial de Futebol da África do Sul, a poucos dias do seu início oficial. Seria interessante, para esta análise, comparar o nível das audiências televisivas ligadas ao Dia de Portugal e à cerimônia que a RTP 2 transmitiu desde o final da tarde até às dez horas da noite.

Das cerimônias do Dia de Portugal, como é já usual, há a destacar a atribuição das condecorações a personalidades portuguesas diversas, mas também os discursos, muito em especial o do Presidente da República. E se a primeira parte se constituiu num elemento informativo ainda útil, a segunda pecou por razões diversas.
Diga-se o que se disser, a verdade é que a corrida presidencial de Aníbal Cavaco Silva está já em pleno desenvolvimento, fato que nunca seria relevante, se acaso as suas intervenções não se virassem contra a situação difícil em que se encontra Portugal. Infelizmente, tanto o discurso de António Barreto como o do Presidente Cavaco Silva só serviram para fragilizar a situação do País e para dividir os portugueses entre si, e mais ainda do que já se encontram.

Algo inacreditavelmente, António Barreto veio agora apontar os governantes – certamente que também Cavaco Silva – de nada terem feito em defesa da dignidade dos que defenderam Portugal nos teatros da guerra. E foi mesmo mais longe: acusou a generalidade dos próprios portugueses de assim se comportarem também. Uma situação claramente inoportuna e divisionista da unidade do País, que mostra, afinal, que os portugueses se desprezam a si mesmos. De resto, fazendo contas simples, torna-se mesmo evidente que o tema abordado por António Barreto constitui um problema sem solução, porque nunca tendo a mesma surgido ao longo de décadas e com sucessivos governos, só por milagre poderia ser agora encontrada, quando a margem de manobra dos portugueses e de Portugal se vê estrangulada como consequência da crise mundial criada pelas perversões do modelo neoliberal.

Mas se o discurso de António Barreto pouca importância pode comportar, já o mesmo se não pode dizer do de Aníbal Cavaco Silva, uma vez que ele desempenha hoje o cimeiro papel político de Presidente da República. Um papel que sempre deverá pautar-se como um centro da unidade nacional e nunca como uma função cujo valor ajude a que as coisas possam ser tornadas ainda piores do que já se encontram.
Infelizmente, foi esta segunda situação que teve lugar com este inútil e prejudicial discurso do Presidente Cavaco Silva.

Foi um discurso inútil porque completamente banal, sem um ínfimo de conteúdo realmente válido, e até com inconsistências internas muito evidentes. Sem manias, eu mesmo seria capaz de elaborar um outro discurso que defendesse muito melhor a imagem de Portugal no momento difícil que atravessa, tal como se está a dar por mil e um outros lugares do Mundo, consequência, mais que expectável, da aplicação cega do modelo neoliberal. Modelo neoliberal sobre que nunca se terá ouvido uma crítica explícita do Presidente Cavaco Silva neste seu primeiro mandato.

Aliás, o discurso do Presidente da República apresentou mesmo fortes inconsistências internas, porque ao mesmo tempo que apelou à unidade dos portugueses e à necessidade de colocar de lado diferenças políticas e ideológicas, acabou por aceitar que as atuais medidas são para aplicar, mas sem identificar a responsabilidade da crise mundial atual pelo seu verdadeiro nome: o modelo neoliberal, com as consequências que teve a sua aplicação cega e sem um ínfimo de controlo.

Pior do que inútil este discurso foi, à semelhança do de Ano Novo, um discurso claramente prejudicial para a imagem de Portugal. Com aquela sua primeira intervenção, depois de um jornal de referência norte-americano nos ter colocado no grupo de países intermédios em matéria de situação econômica e financeira, conseguiu-se, já pelo final de Janeiro, que esse mesmo jornal nos colocasse na situação de lanterna vermelha da União Européia. Pois se o próprio Presidente da República, numa sua intervenção muito referente, vinha dizer aos portugueses e ao Mundo que a situação de Portugal poderia vir a tornar-se explosiva, porquê continuar a manter Portugal no tal grupo intermédio?! Bom, o resultado foi o que depois se pôde ver.
Imagine o leitor que a sua equipa se encontrava no último oitavo da classificação, a quatro jornadas do fim, com os jogadores a atuarem sem grande vontade nem qualidade, mas também sem suplentes à altura.

Seria um tal momento adequado a tecer críticas públicas sobre o estado da situação financeira do clube e que os ordenados poderiam deixar de ser pagos?! Pense neste exemplo e compare com a realidade nacional, ao redor daquele infeliz discurso do Presidente Cavaco Silva.

Pois, foi isto mesmo que voltou agora a ter lugar. Embora o significado dos recentes valores do nosso crescimento econômico não tenha repercussão no nível de vida dos portugueses, nem no crescimento do emprego, a verdade é que aquele crescimento está já hoje confirmado. Portanto, porquê vir agora repetir que Portugal se encontra numa situação insustentável? Quais serão as consequências, na opinião do meu caríssimo leitor, que este discurso poderá ter na erosão da imagem que o País tem já hoje no exterior? Ajudará a que essa imagem melhore, ou, pelo contrário, dará uma boa mão no sentido inverso? É difícil haver duas opiniões…

Por fim, a corrida presidencial. É também difícil deixar de interpretar este discurso como mais uma intervenção com repercussões no plano político-partidário: basta reparar nas reações dos diversos partidos, e todas as dúvidas se dissipam. Também aqui o discurso não colheu. Simplesmente, por esta razão sempre acabará por ser este discurso interpretado com estando já integrado numa estratégia de explicitação da imagem pública de Aníbal Cavaco Silva como candidato presidencial: a uma primeira vista, ele vem avisando os portugueses do risco que estes correm, embora o resultado seja o que vai tendo lugar por toda a parte. Até já na Alemanha! Por detrás de tudo isto há uma causa, a tal que Cavaco Silva nunca refere pelo seu nome: o modelo neoliberal, com o cortejo de desemprego, pobreza e miséria. Enfim, um discurso inútil e prejudicial para os portugueses e para a imagem do País. Um discurso que já não consegue evitar ser interpretado como ligado à respectiva campanha para a eleição presidencial.

Hélio Bernardo Lopes

De Portugal


 

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