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Por Hélio Bernardo Lopes


Quarta - feira | 09 JUN 10

“Criticar sem olhar a quê”

Portugal encontra-se hoje numa situação deveras singular, porque tudo o que o Governo de José Sócrates possa decidir, de imediato é alvo de mil e uma críticas e ataques. Invariavelmente, por razões completamente antagónicas entre si e pelos diversos partidos da atual oposição.

Como pude já escrever por vezes diversas, não devem os meus leitores imaginar que me dou por contente com a orientação política do Primeiro-Ministro, José Sócrates, porque lhe encontro mui desagradáveis erros, até de fundo. Em todo o caso, estou firmemente convicto – basta estar atento ao que se diz – que um Governo de Pedro Passos Coelho seria ainda pior, sobretudo, para os que se queixam dos custos sociais da política do atual Governo. Isso mesmo – finalmente!! – foi há dias referido por Jerónimo de Sousa, num encontro que teve com militantes do seu partido.

Mas vamos lá por partes, como usa dizer-se. Qualquer português atento ao que se passa no Portugal de hoje facilmente percebe que, mau grado a correção das palavras do Presidente Cavaco Silva, sobre o imperativo de se fazer férias cá dentro, nenhum português determinará a estrutura das mesmas em função daquelas palavras. Em contrapartida, e à semelhança do erro já cometido com o discurso de Ano Novo, aquelas palavras, sobretudo num tempo em que tudo se sabe em poucas horas, poderiam, porventura, criar o que designo aqui por ações reflexas: se todos procederem assim – quase todos estão em situação financeira e económica difícil –, simplesmente se criaria uma estagnação por todo o sistema económico-financeiro internacional.

Algo inacreditavelmente, os nossos grandes meios de comunicação social de pronto se deitaram a criar uma espécie de nova guerra entre Cavaco Silva e Vieira da Silva, como se ambos não tenham razão, sendo que a afirmação do primeiro foi claramente inútil, com a segunda a colocar-se numa posição previsivelmente apontável como de guerrilha. Enfim, intervenções inúteis e inoportunas.

A tudo isto há que juntar o caso da extinção das escolas com menos de vinte e um alunos. Claro está que esta decisão não pode ser avaliada na sua amplitude em função apenas deste objetivo, sendo que a mesma pode muitíssimo bem vir a revelar-se correta, mesmo eficaz, desde que um conjunto não muito vasto de condições seja preenchido. Condições que foram já apontadas por atores diversos do domínio em causa. O que já é inaceitável é considerar-se incorreto o que se desconhece, porque o prosseguimento desta maneira de fazer política atingiu já um efeito de descrédito sobre o próprio mecanismo democrático: os portugueses começam a mostrar-se cansados com o modo como se está fazer política em Portugal, mormente com os cabalmente previsíveis ataques ao Primeiro-Ministro, José Sócrates, e ao seu Governo. Tudo é anunciadamente mau e errado, ao menos pela voz dos dirigentes dos partidos da oposição.

Por fim, o já célebre caso da passagem do 8º Ano para o 10º Ano, destinado a ser aplicado a alunos em determinadas condições.

Claramente, e tal como pôde já observar Jorge Miranda, com o seu torcer de nariz, nada existirá de inconstitucional em tal ideia. Mais lógica é a sua dúvida sobre a qualidade do exame previsto, que terá, nos termos do que se tem visto, uma probabilidade elevada de se apresentar como pouco exigente e garantístico da qualidade de quem a ele se submeta. E também a crítica de Jorge Bacelar Gouveia, sobre a vantagem – e a lógica – de um ensino presencial, por via do qual o diálogo entre professor e aluno sempre se poderá mostrar de grande valor e projeção na vida e na atitude futura do segundo.

Como se vê, pelos exemplos antes referidos, e por mil e um outros que todos já conhecem à saciedade, o modo atual da oposição fazer política é o de simplesmente criticar sem olhar a quê. Tudo é mau e se saldará em desastre, mesmo antes de se verem os seus efeitos. É uma prática política que nos irá obrigar a pagar um preço bem mais elevado do que o que estamos já a pagar.

Hélio Bernardo Lopes

De Portugal


 

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