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Ninguém hoje duvida do realíssimo
desprestígio das nossas instituições aos olhos dos portugueses.
Mas, embora a realidade desta afirmação possa supor-se como uma
espécie de frase feita, a verdade foi agora posta a nu pelo
politicamente pouco correto presidente checo, ali mesmo, lado a
lado com o Presidente Cavaco Silva, que, também ele, se mostrou
completamente incapaz de ir além das adequadas palavras
diplomáticas.
Em boa verdade, a generalidade dos
portugueses presta muito pouca atenção à vida política, ligando
muito mais ao que evolui no mundo da bola nossa de cada dia. E,
por ser esta a realidade da nossa atitude social, quem vai sendo
escolhido e desempenhando o seu papel, lá vai sendo reconduzido,
sobretudo, se for dotado de alguma arte e engenho.
Perante a realidade do desinteresse dos
cidadãos pela vida política, e em face da muito má imagem da
generalidade das nossas instituições e dos seus dirigentes,
sobretudo medida pelo crescimento da abstenção e revelada, a cada
momento, nas convivências correntes, de pronto se deita mão da já
histórica bóia de salvação: há que aproximar os eleitos dos
eleitores.
Simplesmente, e perante máximas desta
natureza, nós todos em Portugal temos ainda a comunicação social
livre, onde alguns escrevem com objetiva independência, pelo que
se torna sempre possível que aos mais interessados cheguem
reflexões úteis e credíveis de muito do que decorre no nosso
tecido social.
Ora, como o meu caríssimo leitor conhece
muito bem, o desinteresse dos portugueses pela vida política tem
três causas principais: uma atitude cultural histórica,
essencialmente portuguesa, o desvaire do tempo que passa, onde
quase tudo o que eram referências se encontra à deriva, e o
evidente decaimento da segurança individual e das famílias, à luz
das políticas postas em prática pelos eleitos.
Compreenderá o meu caríssimo leitor que
a primeira daquelas causas, sendo estrutural e muito longínqua,
não pode ser alterada de modo rápido. Do mesmo modo, também os
portugueses não têm grandes meios de intervir na deriva em que o
Mundo destes dias se encontra, pelo que é na terceira causa que a
sua intervenção se poderá operar.
Acontece, contudo, que da primeira se
percebe que os portugueses pouco interesse têm na vida pública, já
que sendo da ação dos diversos governantes que temos tido a causa
principal do estado a que se chegou, se excetuarmos o caso recente
da grande crise mundial, se os eleitores continuam a escolher,
embora com abstenção crescente, os mesmos de sempre, certamente
que também continuarão a ter os mesmos resultados, ou outros ainda
piores.
O que já não é lógico, como o meu caro
leitor facilmente perceberá, é esperar que tudo será diferente, e
para melhor, se se diminuir o número de deputados e se criarem os
designados círculos uninominais, à luz de, supostamente, se
conseguir uma maior proximidade entre eleitos e eleitores. Como se
tal metodologia, num ambiente cultural como o nosso, tivesse um
ínfimo de eficácia!!
Estes eleitos, à semelhança dos de hoje,
continuariam a trabalhar do mesmo modo, seja bom ou mau, e com
resultados para os cidadãos e o País em tudo idênticos.
Porventura, piores. E o que se faria então?
Mudar de novo? Mas quando e para que
novo modelo? Bom, meu caro leitor, perigosas tretas…
Sendo tretas todas estas ideias que por
aí andam há uns bons anos, pouco interesse poderiam ter, desde que
não sobreviesse, como consequência, o quase desaparecimento dos
pequenos partidos, mormente o PCP e o Bloco de Esquerda, mas
também o CDS/PP. Por razões diversas, os portugueses ficariam,
então sim, sem porta de saída e sem quem quer que fosse que
defendesse os seus naturais e legítimos interesses nos lugares
próprios.
Por fim, e perante o crescimento
deslegitimador da abstenção, lá surgiria a imposição do voto
obrigatório… E que fariam os eleitores descontentes? Bom, se
estando hoje descontentes, e já desde há tanto, continuam a votar
nos mesmos, em quem iriam votar então e à força?
Bom, nos mesmos, claro está! Em todo o
caso, com uma diferença para pior: deixaria de existir uma voz
corretora no ambiente parlamentar.
Portanto, meu caríssimo leitor, cuidado
com o que vai fazer nas próximas escolhas a que for chamado…
Divida, se quer ter alguma capacidade para reinar, ou tudo se lhe
tornará ainda pior. Olhe para a experiência.
Hélio Bernardo Lopes
De Portugal
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