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Por Hélio Bernardo Lopes


Quinta - feira | 06 MAI 10

“O Sistema Eleitoral”

Ninguém hoje duvida do realíssimo desprestígio das nossas instituições aos olhos dos portugueses. Mas, embora a realidade desta afirmação possa supor-se como uma espécie de frase feita, a verdade foi agora posta a nu pelo politicamente pouco correto presidente checo, ali mesmo, lado a lado com o Presidente Cavaco Silva, que, também ele, se mostrou completamente incapaz de ir além das adequadas palavras diplomáticas.

Em boa verdade, a generalidade dos portugueses presta muito pouca atenção à vida política, ligando muito mais ao que evolui no mundo da bola nossa de cada dia. E, por ser esta a realidade da nossa atitude social, quem vai sendo escolhido e desempenhando o seu papel, lá vai sendo reconduzido, sobretudo, se for dotado de alguma arte e engenho.

Perante a realidade do desinteresse dos cidadãos pela vida política, e em face da muito má imagem da generalidade das nossas instituições e dos seus dirigentes, sobretudo medida pelo crescimento da abstenção e revelada, a cada momento, nas convivências correntes, de pronto se deita mão da já histórica bóia de salvação: há que aproximar os eleitos dos eleitores.

Simplesmente, e perante máximas desta natureza, nós todos em Portugal temos ainda a comunicação social livre, onde alguns escrevem com objetiva independência, pelo que se torna sempre possível que aos mais interessados cheguem reflexões úteis e credíveis de muito do que decorre no nosso tecido social.

Ora, como o meu caríssimo leitor conhece muito bem, o desinteresse dos portugueses pela vida política tem três causas principais: uma atitude cultural histórica, essencialmente portuguesa, o desvaire do tempo que passa, onde quase tudo o que eram referências se encontra à deriva, e o evidente decaimento da segurança individual e das famílias, à luz das políticas postas em prática pelos eleitos.

Compreenderá o meu caríssimo leitor que a primeira daquelas causas, sendo estrutural e muito longínqua, não pode ser alterada de modo rápido. Do mesmo modo, também os portugueses não têm grandes meios de intervir na deriva em que o Mundo destes dias se encontra, pelo que é na terceira causa que a sua intervenção se poderá operar.

Acontece, contudo, que da primeira se percebe que os portugueses pouco interesse têm na vida pública, já que sendo da ação dos diversos governantes que temos tido a causa principal do estado a que se chegou, se excetuarmos o caso recente da grande crise mundial, se os eleitores continuam a escolher, embora com abstenção crescente, os mesmos de sempre, certamente que também continuarão a ter os mesmos resultados, ou outros ainda piores.

O que já não é lógico, como o meu caro leitor facilmente perceberá, é esperar que tudo será diferente, e para melhor, se se diminuir o número de deputados e se criarem os designados círculos uninominais, à luz de, supostamente, se conseguir uma maior proximidade entre eleitos e eleitores. Como se tal metodologia, num ambiente cultural como o nosso, tivesse um ínfimo de eficácia!!

Estes eleitos, à semelhança dos de hoje, continuariam a trabalhar do mesmo modo, seja bom ou mau, e com resultados para os cidadãos e o País em tudo idênticos. Porventura, piores. E o que se faria então?

Mudar de novo? Mas quando e para que novo modelo? Bom, meu caro leitor, perigosas tretas…

Sendo tretas todas estas ideias que por aí andam há uns bons anos, pouco interesse poderiam ter, desde que não sobreviesse, como consequência, o quase desaparecimento dos pequenos partidos, mormente o PCP e o Bloco de Esquerda, mas também o CDS/PP. Por razões diversas, os portugueses ficariam, então sim, sem porta de saída e sem quem quer que fosse que defendesse os seus naturais e legítimos interesses nos lugares próprios.

Por fim, e perante o crescimento deslegitimador da abstenção, lá surgiria a imposição do voto obrigatório… E que fariam os eleitores descontentes? Bom, se estando hoje descontentes, e já desde há tanto, continuam a votar nos mesmos, em quem iriam votar então e à força?

Bom, nos mesmos, claro está! Em todo o caso, com uma diferença para pior: deixaria de existir uma voz corretora no ambiente parlamentar.

Portanto, meu caríssimo leitor, cuidado com o que vai fazer nas próximas escolhas a que for chamado… Divida, se quer ter alguma capacidade para reinar, ou tudo se lhe tornará ainda pior. Olhe para a experiência.

Hélio Bernardo Lopes

De Portugal


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