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As revoluções
portuguesas são comoa ponte de Lisboa. Antes do golpe de estado
chamava-se “Ponte Salazar” depois passou a chamar-se“Ponte 25 de
Abril”. Apenas mudam a fachada e a lata. O povo, tal como o rio
Tejo, cansado de inúmeras voltas e de tantos despejos, sempre
pacífico e adaptado, tem permanecido igual a si mesmo, ao longo da
História: vagaroso mas internacional(1).
De época para época,
alguns insatisfeitos do sistema, os filhos dos senhores do regime,
provocam um golpe de estado, apoderam-se dele e mudam-lhe o nome.
Povo e golpistas conhecem-se de ginjeira: aquilo a que dão o nome
de revoluções, pouco mais se trata do que da troca de nomes, dum
acerto de contas e de acomodação à história dos vizinhos; o mérito
do acontecimento está em dar ocasião à necessidade do povo
festejar e aplaudir ou, quando muito, resolver alguns deveres de
casa esquecidos. Os actores sabem que a injustiça não é boa mas a
justiça seria incómoda. Optam então pela vida dos dos “brandos
costumes” sem a preocupação de fazer justiça.
Arranjam um nome monstro
para justificarem as suas acções e branquearem as suas intenções.
No caso do 25 de Abril, um grupo de cretinos (2) aplicou ao regime
autoritário de Salazar o nome explosivo de fascismo, metendo-o
(internacionalizando-o) assim no mesmo rol de Franco, Mussolini,
Hitler e Pinochet. Então, a nação inteira passou a dar-se conta do
monstro e resolveu dar caça ao fantasma. Este vai recebendo cada
vez mais atributos até que passa de lobo a Minotauro. A partir
deste momento o povo perde a ideia passando a viver do medo do
labirinto. Entretanto vão surgindo alguns lobitos e o povo vai
distraindo o medo no “Jogo ao Lobo”!
O país da Europa com as
maiores desigualdades sociais entretém-se em argumentações
opiniosas deixando as coisas importantes para os nomes engordados
em nome das classes desfavorecidas. Já habituado à humilhação e à
atitude governativa arrogante e distante, o povo servil, filho da
“revolução da liberdade” até aceita a censura em nome da
democracia. O estado português já há séculos não tem povo,
chega-lhe a população. A população já há séculos que abdicou de o
pretender ser, contentando-se em viver na sombra da Face Oculta do
Estado. Deixou o palco da nação aos dançarinos do poder!
O 25 de Abril passou
– A Revolução está por fazer: Golpistas abusam do Nome Revolução
Com o golpe de estado de
Abril, o regime autoritário é acabado no meio da guerra colonial.
O povo português, o que quer é esquecer a guerra e os políticos o
que querem é a confusão para se poderem organizar e não terem de
assumir responsabilidade pela traição dos interesses da nação, dos
retornados e do povo nativo. Segundo o reconhecido historiador
José Saraiva, o abandono das províncias ultramarinas constituiu
“a página mais negra da História de Portugal”. Disto não se
fala; reduz-se a história a folclore e a governação ao jogo do
rato e do gato…
O 25 de Abril assenta em
pés de barro. Fez um golpe de Estado e deu-lhe o nome de
revolução. Os seus actores não pensavam em revolução. Foram
surpreendidos pelos acontecimentos que eles próprios provocaram e
alguns, entre eles, (especialmente Otelo S. de Carvalho)
serviram-se do comunismo/socialismo para legitimarem e darem uma
projecção histórica ao movimento dos oficiais descontentes. O 25
de Abril foi um golpe de Estado que surgiu de motivos pessoais e
antipatrióticos de alguns, mas nunca uma revolução. O novo
regime começou mal e com actos inglórios tal como acontecera na
implantação da república. Mas disto não deve rezar a História, o
povo precisa de festa e os governantes de distarcção. Não importa
viver, interessa é ir-se vivendo!
O programa MFA
(Movimento das Forças Armadas) pretendia Democracia,
Descolonização e Desenvolvimento. Os primeiros dois anos foram uma
confusão maluca. Tudo era facho e qualquer jovem adolescente se
armava em guarda de comícios, por vezes até de metralhadora na
mão. Recordo que quem tinha um emprego bom, ou uma casa digna,
logo era apelidado de “facho”, pelo povo gozador, num misto de
atmosfera de inveja e admiração. Depois com a nova constituição
tudo ficou camarada e irmão: camarada de facho na mão!
Os partidos, sem mérito,
passam a viver do prazer de terem organizado as suas fileiras.
Desfavorecem a politização do povo para fomentarem o partidarismo
e um discurso público dirigido à conservação do poder.
Entretanto, o povo
sente-se humilhado e deprimido; o seu sentimento de identidade
definha, sendo compensado apenas no sentimento duma grandeza
promissora dos irmãos da lusofonia e da madrasta União Europeia. O
sentimento de identidade nacional baseado no cristianismo, na
cultura nacional e na ideia das grandezas dos descobrimentos não
agradam às novas elites internacionalistas. A má experiência do
povo com a própria elite, sem sentimento de nação nem de povo,
leva-o a sentir-se apenas como inquilino anónimo de alguns
senhores da praça pública, dos canonizados da democracia. Sente-se
filho de pai incógnito!
Portugal continua preso
numa mentalidade de arrendatário de ideologias e senhorios
mercenários que o povo tem de acatar para ir vivendo! Portugal,
apesar de golpes de estado e de pseudo-revoluções, continua a
sofrer na pele a experiência de outrora: a experiência dos
ingleses senhores das quintas do vinho do porto que viviam na
Inglaterra e tinham em Portugal os seus feitores portugueses a
cuidar dos seus interesses. O Estado português tornou-se numa
feitoria de alguns mercenários. Daqui vem a sabedoria portuguesa
que, muitas vezes, diz: “ isto é para inglês ver”.
As nossas elites
intelectuais não são em nada inferiores às europeias. O problema
está no seu individualismo e na sua falta de consciência de povo,
e de espírito colectivo! As elites políticas vivem do nome,
interessando-se, a nível de país, apenas por terem Lisboa, como
sala de visitas de Portugal onde elas podem receber vaidosamente
os amigos. Colaboram com um internacionalismo interessado em
destruir as nações para depois poderem surgir como salvadores e
implantar um governo mundial de burocratas e tecnocratas contra os
biótopos nacionais.
O povo, antigamente,
sofria sob a bandeira do trono e do altar; hoje sofre sob a lama
das massas a toque de caixa partidária que segue o ritmo das
multinacionais.
A grande diferença:
Hoje o povo não se pode queixar, porque os seus opressores vêm do
seu meio e parte deles são eleitos democraticamente.
Já Ovídeo escrevia nas
Metamorfoses: “O destino conduz os de boa vontade e arrasta os de
má vontade”. Com a celebração do 35° aniversário do golpe, já
seria tempo de Portugal ir à cata dos de boa vontade!...
O aniversário do golpe
de estado poderá deixar de ser um pretexto para se tornar numa
oportunidade. Urge descobrir a nação e ter a vontade de se assumir
como povo. O grande povo e a nação valente que “deu novos mundos
ao mundo” tem-se manifestado incapaz de se descobrir a si.
Um Estado é como uma
planta. Se adoece, os parasitas cobrem-na facilmente.
O país tem-se modernizado; não tem inimigos nem ódios mas
encontra-se apático e doente. Depois do golpe de Estado, o
fanatismo republicano e o oportunismo continua a tradição da
“apagada e vil tristeza” dum conservadorismo míope e dum
progressismo cego! Os cães de guarda do Estado contentam-se em
morder e em ladrar alto e o rebanho atemorizado lá se vai movendo
no respeito à própria lã que vê nos dentes deles!
Acabe-se com o louvor do
golpe e dos golpistas. Não notaram ainda que a revolução se
encontra, desde há séculos, por fazer! Para nos levarmos a sério
teremos de descobrir primeiro o povo e a nação. Então seremos
capazes de enfrentar as desgraças históricas, sejam elas
progressistas ou conservadoras. Há que aceitá-las, para nos
podermos mudar e assim mudar o rumo português para o bem-estar de
todos, nacionais e estrangeiros. Para isso precisam-se mulheres e
homens adultos! “O povo unido jamais será vencido”, cantam as
sereias, na certeza de que ele se embala na música e não se
descubre como povo! Não vale a pena o queixume. Quem se queixa é
pobre ou não pode! Trata-se de mudar mudando-se! A nação precisa
de todos.
(1)
Salvaguardem-se as diferenças regionais da população. Esta é muito
diferenciada e rica, tal como os seus rios e a sua paisagem!
António da Cunha
Duarte Justo
antoniocunhajusto@googlemail.com
http://antonio-justo.blogspot.com/
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