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No ano que completaria 68 anos de
existência e também no ano do centenário de nascimento de seu
criador, o “Programa Joaquim Pimentel”, transmitido pela Rádio
Bandeirantes no Rio de Janeiro, chega ao fim.
Para quem não sabe, Joaquim Pimentel foi
poeta, fadista, ator, radialista, escreveu sucessos como “Só Nós
Dois”, gravado por grandes nomes da música portuguesa como Tony de
Matos e também no Brasil por Nélson Gonçalves, Ângela Maria, Fafá
de Belém, entre outros.
O programa iniciou suas transmissões na
Rádio Vera Cruz em 17 de outubro de 1942 e desde a morte de seu
criador, em 1978 era transmitido na Rádio Bandeirantes do Rio de
Janeiro, sempre aos domingos, pelo amigo e também fadista e poeta
Antonio Campos, e pela também fadista Hélia Costa.
Um programa extremamente conhecido e que
durante uma boa época teve até show de calouros, com platéia
sempre lotada. Foi berço artístico de grandes nomes da música
portuguesa como Adélia Pedrosa, Sebastião Robalinho e Antonio
Campos.
E justamente numa época em que tanto se comemora a amizade entre
Brasil e Portugal, até com escolas de samba promovendo essa união,
por trás da alegria, a tristeza de radialistas, artistas, pessoas
que vivem há anos lutando para manter viva a cultura portuguesa no
Brasil.
O fim do “Programa Joaquim Pimentel” é
um marco lamentável, que nos mostra que a verdade é que a cultura
portuguesa no Brasil está agonizando. E o pior e mais vergonhoso,
o programa está acabando por falta de patrocínio, assim como
também o “Programa Seleções Portuguesas - Show da Malta”,
apresentado por Oliveira Nunes, e mais outros dois programas.
Só no início deste ano de 2010 quatro
programas terão suas transmissões encerradas e um outro terá seu
horário reduzido por falta de apoio financeiro.
Fica aqui uma pergunta: não há um fundo
destinado a promover a cultura portuguesa no mundo? Se há, porque
não é utilizado para apoiar esses e outros programas? E os
senhores empresários que comemoram lucros cada vez maiores
advindos da parceria Brasil Portugal, vão ficar mais pobres
incentivando a cultura?
Enquanto nas décadas de sessenta a
oitenta víamos aqui no Brasil o sucesso de programas televisivos
como “Caravela da Saudade”, “Todos Cantam sua Terra”, “Show da
Malta”, “Portugal sob o Mesmo Céu”, “Imagens de Além Mar”, e
também radiofônicos como “Júlio Pereira”, “Joaquim Pimentel”,”
Irene Coelho”, e mais uma dezena deles, além de casas de fado no
Rio, São Paulo e Nordeste, a partir dos anos noventa tudo vem
acabando, pouco a pouco.
Os programas de TV não existem mais,
artistas portugueses que vivem no Brasil não mais são convidados a
participar de programas brasileiros como antes, são esquecidos até
pela própria colônia, em suas próprias casas. Casas de fado foram
fechando uma a uma, programas de rádio acabando. Tem algo muito
errado acontecendo. Porque enquanto isso, você liga a TV
portuguesa ou a rádio portuguesa e só ouve música brasileira.
Casas de shows em Portugal lotadas com artistas brasileiros. Onde
está a reciprocidade?
Há a desculpa que a imigração de
portugueses para o Brasil vem diminuindo, que não há mais tantos
portugueses e que os que aqui vivem estão velhos. Será? Mas e daí?
Só português é que gosta de fado, só português é que gosta de
Portugal? Uma desculpa no mínimo duvidosa, sem nenhum fundamento.
Se assim fosse também não teríamos músicas americanas tocando nas
rádios.
Artistas e radialistas vivem mendigando
auxílio de seus próprios patrícios aqui no Brasil para
sobreviverem. E na grande maioria das vezes nada conseguem.
Percebe-se que o interesse pela cultura é nenhum, o que interessa
mesmo é o lucro . Ninguém vai tomar nenhuma providência? Fica aqui
o apelo aos órgãos responsáveis pela cultura portuguesa e aos
empresários, que valorizem nossa cultura, que mostrem que se
importam. Porque agora que querem tornar o fado patrimônio da
humanidade, perguntamos: é assim que tratam o vosso patrimônio?
Não é possível que nossa cultura seja assim desprezada. Há
centenas de empresários portugueses que vivem no Brasil,
investindo maciçamente,e que com certeza devem patrocinar outras
atividades, na maioria das vezes nenhuma ligada a Portugal. Façam
alguma coisa. Tenham orgulho de sua cultura e de seu país. Não
deixem que a música portuguesa no Brasil viva só de lembranças.
E a responsabilidade é nossa! Os
brasileiros amam Portugal e as coisas de Portugal, nós é que não
estamos nos dando valor. É hora de fazermos alguma coisa. Mas nada
de discursos, festas, homenagens, e outras atitudes meramente
hipócritas, precisamos de ações concretas. Nossos radialistas,
artistas, as pessoas que promovem a cultura portuguesa no Brasil,
precisam de dinheiro, de investimentos, de espaço e de respeito. É
tão pouco para vocês , e significa tanto para eles.
O último programa Joaquim Pimentel foi
ao ar no último dia dia 28 de fevereiro, às 12 horas na radio
Bandeirantes a AM do Rio de Janeiro. Mas ao contrário de um ser
humano ele pode renascer, sempre há tempo de se fazer algo.
Mexa-se quem puder e tiver o mínimo de consciência, e quem tem ou
teria a obrigação de promover a cultura portuguesa no mundo.
Desculpem o desabafo, mas não podemos
mais nos calar com injustiças como essa acontecendo. Sei que
muitos me criticarão, pois bem, mas que não o façam apenas com
palavras, mostrem o que vêm fazendo efetivamente pela cultura
portuguesa no Brasil.
Cláudia Tulimoschi
Brasileira, luso-descendente, filha
da fadista Adélia Pedrosa e afilhada de Joaquim Pimentel e
Terezinha Alves, neta de Alberto Maria Andrade (ex-Caravela da
Saudade).
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