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I
Il
giorno in cui Paperino si è fatto per la prima volta Paperina e
altri racconti: 12 storie quasi post-moderne (O dia em que o Pato
Donald comeu pela primeira vez a Margarida e outros contos: 12
histórias quase pós-modernas),
do angolano João Melo (1955), é o quarto volume da coleção
Letteratura Luso-Afro-Brasiliana que a Morlacchi Editore, de
Perugia, Itália, vem publicando sob a direção do professor Brunelo
Natale De Cusatis, responsável pela Cátedra de Literatura
Portuguesa e Brasileira e Língua Portuguesa e Brasileira da
Universidade de Perúgia, com o apoio do Instituto Camões e da
Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, de Portugal, em edição
bilíngüe italiano-português.
O objetivo da coleção, segundo De Cusatis, é dar a
conhecer ao público italiano a obra poética e narrativa lusófona,
com atenção particular à última geração que é pouco ou nada
conhecida na Itália. Até agora já foram publicados os livros
Frontiere perdute, racconti per viaggiare, do angolano José
Eduardo Agualusa, Il caso del martello, do brasileiro José
Clemente Pozenato, e Buona notte, signor Soares, do
português Mário Cláudio. Com publicação prevista para este ano
está Racconti, de Sérgio Faraco. Entre os brasileiros,
estão dois gaúchos (Pozenato e Faraco), em razão do interesse que
pode despertar naquele país a literatura produzida numa região
marcada pela forte presença de imigrantes italianos, especialmente
do Vêneto.
Com apresentação, edição e tradução de Marco Bucaioni,
os contos de João Melo, publicados pela primeira vez pela
Editorial Caminho, de Lisboa, em 2006, fazem parte da nova
literatura angolana, até aqui mais conhecida pelas obras de José
Eduardo Agualusa (1960), Pepetela (1941), ganhador do Prêmio
Camões de 1997, que recusou por razões pessoais, e Luandino Vieira
(1935), que obteve o Prêmio Camões de 2006. Sua temática principal
é a descrição da nova sociedade angolana nascida da luta pela
independência (1975) e da guerra fratricida que se seguiu entre as
facções do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA),
apoiada pelo regime soviético com a participação direta do governo
cubano, e a União Nacional para a Independência Total de Angola (Unita),
apoiada pelos Estados Unidos com a intermediação da África do Sul,
dentro do contexto da Guerra Fria.
II
Mesmo com a queda do Muro de Berlim em 1989 e a
derrocada do regime soviético, a guerra angolana só teve fim em
2002, depois de ter causado imensos danos ao país, inclusive com
uma diáspora de muitos cidadãos que não tiveram outra saída a não
ser tentar reconstruir a vida em Portugal, Brasil, Estados Unidos,
Canadá, França, Inglaterra e outros países europeus. Mas a Angola
pacificada do século XXI já quase nada tem da colônia portuguesa
de meio século atrás, isolada do mundo.
Aberta a investimentos estrangeiros, é um país que
apresenta grande crescimento econômico, especialmente nas áreas de
diamantes, petróleo e recursos minerais. A grande dificuldade,
porém, está na repartição dessa riqueza à qual não têm acesso
grandes parcelas da população, que vivem em condições
subumanas.
Com esse período de conturbação já superado, a
literatura angolana vive hoje outra fase, depois de ter explorado
à exaustão as vicissitudes de uma sociedade pós-colonial sob o véu
marxista-leninista. Agora, numa etapa em que já não podem atribuir
todos os males ao colonialismo, os angolanos precisam buscar entre
os seus pares os responsáveis pelo atraso econômico e pela
manutenção de tantas diferenças sociais.
Mas, encerrado há tão pouco tempo aquele período, é
claro que os dissabores da guerra ainda estão presentes nestes
contos de João Melo. É o que se pode contatar em “A morte é sempre
pontual” em que o desfecho trágico, embora anunciado, acaba por
surpreender o leitor.
Ou em “O Canivete agora é branco” em que conta o
reencontro que não se deu, 30 anos depois, de um ajudante de
caminhão com seu antigo colega de profissão que, mais esperto,
soube como cavar a vida, filiando-se ao MPLA, o movimento
vitorioso, freqüentando a Universidade Patrick Lumumba, em Moscou,
até virar quadro do partido e do governo para tornar-se
administrador de uma empresa de diamantes e governador provincial.
Metido até o pescoço em negócios escusos, o antigo Canivete
transforma-se em empresário, virando até mesmo “branco”,
sempre acompanhado de seguranças. Quem sabe uma paródia do “homem
invisível” do norte-americano Ralph Ellison (1914-1994).
III
Em “O
escritor”, João Melo, abusando, no bom sentido, da ironia, traça o
perfil de um homem de letras que vivia angustiado à espera do
sucesso que nunca chegava, embora já tivesse escrito quilômetros
de poemas, estórias, teses, ensaios e recensões literárias, além
de construir uma carreira politicamente correta, pelo menos aos
olhos dos vencedores, pois, durante o colonialismo, tivera de
prestar muitas declarações à Pide (a polícia política salazarista)
e, na fase pós-independência, participara da campanha nacional de
alfabetização e das brigadas que foram colher café, sem contar
que, durante a guerra anticolonialista, nunca fugira do país.
Mesmo assim, nunca recebera um prêmio literário. Talvez porque não
fosse nem mestiço nem branco.
Já no conto
que dá título ao livro, João Melo reconstitui a relação de dois
adolescentes que teriam nascido e crescido a mesma época, entre
famílias comuns, aos quais todos davam como certo um
relacionamento seguro e um casamento duradouro: “Crescemos
juntos. Brincámos de médico, professor, engenheiro. Brincámos de
casamento. Brincámos de papá e mamã. Nesse dia, lhe mostrei a
minha pila. Ela disse: “Ih, tão pequenina!” Depois levantou as
saias: as suas cuecas floridas deixaram-me paralisado de
admiração. Quando quis lhe dar um beijo, como aqueles que meu pai
dava na empregada, quando a minha mãe não estava em casa, ela
fugiu. Durante uma semana, não apareceu na minha casa”.
(p.96).
Por aqui se vê
o estilo ágil e moderno de João Melo. E, se o final não se adianta
aqui, é porque ao resenhador não é lícito antecipar os epílogos
dos contos e romances que resenha. Ao final deste livro, há ainda
um glossário indispensável não só ao leitor italiano como ao
lusófono pouco acostumado à história e à geografia de Angola.
Muitas expressões do coloquialismo do português escrito em Angola
ficaram de fora deste glossário, mas o seu significado o leitor
pode intuir a partir do contexto de cada conto.
Como se sabe,
o português na África é uma língua restrita a escritores,
jornalistas, pessoal do governo, professores e alunos, ou seja,
àqueles que a escrevem. Até porque a imensa população é lusógrafa
(para citar aqui uma expressão criada pelo mestre francês
Jean-Michel Massa), não luso-falante. Cada grupo étnico fala a sua
própria língua entre si e sempre que um estranho ao ninho deixa o
recinto. Era isso o que este resenhador percebia quando, na casa
de amigos angolanos, em Oeiras, ausentava-se para ir à casa de
banho.
IV
Jornalista, publicitário e professor, João Melo
estudou Direito na Universidade de Coimbra e em Luanda. Graduou-se
em Comunicação Social e fez mestrado em Comunicação e Cultura no
Rio de Janeiro. Membro-fundador da União dos Escritores Angolanos,
ocupou vários cargos nessa entidade. Atualmente, é diretor de uma
agência de comunicação, além de ensinar numa universidade privada.
É deputado no Assembleia Legislativa angolana.
Representante da “geração das incertezas”, expressão
alcunhada pelo grande crítico angolano Luis Kandjimbo, também
poeta, João Melo começou sua trajetória literária na poesia, nos
anos 1980, tendo lançado oito livros: Definição (1985),
Fabulema (1986), Poemas Angolanos (1989), Tanto Amor
(1989), Canção do Nosso Tempo (1991), O Caçador de
Nuvens (1993), Limites e Redundâncias (1997) e
Auto-Retrato (2007). Como contista, lançou mais três livros:
Imitação de Sartre e Simone de Beauvoir (1998), The
Serial Killer e outros contos risíveis ou talvez não (2000) e
Filhos da Pátria (2001). Na área de ensaios, publicou
Jornalismo e política (1991).
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IL
GIORNO IN CUI PAPERINO SI È FATTO PER LA PRIMA VOLTA PAPERINA E
ALTRI RACCONTI (O DIA EM QUE O PATO DONALD COMEU PELA PRIMEIRA VEZ
A MARGARIDA),
de João
Melo. Tradução de Marco Bucaioni. Perugia: Morlacchi Editore, 205
págs., 2009.
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Adelto Gonçalves
Doutor em Literatura Portuguesa pela
Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do
Iluminismo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999), Barcelona
Brasileira (Lisboa: Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher
Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa: Editorial
Caminho, 2003).
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