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Sou seu admirador sincero desde que se
lançou na campanha eleitoral e, neste canto europeu, comecei a ler
e a ouvir falar de si. Admiro o seu humanismo, a sua cultura, a
sua coragem e o seu estilo. Não sou crente como o Presidente. Sou
agnóstico e tenho alguma experiência de vida política. Mas disse a
muitos amigos – e escrevi - que a sua vitória eleitoral constituiu
um autêntico milagre na América e para o Mundo. Embora não
acredite em milagres...
Sei que uma vez Presidente lhe caiu o
peso do Mundo em cima. Literalmente. Fez discursos inovadores e
notabilíssimos que contribuíram para mudar a imagem da América no
Mundo e nomeadamente na Europa. Deu um novo impulso às Nações
Unidas, completamente marginalizadas, no tempo do seu antecessor,
compreendendo que o Mundo é demasiado vasto e diferenciado para
poder ser governado por uma única hiperpotência. Abriu, nesse
sentido, a porta a um Mundo multilateral, de diálogo e de paz.
Estendeu, com muita inteligência, a mão
ao universo islâmico, no discurso do Cairo. Falou, directamente,
com russos e chineses, preocupado com a paz mundial e a crise
global, que nos atinge a todos. Dirigiu-se aos africanos,
prometendo ajudá-los e aos seus vizinhos do sul, ibero-americanos,
nomeadamente a Cuba. E tem vindo a suportar, com determinação e
coragem, os seus agressivos adversários no plano interno,
republicanos e alguns democratas e os lobbies de interesses
egoístas, que proliferam nos Estados Unidos e tanto os prejudicam.
A vitória que teve, assim, relativamente à reforma dos serviços de
saúde, ainda que com algumas concessões, representou um marco
histórico e um exemplo.
Por tudo isto, aplaudi com entusiasmo o
júri do Nobel que lhe conferiu o Prémio. Apesar de alguns,
inevitáveis protestos, foi muito justo e bem escolhido. Ninguém,
neste annus horribilis de 2009 o mereceria mais.
No entanto, houve duas actuações suas
que não apreciei, de nenhum modo. A primeira, de enviar mais 30
mil soldados americanos para o Afeganistão que, permita que lho
diga, com franqueza, é uma guerra perdida, como a do Iraque ou
talvez pior. Sei que a invasão do Afeganistão teve o aval das
Nações Unidas – logo a seguir ao terrível choque dos atentados
contra as torres gémeas de Nova Iorque e do Pentágono, em
Washington – e na qual o seu antecessor envolveu a NATO. O que só
desacreditou essa organização defensiva, do tempo da “guerra
fria”, que se tornou, desde então, ofensiva, operando, ainda por
cima, fora da sua área normal de actuação. Um erro fatal. De “realpolitik”,
julgo, que lhe vai sair caro.
O segundo motivo de desagrado foi a
maneira como o Senhor Presidente se comportou na frustrada Cimeira
de Copenhaga. Passou por cima das Nações Unidas, ignorou a União
Europeia, como um todo, onde conta aliados – e uma opinião pública
que lhe é, na sua maioria, entusiasticamente fiel – embora muitos
dos seus governantes só o apoiem em palavras - e entendeu-se,
fundamentalmente, com a China, que não aceita ser fiscalizada et
pour cause, chamando alguns outros Estados entre os quais o Brasil
(e ficámos encantados, nós portugueses) talvez não só para animar
a fotografia... O seu discurso, permita-me que lhe diga, Senhor
Presidente, foi dos mais apagados e tristes, que fez até hoje. Só
fixei uma frase: “Não vim aqui para falar mas para agir”. É isso
mesmo. Em matéria ambiental, o tempo urge e é preciso agir.
Precisamos de lutar contra os atentados humanos e egoístas que
ameaçam o nosso Planeta. Para que a Humanidade possa sobreviver.
Há algum motivo mais importante e urgente do que esse?
Esperemos que na Cimeira marcada para o
final do ano de 2010, no México, se possam dar passos decisivos,
quer a China queira quer não.
Quanto ao resto, permita-me uma última
nota. Como português, sinto-me também ibérico e europeu. É algo
que um americano tem dificuldade em compreender. Mas saiba que sou
federalista, partidário, como Jean Monnet, dos Estados Unidos da
Europa. Estou preocupado com o sub-continente americano, que foi
capaz de expulsar os ditadores militares, formados na escola de
Chicago. Hoje, quase todos, são, ou tentam ser, democracias. A
Ibero-América é um sub-Continente riquíssimo, em recursos
naturais, com elites culturais, científicas e técnicas de
indiscutível valor. Tradicionalmente 2 desconfiados do poderoso
vizinho do norte – e com sólidas razões para isso – caiu-lhes bem
as primeiras mensagens que o Senhor Presidente lhes dirigiu. A mão
que estendeu a Cuba, em especial.
Ora, Cuba está a passar – com a crise
global e por razões também estruturais – um momento dramático,
dificílimo. Aquele tão dinâmico e alegre Povo está a sentir-se
asfixiado, como deduzo de um discurso recente que ouvi ao
Presidente Raul Castro. O Senhor Presidente – desculpe dizê-lo com
tanto atrevimento - podia com um gesto unilateral acabar com o
bloqueio, que só tem inconvenientes para todos. O Mundo iria,
seguramente, aplaudir. E renovava a esperança no que o Senhor
Presidente representa e pode fazer, não só pelo Povo Americano,
que é o seu, mas pelos Povos do Mundo.
Com os melhores votos de Bom Ano, sou seu admirador.
Mário Soares
Ex-presidente da República de
Portugal entre 1986 e 1996. Artigo escrito em Lisboa, Dezembro de
2009
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