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A recente tragédia humanitária que teve
lugar no Haiti veio permitir aos portugueses, mesmo aos menos
atentos, a possibilidade de poderem perceber como é cínica e
malandra a atitude da generalidade dos países mais ricos e
poderosos do nosso Mundo.
Se o meu caro leitor tiver algum interesse em conhecer como surgiu
este Estado falhado da nossa Comunidade Internacional, pois,
basta-lhe deitar mão de um motor de busca da INTERNET, como seja,
por exemplo, o Google, porque de imediato encontrará uma vasta
informação sobre o tema e a história do país. Por esta razão, não
me deterei aqui a tratá-lo.
Vale a pena, porém, chamar a atenção do
meu caro leitor sobre a realidade que subjaz ao que se pode agora
observar pelas imagens que nos vão chegando, pressentindo todos
nós o que poderá vir a ser o futuro daquele lugar e da sua
população.
O Haiti, como tantos outros Estados do
nosso tempo, criados ao redor do surgimento das Nações Unidas, é
um autêntico Estado falhado. Tendo começado por ser uma colónia
francesa, povoado pelos escravos para ali levados pela França,
acabou por ser guindado à condição de Estado apregoadamente
independente.
Como nos restantes casos, tudo acabou
por ser subvertido a partir do abuso, mais que expectável, de uns
quantos, mas sempre com a mais cabal e criminosa complacência das
grandes potências da tal Comunidade Internacional. No fundo,
aquela população acabou sempre por ser tomada, e assim mantida
pelo desprezo, como uma gentalha sem interesse.
No período imediatamente anterior a este
sismo de grau muito elevado a situação estava muitíssimo longe de
ser boa, razão por que ali se mantinha um contingente vasto de
tropas das Nações Unidas. Em todo o caso, a situação, a um nível
muito baixo, lá ia funcionando numa espécie de regime
estacionário.
O terrível resultado deste grande sismo
é, em essência, uma consequência do estado de exploração, abandono
e miséria a que toda aquela população realmente foi votada pelos
poderosos da Comunidade Internacional.
Se as cidades afetadas fossem
constituídas por edifícios pequenos, construídos, pensadamente,
por materiais locais, como a madeira e a terra, armada ou não,
pois, as consequências teriam sido incomensuravelmente menores.
Ao deitar-se mão de edifícios de betão
armado, nalguns casos com vários andares, mas sempre mal
dimensionadas e sem controlo da respetiva qualidade construtiva, o
resultado foi o que se pode ir vendo a cada dia que passa.
Logo no dia seguinte à tragédia,
conversando com a família, tive a oportunidade de salientar que a
resolução de uma tal situação levaria entre cinco e dez anos, mais
próximo deste segundo valor. E pressuporia a criação de uma
força-tarefa, essencialmente norte-americana, com o consentimento
do atual Governo em tais condições.
Essa força-tarefa teria de repensar toda
a estrutura organizativa do Haiti, para tal deitando mão do apoio
e ensinamentos do que reste do Governo vigente, mas também das
Igrejas ali presentes, integrando a força humana disponível em
grupos de trabalho ligados à aplicação dos planos que venham a ser
decididos para o país.
Fala-se agora num Plano Marshall, que é,
no fundo, o que eu referi na conversa que tive com a família
durante o jantar do dia seguinte ao da tragédia. Simplesmente, é
bom que nos não deixemos ficar pelo nome, e pela ideia que temos
do que lhe esteve ligado, porque tal iniciativa pressupõe a
existência de um plano para o país e de uma força com capacidade
de comando e controlo na execução do mesmo. As verbas, neste caso,
terão duas origens: ofertas e empréstimos, estes ligados, acima de
tudo, ao lançamento de estruturas produtivas que permitam uma
autosustentação do país no seu futuro e a médio prazo.
Desta tragédia pode muito bem retirar-se
uma já velha lição, infelizmente sempre esquecida: o que é barato
sai caro. E se não houver agora uma mão firme e ideias claras para
o Haiti devastado, esse custo pode muito bem vir a tornar-se
incomensuravelmente mais caro ainda. O que agora se pode ver ao
dia-a-dia deve-se ao terrível sismo que teve lugar, mas, acima de
tudo, ao desprezo a que o Haiti e o seu povo foram votados. Casos
muito frequentes, com ou sem sismo.
Hélio Bernardo Lopes
De Portugal
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