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Por Hélio Bernardo Lopes


Sexta - feira | 29 JAN 10

“O Haiti”

A recente tragédia humanitária que teve lugar no Haiti veio permitir aos portugueses, mesmo aos menos atentos, a possibilidade de poderem perceber como é cínica e malandra a atitude da generalidade dos países mais ricos e poderosos do nosso Mundo.
Se o meu caro leitor tiver algum interesse em conhecer como surgiu este Estado falhado da nossa Comunidade Internacional, pois, basta-lhe deitar mão de um motor de busca da INTERNET, como seja, por exemplo, o Google, porque de imediato encontrará uma vasta informação sobre o tema e a história do país. Por esta razão, não me deterei aqui a tratá-lo.

Vale a pena, porém, chamar a atenção do meu caro leitor sobre a realidade que subjaz ao que se pode agora observar pelas imagens que nos vão chegando, pressentindo todos nós o que poderá vir a ser o futuro daquele lugar e da sua população.

O Haiti, como tantos outros Estados do nosso tempo, criados ao redor do surgimento das Nações Unidas, é um autêntico Estado falhado. Tendo começado por ser uma colónia francesa, povoado pelos escravos para ali levados pela França, acabou por ser guindado à condição de Estado apregoadamente independente.

Como nos restantes casos, tudo acabou por ser subvertido a partir do abuso, mais que expectável, de uns quantos, mas sempre com a mais cabal e criminosa complacência das grandes potências da tal Comunidade Internacional. No fundo, aquela população acabou sempre por ser tomada, e assim mantida pelo desprezo, como uma gentalha sem interesse.

No período imediatamente anterior a este sismo de grau muito elevado a situação estava muitíssimo longe de ser boa, razão por que ali se mantinha um contingente vasto de tropas das Nações Unidas. Em todo o caso, a situação, a um nível muito baixo, lá ia funcionando numa espécie de regime estacionário.

O terrível resultado deste grande sismo é, em essência, uma consequência do estado de exploração, abandono e miséria a que toda aquela população realmente foi votada pelos poderosos da Comunidade Internacional.

Se as cidades afetadas fossem constituídas por edifícios pequenos, construídos, pensadamente, por materiais locais, como a madeira e a terra, armada ou não, pois, as consequências teriam sido incomensuravelmente menores.

Ao deitar-se mão de edifícios de betão armado, nalguns casos com vários andares, mas sempre mal dimensionadas e sem controlo da respetiva qualidade construtiva, o resultado foi o que se pode ir vendo a cada dia que passa.

Logo no dia seguinte à tragédia, conversando com a família, tive a oportunidade de salientar que a resolução de uma tal situação levaria entre cinco e dez anos, mais próximo deste segundo valor. E pressuporia a criação de uma força-tarefa, essencialmente norte-americana, com o consentimento do atual Governo em tais condições.

Essa força-tarefa teria de repensar toda a estrutura organizativa do Haiti, para tal deitando mão do apoio e ensinamentos do que reste do Governo vigente, mas também das Igrejas ali presentes, integrando a força humana disponível em grupos de trabalho ligados à aplicação dos planos que venham a ser decididos para o país.

Fala-se agora num Plano Marshall, que é, no fundo, o que eu referi na conversa que tive com a família durante o jantar do dia seguinte ao da tragédia. Simplesmente, é bom que nos não deixemos ficar pelo nome, e pela ideia que temos do que lhe esteve ligado, porque tal iniciativa pressupõe a existência de um plano para o país e de uma força com capacidade de comando e controlo na execução do mesmo. As verbas, neste caso, terão duas origens: ofertas e empréstimos, estes ligados, acima de tudo, ao lançamento de estruturas produtivas que permitam uma autosustentação do país no seu futuro e a médio prazo.

Desta tragédia pode muito bem retirar-se uma já velha lição, infelizmente sempre esquecida: o que é barato sai caro. E se não houver agora uma mão firme e ideias claras para o Haiti devastado, esse custo pode muito bem vir a tornar-se incomensuravelmente mais caro ainda. O que agora se pode ver ao dia-a-dia deve-se ao terrível sismo que teve lugar, mas, acima de tudo, ao desprezo a que o Haiti e o seu povo foram votados. Casos muito frequentes, com ou sem sismo.

Hélio Bernardo Lopes

De Portugal


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