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Por Hélio Bernardo Lopes


Quinta - feira | 28 JAN 10

“Marcas que se mantêm”

Há já uns anos, tive a oportunidade de ler a autobiografia de Aníbal Cavaco Silva, publicada em dois volumes, onde o atual Presidente da República falava de si e da sua experiência governativa de cerca de uma década.

A dado passo encontrei uma história que viveu quando era ainda estudante, mas já em Lisboa. Dirigindo-se para o seu instituto, fê-lo pendurado na porta trazeira de um elétrico. Quem sabe se não se tratava de um dos que serviam a carreira que ia dos Pazeres à rua de Conceição.

Conta ali Cavaco Silva que certo agente da PSP, sem dúvida exagerando na sua preocupação de fazer cumprir a lei, o deteve e o levou para a esquadra que se situava junto da Emissora Nacional.

Pois, Aníbal Cavaco Silva aí ficou durante horas, retendo a minha memória que sem almoçar nem lanchar. Seja como for, ficou longas horas sem comer, porventura, para nada, porque eram milhares os que faziam o que ele fez, por vezes, até por mero divertimento. Eu era, precisamente, um desses: fazia aquilo mesmo por necessidade e por espírito de desafio, com a sorte sempre do meu lado.

Achei, porém, estranho - tinha razão - que o antigo Primeiro-Ministro achasse injusta uma tal situação, sobretudo, depois de já ter desempenhado aquela função, porque se alguém for hoje detido aí pelas cinco da tarde e levado para uma esquadra, e daí conduzido, após as naturais e pesadas formalidades, para um qualquer reduto prisional, aonde chegue após a hora do jantar, já só comerá qualquer coisa na manhã seguinte. E isto à luz de uma hipótese otimista.

Pois, eis que os anos passaram, com a tal nossa dita democracia já muito bem consolidada, e se vem agora a saber por um jornal a notícia, até agora nunca desmentida, de que em certas instalações da PSP do Porto terão estado - estarão ainda? - uma dúzia de homens detidos, no mínimo, dez dias, sem chuveiro e, por isso, sem poderem tomar banho.

Haverá de convir-se que, sendo a notícia verdadeira - não se percebe uma razão para que o não seja, sendo traficantes de droga e nunca tendo sido desmentida -, tudo isto é incomensuravelmente pior do que o que se passou com Aníbal Cavaco Silva naquele seu tempo de juventude.

É claro que era proibido andar nos transportes públicos pendurado, ou entrar ou sair com os mesmos em andamento, embora só alguém zeloso da PSP se preocupasse com tal hábito desde sempre presente no seio da sociedade portuguesa.

O que esta notícia recente mostra, tomando-a por verdadeira, é que se pode ir hoje muito mais longe do que a situação vivida por Cavaco Silva e que tão fortemente critica como uma má imagem do que eram os tempos de Salazar e do Estado Novo. E isto numa (dita) democracia. São marcas que se mantêm.

Hélio Bernardo Lopes

De Portugal


 

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