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No início deste novo ano, saúdo todos os
Portugueses, onde quer que se encontrem, e desejo-lhes as maiores
felicidades para 2010. Há precisamente um ano, quando falei ao
País, referi que 2009 iria ser um ano muito difícil. Acrescentei,
na altura, que receava o agravamento do desemprego e o aumento do
risco de pobreza e exclusão social. E disse também que Portugal
gastava em cada ano muito mais do que aquilo que produzia.
Quando proferi estas palavras, não o fiz
com um propósito político. Enquanto Presidente da República estou
acima do combate político e partidário. Falo aos Portugueses
quando entendo que o interesse do País o justifica e faço-o sempre
com um imperativo: nunca vender ilusões nem esconder a realidade
do País.
Em nome da verdade, tenho a obrigação de
alertar os Portugueses para a situação difícil em que o País se
encontra e para os desafios que colectivamente enfrentamos.
Ao longo do último ano, o desemprego subiu acentuadamente,
atingindo, no terceiro trimestre, 548 mil pessoas. Quase 20% dos
jovens estavam desempregados.
A todos aqueles que, no último ano, perderam o seu emprego ou não
conseguiram retomar uma actividade profissional, quero deixar uma
palavra de conforto, mas também de esperança. Não percam a
coragem.
Mas o desemprego não é o único motivo de
preocupação. A dívida do Estado tem vindo a crescer a ritmo
acentuado e aproxima-se de um nível perigoso. O endividamento do
País ao estrangeiro tem vindo a aumentar de forma muito rápida,
atingindo já níveis preocupantes.
Acresce que o tempo das taxas de juro
baixas não demorará muito a chegar ao fim. Se o desequilíbrio das
nossas contas externas continuar ao ritmo dos últimos anos, o
nosso futuro, o futuro dos nossos filhos, ficará seriamente
hipotecado.
Quando gastamos mais do que produzimos, há sempre um momento em
que alguém tem de pagar a factura. Com este aumento da dívida
externa e do desemprego, a que se junta o desequilíbrio das contas
públicas, podemos caminhar para uma situação explosiva.
Portugal tem de juntar todas as suas
forças para inverter esta situação. Não podemos continuar a ser
ultrapassados, em termos de nível de desenvolvimento, por outros
países da União Europeia.
De acordo com os indicadores mais
recentes, Portugal já baixou para a 19ª posição, estando apenas à
frente de oito países da Europa de Leste que aderiram há poucos
anos à União.
Tempos difíceis são tempos de maior
exigência e de elevada responsabilidade. Para todos, é certo, mas
ainda de maior exigência e responsabilidade para os detentores de
cargos públicos.
O exemplo deve vir de cima. O País real,
que quer trabalhar, que quer uma vida melhor, espera que os
agentes políticos deixem de lado as querelas artificiais, que em
nada resolvem os verdadeiros problemas das pessoas. É tempo de nos
concentrarmos naquilo que é essencial, com destaque para o combate
ao desemprego. Não é tempo de inventarmos desculpas para deixarmos
de fazer o que deve ser feito.
Estamos perante uma das encruzilhadas
mais decisivas da nossa história recente. É por isso que, em
consciência, não posso ficar calado. Em face da gravidade da
situação, é preciso fazer escolhas, temos de estabelecer com
clareza as nossas prioridades. Os dinheiros públicos não chegam
para tudo e não nos podemos dar ao luxo de os desperdiçar.
Recordo o que tenho vindo
insistentemente a defender. Nas circunstâncias actuais, considero
que o caminho do nosso futuro tem de assentar em duas prioridades
fundamentais. Por um lado, o reforço da competitividade externa
das nossas empresas e o aumento da produção de bens e serviços que
concorrem com a produção estrangeira. Por outro lado, o apoio
social aos mais vulneráveis e desprotegidos e às vítimas da crise.
É uma ficção pensar que é possível conseguir uma melhoria
duradoura do nível de vida dos portugueses sem o aumento da
produtividade e da competitividade da nossa economia. O reforço da
competitividade depende, desde logo, da confiança e da
credibilidade das nossas instituições, nomeadamente do sistema de
justiça e da Administração Pública.
Devemos apostar, por outro lado, em
políticas públicas que promovam uma educação exigente e uma
formação profissional de qualidade, que fomentem a inovação, que
incentivem os investimentos das empresas no sector dos bens e
serviços que concorrem com a produção externa. Cerca de 95% das
nossas empresas têm menos de vinte trabalhadores. Sendo esta a
estrutura do nosso tecido produtivo, o contributo das pequenas e
médias empresas é decisivo para a redução do desemprego e para o
desenvolvimento do País.
Às instituições financeiras, por seu
lado, exige-se que apoiem de forma adequada o fortalecimento da
capacidade das pequenas e médias empresas para enfrentarem a
concorrência externa. Se o Estado tem a responsabilidade de
garantir a estabilidade do sistema financeiro em períodos de
turbulência, os bancos têm a responsabilidade social de garantir
que o crédito chega às empresas.
Nos últimos tempos, temos ouvido muitos
apelos para que o Presidente da República intervenha activamente
na vida política. No entanto, na lógica do nosso sistema
constitucional, não compete ao Presidente da República intervir
naquilo que é o domínio exclusivo do Governo ou naquilo que é a
actividade própria da oposição. Portugal dispõe de um Governo com
todas as condições de legitimidade para governar, um Governo
assente numa maioria relativa conquistada em eleições ainda há
pouco realizadas.
O novo quadro parlamentar, aliado à
grave situação económica e social que o País vive, exige especial
capacidade para promover entendimentos da parte de quem governa, a
que deve corresponder, por parte da oposição, uma atitude de
diálogo e uma cultura de responsabilidade.
Os Portugueses compreenderiam mal que os
diversos líderes políticos não se concentrassem na resolução dos
problemas das pessoas e que não empenhassem o máximo do seu
esforço na realização de entendimentos interpartidários. Neste
contexto, a difícil situação das nossas contas públicas lança um
desafio de regime aos partidos representados no Parlamento. Os
custos da correcção de um desequilíbrio das finanças públicas
podem ser dramáticos, como o demonstram os exemplos de outros
países da União Europeia. Importa ter presente que Portugal tem já
um nível de despesa pública e de impostos que é desproporcionado
face ao seu nível de desenvolvimento. Assim, seria absolutamente
desejável que os partidos políticos desenvolvessem uma negociação
séria e chegassem a um entendimento sobre um plano credível para o
médio prazo, de modo a colocar o défice do sector público e a
dívida pública numa trajectória de sustentabilidade.
O Orçamento do Estado para 2010 é o
momento adequado para essa concertação política, que, com sentido
de responsabilidade de todas as partes, sirva o interesse
nacional. Não devemos esperar que sejam os outros a impor a
resolução dos nossos problemas.
Portugueses,
Neste ano de 2010, iremos celebrar o centenário da República.
Vamos fazê-lo numa conjuntura que é de grandes dificuldades. Mas,
precisamente por isso, temos de perceber que a nossa crise não é
apenas económica.
É, também, uma crise de valores. Há que
recuperar o valor da família. O esbatimento dos laços familiares
tem sido um dos factores que mais contribuem para agravar as
dificuldades que muitos atravessam.
Devemos também valorizar a prática do
valor da ética republicana. A ética nos negócios, nos mercados e
na vida empresarial, mas também na vida pública, tem de ser um
princípio de conduta para todos.
Temos também de restaurar o valor da
confiança nas instituições e na justiça. Os Portugueses têm de
acreditar que existe justiça no seu País, que ninguém está acima
da lei. Sei que a grande maioria dos magistrados se empenha, séria
e discretamente, em fazer bem o seu trabalho.
Neste primeiro dia do ano, importa
reafirmar o valor da esperança. Repito aos Portugueses o que lhes
disse há precisamente um ano: não tenham medo. Possuímos uma longa
História de que nos orgulhamos, porque no passado não tivemos
medo. E aqui estamos hoje, um Estado democrático que faz parte de
uma Europa Unida. Aqui estamos hoje, em 2010, porque acreditámos
em nós próprios e num destino chamado futuro. Em nome desse
futuro, temos de continuar a lutar.
O combate que travamos por Portugal é
feito em nosso nome e em nome dos nossos filhos. Eu acredito em
Portugal. Por isso, continuarei a lutar pelo futuro desta nossa
terra. No meio de tantas incertezas, os Portugueses podem ter uma
certeza: pela minha parte, não desistirei e nunca me afastarei dos
meus deveres e dos meus compromissos. A todos, um Bom Ano de 2010.
Aníbal Cavaco Silva
Presidente da República de Portugal
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