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Nos anos cinquenta era
menino e andava no liceu. Nessa recuada época as famílias da
classe média eram, em regra, numerosas
O pai trabalhava no
escritório ou tinha profissão liberal; a mãe era dona de casa. Ser
dona de casa, à moda antiga, não era fácil. A mulher além de
cuidar do meneio do lar, tinha por missão ser mãe; e ser mãe,
nesse tempo, não era apenas gerá-los, mas educá-los, acompanhá-los
nos estudos, vigiá-los, para não descambarem nos abismos do mundo.
Cabia a ela preparar as
refeições, ir à praça, tratar da roupa e realizar ligeiros acertos
no vestuário.
Nesse tempo pontificava
em Lisboa Salazar, homem do povo, filho de humilde trabalhador
rural, que nascera no século XlX e conservava mentalidade dessa
época.
Verdade era que a
mulher, uma vez casada, raramente se separava. Os filhos, a crença
que professava, eram impedimentos para o divórcio, que nem sonhar
queria.
O marido, como agora,
nem sempre lhe era fiel, mas ela sabia contornar o desacerto.
Se era professora ou
exercia profissão considerada respeitável, em regra, prosseguia
após o casamento, muitas vezes contra a vontade do conjugue, que
se sentia diminuído, mormente se o vencimento não bastava para
socorrer as despesas domésticas.
Nesse tempo, o homem,
quando se casava, envergonhava-se de precisar do ordenado da
esposa. Ele era responsável por angariar o necessário: ela,
entesourar e criar pé-de-meia.
Em conversa travada
entre Salazar e a jornalista Christine Garnier, o estadista,
afirma: “ Continuo a dizer que não há boas donas de casa,
que não tenham muito que fazer em casas, quanto mais não seja na
preparação das refeições e arranjo das roupas. A ausência da
mulher desequilibra a economia doméstica e a perda de dinheiro que
daí resulta raramente é compensado pelos ganhos exteriores.”
Estas palavras foram
proferidas pelo estadista nos anos quarenta. Nessa década, após
guerra, ainda cabia à mulher a nobre missão de cuidar dos idosos
da família.
Só quem não tinha filhos
ou parentes próximos agasalhava-se em asilos. Com a emancipação da
mulher e a precisão de haver dois salários para manter o lar, é
que o problema dos idosos se agravou, ao ponto do destino de todos
ser, mais cedo ou mais tarde, o repouso de um lar. Conforto que
depende dos rendimentos.
Foi essa mudança da
sociedade que veio levantar, entre outros, o problema dos velhos,
principalmente dos idosos enfermos.
Previu isso Salazar e
advertiu que a mulher casada saindo do lar, havia segundo a lei da
oferta e procura, forçosamente contribuir para a descida dos
salários; e desabafa, a certo momento da conversa, com a
jornalista francesa: “ Que hei-de eu fazer em Portugal?
Reconheço que os meus esforços para reconduzir a mulher às antigas
formas de viver são quase todas vãos! “
Estas confissões de
Salazar, estão para a mentalidade do homem do século XXl,
completamente desactualizadas, mas na época eram compreendidas
pela maioria da população.
Há três anos
implantou-se em Portugal, serviço de apoio hoteleiro e
domiciliário, aos idosos, independente dos rendimentos. Chegou
tardio. Em Espanha já tem vinte anos! Mas melhor é tarde do que
nunca.
A sociedade mudou e
mudou o modo de pensar, mormente dos jovens, sendo portanto
urgente substituir o papel da mulher, dona de casa, por apoio
estatal. Digo urgente, porque Portugal, dentro de pouco tempo,
será um País de velhos, pela decadência da natalidade e sangria da
emigração.
Humberto Pinho da
Silva
Humbertopinhosilva@sapo.pt
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