>> OPINIÃO ARTIGOS

 

Bookmark and Share 

AUMENTAR FONTE

F

F

F

F

Por Humberto Pinho da Silva


Domingo | 20 DEZ 09

“Ainda bem que se começa a cuidar dos Idosos”

Nos anos cinquenta era menino e andava no liceu. Nessa recuada época as famílias da classe média eram, em regra, numerosas

O pai trabalhava no escritório ou tinha profissão liberal; a mãe era dona de casa. Ser dona de casa, à moda antiga, não era fácil. A mulher além de cuidar do meneio do lar, tinha por missão ser mãe; e ser mãe, nesse tempo, não era apenas gerá-los, mas educá-los, acompanhá-los nos estudos, vigiá-los, para não descambarem nos abismos do mundo.

Cabia a ela preparar as refeições, ir à praça, tratar da roupa e realizar ligeiros acertos no vestuário.

Nesse tempo pontificava em Lisboa Salazar, homem do povo, filho de humilde trabalhador rural, que nascera no século XlX e conservava mentalidade dessa época.

Verdade era que a mulher, uma vez casada, raramente se separava. Os filhos, a crença que professava, eram impedimentos para o divórcio, que nem sonhar queria.

O marido, como agora, nem sempre lhe era fiel, mas ela sabia contornar o desacerto.

Se era professora ou exercia profissão considerada respeitável, em regra, prosseguia após o casamento, muitas vezes contra a vontade do conjugue, que se sentia diminuído, mormente se o vencimento não bastava para socorrer as despesas domésticas.

Nesse tempo, o homem, quando se casava, envergonhava-se de precisar do ordenado da esposa. Ele era responsável por angariar o necessário: ela, entesourar e criar pé-de-meia.

Em conversa travada entre Salazar e a jornalista Christine Garnier, o estadista, afirma: “ Continuo a dizer que não há boas donas de casa, que não tenham muito que fazer em casas, quanto mais não seja na preparação das refeições e arranjo das roupas. A ausência da mulher desequilibra a economia doméstica e a perda de dinheiro que daí resulta raramente é compensado pelos ganhos exteriores.”

Estas palavras foram proferidas pelo estadista nos anos quarenta. Nessa década, após guerra, ainda cabia à mulher a nobre missão de cuidar dos idosos da família.

Só quem não tinha filhos ou parentes próximos agasalhava-se em asilos. Com a emancipação da mulher e a precisão de haver dois salários para manter o lar, é que o problema dos idosos se agravou, ao ponto do destino de todos ser, mais cedo ou mais tarde, o repouso de um lar. Conforto que depende dos rendimentos.

Foi essa mudança da sociedade que veio levantar, entre outros, o problema dos velhos, principalmente dos idosos enfermos.

Previu isso Salazar e advertiu que a mulher casada saindo do lar, havia segundo a lei da oferta e procura, forçosamente contribuir para a descida dos salários; e desabafa, a certo momento da conversa, com a jornalista francesa: “ Que hei-de eu fazer em Portugal? Reconheço que os meus esforços para reconduzir a mulher às antigas formas de viver são quase todas vãos! “

Estas confissões de Salazar, estão para a mentalidade do homem do século XXl, completamente desactualizadas, mas na época eram compreendidas pela maioria da população.

Há três anos implantou-se em Portugal, serviço de apoio hoteleiro e domiciliário, aos idosos, independente dos rendimentos. Chegou tardio. Em Espanha já tem vinte anos! Mas melhor é tarde do que nunca.

A sociedade mudou e mudou o modo de pensar, mormente dos jovens, sendo portanto urgente substituir o papel da mulher, dona de casa, por apoio estatal. Digo urgente, porque Portugal, dentro de pouco tempo, será um País de velhos, pela decadência da natalidade e sangria da emigração.

Humberto Pinho da Silva

Humbertopinhosilva@sapo.pt


 

© 2003-2008 Jornal Mundo Lusíada - Todos os direitos reservados.

Artigos assinados não exprimem propriamente a opinião do Mundo Lusíada Online.
Colunas e textos de opinião com assinatura são de responsabilidade de seus autores.