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A 15ª Conferência das Nações Unidas
sobre Mudança do Clima, que termina esta semana em Copenhague, é
daqueles momentos em que a História nos desafia ao máximo. A crise
do aquecimento global exige respostas firmes, conjuntas e
consequentes, por parte de todos os países e governos. Limitar o
aumento da temperatura neste século a no máximo 2°C, reduzindo as
emissões de gases que provocam efeito estufa, é um objetivo
possível e necessário. Para alcançá-lo, temos de firmar um
compromisso urgente dos países industrializados, sem exceções, com
a redução de suas próprias emissões e com a garantia do
financiamento às ações necessárias nos países em desenvolvimento.
Deter o aquecimento global é uma
responsabilidade comum, mas diferenciada em relação ao papel de
cada país ou grupo de países, além de estar vinculada às
realidades específicas de desenvolvimento econômico e social de
cada um. Não se podem cobrar sacrifícios iguais de quem participou
desigualmente do processo de desenvolvimento industrial e
acumulação de riqueza ao longo de séculos. Copenhague será um
avanço se os países que acumularam riqueza, historicamente, à
custa da degradação ambiental, colocarem na mesa metas de redução
de emissões. Números robustos, à altura do desafio comum e da
dívida acumulada com o planeta.
Coerentemente, a Convenção-Quadro das
Nações Unidas sobre Mudança do Clima estabeleceu que os países
industrializados devem adotar metas absolutas de redução para o
conjunto de suas economias. E os países em desenvolvimento devem
definir ações voluntárias em setores por eles determinados, em
intensidade mensurável. Espera-se que até 2020 os países mais
ricos reduzam suas emissões de CO2 em 40% em relação ao ano de
1990, que respeitem o Protocolo de Kyoto e que mantenham um fundo
público permanente para financiar ações de mitigação e adaptação
nos países em desenvolvimento. Estes países precisam ser apoiados
para ter oportunidade de crescer e a tender suas demandas sociais,
sem agravar a situação ambiental.
Graças às ações que adotamos
internamente e à persistência com que conclamamos os demais países
a um esforço compartilhado de controle do clima, o Brasil deixou
de ser parte do problema do aquecimento global para se tornar
respeitado como impulsionador de soluções negociadas. Temos a
matriz energética mais limpa e renovável entre as maiores
economias do mundo. Usinas hidrelétricas, biocombustíveis e outras
fontes renováveis respondem por 45,9% de toda a energia consumida
no Brasil. A média mundial é de 87,1% de utilização de fontes
fósseis, como petróleo e carvão, contra 12,9% de fontes
renováveis. Nos países da OCDE, a média piora para 93,7% de fontes
fósseis, que agravam o efeito estufa.
Nossa matriz energética limpa não caiu
do céu. É o resultado do esforço de gerações na construção de
usinas hidrelétricas e na produção de combustíveis renováveis.
Fontes hídricas garantem 86% da geração de eletricidade no Brasil.
Nos últimos 30 anos, a utilização de etanol combustível, anidro ou
hidratado, evitou a emissão de mais de 850 milhões de toneladas de
CO2 à atmosfera.
O governo do presidente Lula valorizou e
ampliou esse patrimônio nacional. Com a entrada em operação de
novas usinas, acrescentamos 22 mil megawatts à oferta de energia
hidrelétrica, entre 2005 e 2008. E contratamos mais 6.874
megawatts gerados por fontes alternativas, especialmente biomassa,
o que corresponde à capacidade de geração de meia Itaipu. Criamos
o Programa do Biodiesel e obrigamos, por lei, a adição do óleo
vegetal ao diesel consumido no país. Incentivamos a produção dos
automóveis com motores flex - que já são 94% dos carros vendidos
hoje no País.
O Brasil, além do mais, acaba de dar a
mais vigorosa resposta ao desafio de reduzir e conter o histórico
processo de desmatamento da Amazônia - maior fonte de emissão de
CO2 em nosso território. A área de floresta derrubada caiu de
cerca de 28 mil quilômetros quadrados em 2004, para 7 mil
quilômetros quadrados em 2009. É o melhor resultado desde 1988,
quando o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) começou a
mensurar o desmatamento. O resultado deste ano confirma a
sequência de reduções consistentes, iniciada em 2005. É o fruto da
vigilância permanente, da repressão ao comércio ilegal de madeira
e de políticas que valorizam a preservação da floresta.
O Brasil está no grupo de países dos
quais se esperam ações voluntárias para mitigar a emissão de
poluentes, mas não estão obrigados a fixar metas de redução. Nós
decidimos ir além disso e apresentamos, em novembro último, a meta
de reduzir as emissões em nosso país, entre 36,1% e 38,9%, até
2020. Vamos deixar de emitir cerca de 1 bilhão de toneladas de CO2
equivalente (t CO2 eq), cumprindo um programa de ações voluntárias
assim definido:
- Reduzir em 80% o desmatamento na Amazônia e em 40%, no cerrado
(corte de 669 milhões t CO2 eq).
- Adotar intensivamente na agricultura a recuperação de pastagens,
integração agricultura-pecuária, plantio direto na palha e fixação
biológica de nitrogênio (corte de 133 a 166 milhões t CO2 eq).
- Ampliar a eficiência energética, o uso de biocombustíveis, a
oferta de hidrelétricas e fontes alternativas como biomassa,
eólicas, pequenas centrais hidrelétricas, e o uso de carvão de
florestas plantadas na siderurgia (corte de 174 a 217 milhões t
CO2 eq).
A iniciativa brasileira reanimou as
expectativas de sucesso em torno da Conferência do Clima, que
estavam ameaçadas pela reticência de atores fundamentais,
notadamente Estados Unidos e China. Imediatamente, outros países
responderam com metas voluntárias em graus variados. E pela
primeira vez na história das negociações sobre clima, os Estados
Unidos apresentaram uma meta de redução de emissões.
É importante ter números na mesa, mas
eles devem ser avaliados por seu alcance efetivo. Tomando como
referência os níveis verificados em 1990 - como fazem os
signatários do Protocolo de Kyoto - a proposta dos Estados Unidos
equivale a cortar meros 4% de suas emissões. É decepcionante, para
um país que responde por 29 % das emissões globais. Será
igualmente decepcionante se a União Europeia fixar objetivos
abaixo das expectativas alimentadas nos últimos anos. E será
totalmente frustrante se Copenhague der respostas financeiramente
limitadas e institucionalmente incertas para o apoio às ações de
mitigação nos países em desenvolvimento. Circunstâncias da
economia mundial não justificam o abandono do planejamento
multilateral adequado, de longo prazo e com respeito à soberania
dos países.
O Brasil vai a Copenhague como o país
que já promoveu a maior redução em suas emissões de CO2. Fomos
além de nossas obrigações e apresentamos, pioneiramente, metas
voluntárias e ousadas para 2020. Fizemos nossa parte; esperamos o
mesmo dos demais. Não podemos nos conformar com números
mesquinhos, que não levem em conta o estoque acumulado no tempo
nem os índices per capita de emissão de CO2 de cada país. O futuro
não nos perdoará se desperdiçarmos esta oportunidade de tornar o
mundo melhor, ambiental mente mais seguro, para nós e para os que
virão depois.
Dilma Rousseff
Ministra da Casa Civil e chefe da
Delegação Brasileira à 15ª Conferência das Nações Unidas sobre
Mudança do Clima
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