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Hoje entra em vigor o Tratado de Lisboa,
espécie de constituição europeia. Com o Tratado, a União Europeia
dá um passo grande no sentido do Estado Europeu.
A Comissão Europeia passa a ser uma
espécie de supra-governo acumulando competências à custa do
Conselho Europeu, o que significa um maior distanciamento dos 27
estados membros. O Alto Representante PESC e PESD, espécie de
Ministro dos Negócios Estrangeiros, adquire competências também
supranacionais, o que limita a competência dos embaixadores dos
países membros. O Parlamento Europeu, o único órgão da EU eleito
democraticamente também ganha mais peso. A competência é da EU em
matérias de política externa, de segurança e de defesa.
A EU adquire personalidade jurídica, o
que lhe confere autonomia de representação e poder de decisão em
organizações internacionais e países terceiros e manter neles
“Delegações da União Europeia”, uma espécie de embaixadas da EU.
As decisões deixam de ser tomadas por
unanimidade para passarem a ser determinadas pelos votos da
maioria. Chega uma maioria de 55% dos votos dos países se ao mesmo
tempo 65% da população destes países estiverem representadas. De
futuro haverá mais necessidade dos países se reagruparem por
regiões de interesses se não querem ser determinados pelas
potências europeias. Portugal terá de andar mais atrelado à
Espanha e esta a outros!
O Tratado de Lisboa inclui a
possibilidade de um país poder abandonar a União. O catálogo dos
direitos fundamentais não é obrigatória na Inglaterra porque daí
os cidadãos poderiam colocar exigências vinculativas no que diz
respeito ao direito a um lugar de trabalho; o mesmo se diga quanto
à Polónia e à República Checa que receiam que através dele os
desterrados da última grande guerra exijam indemnizações!
Os cidadãos europeus passam a ter o
direito de petição através de referendos europeus. No caso de nos
27 países membros se conseguir um milhão de assinaturas para um
determinado assunto, então a Comissão europeia tem de se ocupar
com o tema.
Agora também podem fazer queixa no
Tribunal europeu em Luxemburgo em casos relativos ao direito
comunitário. Cidades e freguesias podem fazer queixa contra
iniciativas de Bruxelas no caso de questões que não tenham de ser
resolvidas a nível europeu. Aqui, o Supremo Tribunal Alemão puxou
as orelhas aos políticos alemães obrigando-os a ressalvar direitos
inalienáveis da democracia alemã. Por exemplo, em questões de
mobilizações militares no estrangeiro o Parlamento alemão tem a
última palavra e não a União Europeia. Projectos-lei da União
Europeia têm de ser enviados aos 27 Parlamentos e estes têm
direito a veto. Neste sector haverá um jogo do rato e o gato entre
governos e parlamentos. Povos mais distraídos serão levados pela
cantiga do governo. Relativamente à Alemanha, no caso do
Parlamento Alemão não estar de acordo terá de enviar propostas de
correcção à EU.
O Parlamento europeu também ganha mais
peso. Este é o único órgão da EU eleito democraticamente.
A Europa agora passa a ter quatro chefes
mas o maior é o presidente da Comissão, José Manuel Barroso.
Os ciclones do materialismo e do
socialismo marxista dominam a EU
Com a entrada em vigor do Tratado de
Lisboa as instituições tornam-se maiores e as pessoas mais
pequenas; ganharam as Companhias poderosas, as grandes empresas,
os Bancos e a Burocracia política e administrativa com os seus
servidores. A Europa dos grandes ganha grandeza no mundo dos
pequenos e ganha peso nos mundos dos grandes. A instituição vive
do que tira ao membro e as instituições grandes vivem do que
furtam às mais pequenas! Mas sem instituição também se não pode
viver! Importante será o surgir de cidadãos conscientes e
críticos!
Que a Europa se torne numa união de
comunidades é mais que natural e óbvio. A questão é: que tipo de
União Europeia? A dúvida fundamenta-se na falta de respeito pelos
biótopos naturais e culturais e no espírito que a empurra! Os
ventos que sopram na União Europeia são unilaterais porque
determinados pelos ciclones do materialismo e do socialismo
marxista acompanhados de rajadas turbo-capitalistas. Não há lugar
para a cultura, para o cidadão nem para o Homem. Se na Idade
Média, tal como hoje no Islão se exagerava com a religião, hoje
exagera-se com o socialismo marxista. Antigamente a crença, hoje a
ideologia! Cada vez se torna tudo mais igual ao nível da rasoura
proletária e consumista. Em nome da ditadura da opinião e da
tolerância, a indiferença cada vez se torna mais obcecante, nesta
grande sociedade decadente. A indiferença é o primeiro passo para
a intolerância! E, os nossos políticos apostam na indiferença e no
desconhecimento. Esta é a hora das virtudes menores: da tolerância
e do internacionalismo das multinacionais. A consciência humana
será regulada pelo mercado, não fosse o cidadão um produto!
Portugal morreu com Camões e o Estado
Português morreu com Salazar!
O povo português continuará, como
dantes, ingovernável mas com folgo para ladrar à trela de
mercenários, cujos interesses continuarão a ser os interesses que
vêm de fora. Trata-se de marcar passo na continuidade.
Assim o problema da autodeterminação
continuará a ser alheio a Portugal e aos portugueses na qualidade
de indivíduos. A banalização a nível cultural já há muito tempo
que começou a aplanar os terrenos para esta Europa, uma Europa
compatível com a Turquia! O espírito crítico e a discussão deram
lugar a gestas de embalar na televisão.
Mais tarde falar-se-á das comunidades
portuguesas como antes se falava das províncias ultramarinas.
Portugal continuará a ter uma alma maior que ele, só que, agora,
fora dele!
Portugal morreu com Camões e o Estado
Português morreu com Salazar! A uma forma de governo autoritária
de alguns poucos seguiu-se uma outra forma de governo autoritária
à custa de alguns muitos.
Facto é que os países perdem a Soberania
sem discussão e tudo acontece democraticamente à margem do povo.
Isto em outros tempos seria apelidado de ditadura! O povo ao
renunciar à democracia directa para delegar a sua soberania na
democracia representativa, com o Tratado de Lisboa só dá mais um
passo consequente, a delegação da personalidade soberana.
Temos um tipo de cidadão cada vez mais
distante da instituição e um tipo de instituição cada vez mais
distante do cidadão. Com o novo tratado acaba-se com o impasse
institucional para se passar ao impasse do cidadão.
A independência é como a virgindade,
quando se dá por ela já se não é…, e depois, não há remédio, a
diferença só se nota na cor do lençol.
António da Cunha
Duarte Justo
Da Alemanha
antoniocunhajusto@unitybox.de
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