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Freqüentemente somos surpreendidos,
através dos mais diversos órgãos da comunicação social brasileira,
com manifestações que criticam de forma agressiva a formação
cultural do Brasil em razão de sua ascendência lusitana, querendo
desmerecer tudo o que foi alcançado na construção desta grande
nação e que tem sido razão dos mais rasgados elogios em todo o
mundo, pela sua capacidade de integração, convivência social,
uniformidade linguística e a manutenção deste imenso território
com características continentais.
O Brasil que é a maior nação da língua
portuguesa, constituí o maior e o melhor exemplo de democracia
pluri-racial de que temos notícia. Essa condição somente pôde ser
alcançada pelas suas raízes histórico-culturais que a definiram e
a moldaram a partir da chegada da esquadra de Cab! ral a estas
terras.
Nessa época o Brasil não existia como
nação pela simples razão de que a esquadra capitaneada por Pedro
Álvares Cabral, em nome da Coroa, apenas tomou posse de terras que
já sabiam existir, mas que, para êles, era totalmente desconhecida
a sua dimensão territorial verdade faltava-lhes o conhecimento de
sua extensão e a sua importância, pelo que, inicialmente,
chamaram-na simplesmente de Ilha de Vera Cruz. A partir de então,
o Brasil passou a ser forjado e ampliado graças ao empenho,
determinação e religiosidade dos portugueses, que passaram da
conquista à demarcação das terras encontradas.
Só muito tempo depois é que o Brasil
passou a existir da forma que nós o conhecemos, ou seja, depois da
perda de muitas vidas e dispêndio de muitos sacrifícios. Convém
não esquecer que o Brasil é fruto da tenacidade, da determinação e
da coragem ! dos portugueses, que o definiram e moldaram
geograficamente, dando-lhe ao mesmo tempo uma Língua, uma cultura
e uma religião.
Hoje, o Brasil é o principal responsável
pela importância da língua portuguesa no mundo: são 190 milhões de
pessoas a comunicarem-se na língua de Camões. Nos dias actuais,
não se concebe que o tema “língua portuguesa” seja abordado sem
que se mencione os falantes do Brasil, traduzido nos seus
intelectuais, escritores, a música e a cultura geral do seu Povo.
Constituímos uma sociedade que promoveu,
de forma admirável, a integração das três raças que, inicialmente,
formaram o Brasil: o índio, o branco e o negro, moldando uma
sociedade multifacetada, traduzida num povo admirado e estimado em
todo o mundo.
Mas também nos defrontamos com opiniões
contrárias, umas com fundamentação político-partidária, outras
fruto da ignorância e da desinformação e ainda mal intencion! adas
por parte de terceiros, os quais, ao tentarem atingir as
autoridades governamentais com quem se confrontam, acabam por
prejudicar a imagem da presença portuguesa no Brasil, causando um
mal-estar a todos os que labutam quotidianamente por uma maior
aproximação luso-brasileira. Certas figuras chegam a afirmar
“fomos invadidos!”. Mas que, invasão? Como sabemos, na época da
chegada da esquadra de Cabral não existia qualquer civilização
evoluída ou estado soberano que estivesse sendo ocupado. Existia
sim, centenas de tribos indígenas, a maioria desconhecendo a
existência das outras, falando línguas diferentes, muitas se
digladiando entre si e vivendo em estado neolítico e sem a noção
da grandiosidade do território que habitavam.
Os portugueses chegaram pacificamente e
levaram a esses povos a sua cultura, a sua religiosidade e o seu
desenvolvimento. Os índios não foram dizimados, como alguns
afirmam de! forma maléfica. Alguns permanecem na sua condição
tribal até os dias de hoje, face ao distanciamento com a
civilização e, mais recentemente, graças a projectos de
preservação das suas línguas e de seus costumes. Esses detratores
citam o trabalho escravo do negro e do índio no desenvolvimento do
Brasil. Sem dúvida que tal contribuição foi de grande importância
naquela época, mas esquecem-se de mencionar os milhões de
portugueses que para ali foram de forma espontânea, e que deram o
seu suor e morreram a trabalhar na construção desta grande nação.
Porque, ao citarem os portugueses, lembram-se apenas dos
dirigentes, os comandantes militares e os donatários, deixando de
reconhecer o esforço dos trabalhadores, dos operários, dos
artesãos, dos soldados e dos missionários que deram o seu
contributo e o seu sangue para que o Brasil alcançasse o
gigantismo de hoje. Orgulhemo-nos de nossas origens, pois só temos
razões de o fazer.
Eduardo Artur Neves
Moreira
Ex-Presidente do Conselho Mundial das
Comunidades Portuguesas, Ex-Deputado da Assembleia da República
Portuguesa, Acadêmico Titular da Academia Luso-Brasileira de
Letras
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