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Aos 120 anos da deposição da Monarquia,
comemoremos os períodos democratas que, apesar de tudo, se
criaram. Temos, com certeza, uma moeda firme e apreciada. Temos
hoje um dos maiores colégios eleitorais do mundo e um sistema de
votação e apuração de fazer inveja. Temos liberdades (nestes
últimos anos), que se consolidam confirmando a Constituição. Temos
alguns programas sociais, que redistribuem a riqueza. Temos a
esperança de que essas conquistas se consolidem.
Mas, temos carências sérias a superar. Faltam-nos partidos
políticos nacionais e autênticos e vivemos à sombra do poder
pessoal, que alimenta um populismo perigoso. Faltam-nos os
estímulos de grupos intermediadores da militância política. Nossa
representação eleitoral foi distorcida pelo regime autoritário,
encerrado há cerca de vinte anos, o que viola a igualdade básica
dos cidadãos nas diferentes regiões.
Essas carências, em sua raiz, vêm de longe. Algumas remontam a
1889 quando, numa ação apresentada como avanço, se ocultou o golpe
reacionário que praticamente excluiu as conquistas do reinado de
D. Pedro II, traindo a democracia sob o disfarce da república.
“Cheio de cataplasmas, entre o peito arquejante e a túnica vestida
às pressas, vencendo uma dispnéia, Deodoro invade a cena”. Dá
vivas ao Imperador e, sem saber aonde chegar, consuma o golpe com
que proclamou a república. Mas, na verdade, o que nasceu daí foi
um grande tumulto que atingiu o povo, alheio ao que se passava.
Cristaliza-se a nova situação criada pelo Marechal, que jurou a
monarquia, mas depõe o Imperador, que era republicano.
Nasce, então, a caótica administração de Deodoro, coroada de
ilegalidades, e que, um pouco mais tarde, se tornará nas mãos de
Floriano Peixoto, violenta, despótica e ilegal, a ponto de levar o
país à guerra civil (1893), com enorme número de vítimas, gerando
até mesmo pronunciamentos no Exército e na Armada. Só a partir de
Prudente de Morais (15/11/1894) se conhecerá uma calma vacilante,
que salva a república, como ideal, ainda que fique duramente
mutilada.
Em 1889, na verdade, os militares foram usados pelos interesses de
latifundiários retrógrados. Esses inimigos do progresso invadem,
literalmente, o Partido Republicano com o intuito de levar o
Brasil de volta à condição de Angola e Moçambique, que conhecíamos
antes de 1808. Republicanos puros, como Bernardino de Campos,
Glicério de Freitas e João Pinheiro, não se confundem com essa
malta, pois desde 1870 pregavam uma Assembléia Constituinte que,
em paz, fizesse a transição para a república.
A primeira república, instaurada em 1889, durante 40 anos nos fará
viver no meio de arbítrio, inoperância e fraudes. Poucos e de
exceção são os presidentes desse período que justificam seu
mandato empreendendo algo que justifique sua passagem pelo poder.
A segunda república (1930), fruto de nova violência, consagrará o
estado de exceção, agravado pelo golpe de 1937 e balizado por uma
das maiores desonestidades em seu pretexto, concebido por Góis
Monteiro. Na terceira, outra vez movida pelo golpe (1945),
começamos a melhorar significativamente, e é assim que em 1960,
pela primeira vez, se passa o poder à oposição, sem manifestação
de violência.
Fomos, então, retomando direitos e princípios que mereceriam ter
sido sempre respeitados. Em 1964, voltamos à exceção autoritária e
a partir de 1984 retornamos à democracia cheios de esperança.
Exorcizados os golpes, tornemos ao modelo dos fundadores do
Brasil, aperfeiçoados e atualizados, por um povo redimido,
próspero, movido pela globalização e atento às necessidades que
ainda condicionam nossa democracia. Sonhemos com a democracia
plena. Aí, poderemos comemorar.
A república conseguiu ir vencendo etapas difíceis e o sabor da sua
vitória espera por pouco, pois com atentados pequenos ou grandes,
vamos abrindo caminho, pensando feridas. É preciso ter presente
que o mundo começa todo o dia, e, por isso, o processo histórico
que caminha nele jamais estará terminado e a democracia será,
portanto, sempre inacabada, pois não existe um “fim da história”
como pregaram Marx e Fukiama. Ela prossegue, onde quer que o
humano sobreviva. Viva a República!
Luiz Seraphico
Advogado, ex- professor da PUC-SP e da USP, autor, entre outros,
de “São Cristóvão e a Herança Perdida”, sobre os reflexos da
Proclamação da República no Brasil atual (Arauco Editora). Foi
membro do Conselho do MASP de 1977 a 1985, presidente do MAM-SP de
1980 a 1982, vice-presidente do Museu Brasileiro de Escultura de
1988 a 1990. De 1992 a 2000, fez parte do Conselho da Fundação
Bienal de São Paulo.
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