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Estava em Portugal há alguns dias. É
sempre bom rever a família e visitar alguns lugares, matar aquela
saudade que só portugueses – ou luso-descendentes – conhecem com
propriedade.
Mas um fato ocorrido há anos e levado ao conhecimento do grande
público português causou algum constrangimento aos brasileiros que
estavam em Portugal como eu: a divulgação de um vídeo feito pela
atriz Maitê Proença, em 2007, que segundo a grande mídia
portuguesa, é repleto de parvoíces e de ofensas dirigidas ao povo
português.
O tal vídeo causou imensa reação, foi capaz de gerar até mesmo uma
nota de indignação pelo Conselho da Comunidade Luso-brasileira,
associação civil de finalidade pública da qual também faço parte,
além de um sem número de reações, algumas razoáveis, outras
exageradas (houve quem estimulasse que os portugueses cuspissem de
cima do Cristo Redentor no Rio de Janeiro).
Assisti ao vídeo todo da Maitê, disponível na íntegra pelo site
www.youtube.com e li todos os grandes jornais de Portugal sobre o
assunto. Confesso que fiquei um bocado constrangido, não com o
vídeo, mas com a reação e explico o porquê. Espero que, imbuídos
do espírito democrático, aqueles de ânimo mais inflamado, percebam
os fundamentos de minhas ponderações de forma positiva, despidos
de nacionalismo exacerbado, atentando estritamente aos fatos a
seguir expostos.
A primeira observação que faço – e fiz a todos os parentes em
Portugal – é que a Maitê Proença não é uma pessoa a ser levada a
sério. Enfim, ela não é jornalista, não tem uma carreira voltada
para trabalhos desse tipo. Portanto, o vídeo, nitidamente, não é
jornalístico, informativo, ou qualquer coisa neste sentido. Por
este fato e só por isso, a análise de vários colunistas
portugueses deve ser ignorada: quem assistiu ao famigerado vídeo,
não levou a sério nada daquilo, nem houve qualquer intenção de
informar o público brasileiro. Antes, essa senhora é conhecida por
participar de comédias e todo o tipo de obra humorística. Tanto é
assim, que durante sua curta estadia em Portugal em 2007, fez uma
participação no programa humorístico de mais sucesso em Portugal,
o Gato Fedorento. Naquele programa Maitê representou uma
portuguesa – e a malta do Gato Fedorento brasileiros -, vídeo
também disponível no youtube, vale a pena ver, porque é ótimo.
Por outro lado, a reação da grande mídia portuguesa deixou claro,
pelo menos para quem quer ver, que parvoíces são muito mais
importantes do que assuntos relevantes para a nação portuguesa,
são levados muito mais a sério do que questões fundamentais. A
grande mídia portuguesa, como no mundo todo, pareceu controlar com
facilidade os ânimos e direcionar a atenção do público para um
assunto que, convenhamos, é uma querela sem sentido, um queixume
sobre um vídeo estúpido. Nada mais.
Como terceiro apontamento, sugiro uma reflexão profunda sobre o
nacionalismo em Portugal. Não tenho dúvidas que desde a realização
da Eurocopa em Portugal houve o reacendimento do sentimento
nacionista, apagado por muitos anos pelo salazarismo e os temores
e lembranças tristes daquele longo período, de quase 50 anos
(exatamente 48 anos, não 20, como disse Maitê sem qualquer
conhecimento). O nacionalismo em Portugal é saudável e tem razão
de ser: resulta da grande história e dos imensos feitos
portugueses. Mas a exacerbação de sentimentos nacionistas,
especialmente em tempos de globalização, segue na contramão do que
parece ser a maior qualidade do povo português: sua tolerância e
capacidade de adaptação – e absorção – das mais diversas culturas,
isso tudo sem perder sua própria identidade.
Por fim, acho que houve exagero na reação contra a Maitê. Por ser
mulher e brasileira, talvez tenha sofrido com os preconceitos que
acometem não só os portugueses, mas em geral todos os europeus,
que consideram as brasileiras lascivas e pouco sérias – culpa
nossa e só nossa, especialmente na EMBRATUR, mas vou deixar essa
questão para outra oportunidade.
Aos queridos portugueses, não se preocupem, não houve mácula
nenhuma. Mesmo que o cuspe da Maitê possa ter de alguma forma
danificado a fonte ao pé do Mosteiro dos Jerônimos, essa senhora
já foi corroída o suficiente – acho até que além da conta – pelos
comentários da mídia portuguesa e brasileira.
Jaime Magalhães
Machado Júnior
Advogado em São Paulo. É brasileiro e
português.
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