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Por Jaime Magalhães Machado Junior


Terça - feira | 27 OUT 08

Maitê Proença, a mídia (media) portuguesa e as reações exageradas

Estava em Portugal há alguns dias. É sempre bom rever a família e visitar alguns lugares, matar aquela saudade que só portugueses – ou luso-descendentes – conhecem com propriedade.

Mas um fato ocorrido há anos e levado ao conhecimento do grande público português causou algum constrangimento aos brasileiros que estavam em Portugal como eu: a divulgação de um vídeo feito pela atriz Maitê Proença, em 2007, que segundo a grande mídia portuguesa, é repleto de parvoíces e de ofensas dirigidas ao povo português.

O tal vídeo causou imensa reação, foi capaz de gerar até mesmo uma nota de indignação pelo Conselho da Comunidade Luso-brasileira, associação civil de finalidade pública da qual também faço parte, além de um sem número de reações, algumas razoáveis, outras exageradas (houve quem estimulasse que os portugueses cuspissem de cima do Cristo Redentor no Rio de Janeiro).

Assisti ao vídeo todo da Maitê, disponível na íntegra pelo site www.youtube.com e li todos os grandes jornais de Portugal sobre o assunto. Confesso que fiquei um bocado constrangido, não com o vídeo, mas com a reação e explico o porquê. Espero que, imbuídos do espírito democrático, aqueles de ânimo mais inflamado, percebam os fundamentos de minhas ponderações de forma positiva, despidos de nacionalismo exacerbado, atentando estritamente aos fatos a seguir expostos.

A primeira observação que faço – e fiz a todos os parentes em Portugal – é que a Maitê Proença não é uma pessoa a ser levada a sério. Enfim, ela não é jornalista, não tem uma carreira voltada para trabalhos desse tipo. Portanto, o vídeo, nitidamente, não é jornalístico, informativo, ou qualquer coisa neste sentido. Por este fato e só por isso, a análise de vários colunistas portugueses deve ser ignorada: quem assistiu ao famigerado vídeo, não levou a sério nada daquilo, nem houve qualquer intenção de informar o público brasileiro. Antes, essa senhora é conhecida por participar de comédias e todo o tipo de obra humorística. Tanto é assim, que durante sua curta estadia em Portugal em 2007, fez uma participação no programa humorístico de mais sucesso em Portugal, o Gato Fedorento. Naquele programa Maitê representou uma portuguesa – e a malta do Gato Fedorento brasileiros -, vídeo também disponível no youtube, vale a pena ver, porque é ótimo.

Por outro lado, a reação da grande mídia portuguesa deixou claro, pelo menos para quem quer ver, que parvoíces são muito mais importantes do que assuntos relevantes para a nação portuguesa, são levados muito mais a sério do que questões fundamentais. A grande mídia portuguesa, como no mundo todo, pareceu controlar com facilidade os ânimos e direcionar a atenção do público para um assunto que, convenhamos, é uma querela sem sentido, um queixume sobre um vídeo estúpido. Nada mais.

Como terceiro apontamento, sugiro uma reflexão profunda sobre o nacionalismo em Portugal. Não tenho dúvidas que desde a realização da Eurocopa em Portugal houve o reacendimento do sentimento nacionista, apagado por muitos anos pelo salazarismo e os temores e lembranças tristes daquele longo período, de quase 50 anos (exatamente 48 anos, não 20, como disse Maitê sem qualquer conhecimento). O nacionalismo em Portugal é saudável e tem razão de ser: resulta da grande história e dos imensos feitos portugueses. Mas a exacerbação de sentimentos nacionistas, especialmente em tempos de globalização, segue na contramão do que parece ser a maior qualidade do povo português: sua tolerância e capacidade de adaptação – e absorção – das mais diversas culturas, isso tudo sem perder sua própria identidade.

Por fim, acho que houve exagero na reação contra a Maitê. Por ser mulher e brasileira, talvez tenha sofrido com os preconceitos que acometem não só os portugueses, mas em geral todos os europeus, que consideram as brasileiras lascivas e pouco sérias – culpa nossa e só nossa, especialmente na EMBRATUR, mas vou deixar essa questão para outra oportunidade.

Aos queridos portugueses, não se preocupem, não houve mácula nenhuma. Mesmo que o cuspe da Maitê possa ter de alguma forma danificado a fonte ao pé do Mosteiro dos Jerônimos, essa senhora já foi corroída o suficiente – acho até que além da conta – pelos comentários da mídia portuguesa e brasileira.

 

Jaime Magalhães Machado Júnior

Advogado em São Paulo. É brasileiro e português.


 

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