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Por Humberto Pinho da Silva


Sexta-feira | 19 JUN 09

“A Língua Portuguesa”

Dizia Erico Veríssimo que é um lindo mausoléu. Queria dizer, que as obras literárias, escritas em português, por mais belas que sejam, só são divulgadas depois de traduzidas.

Lembrei-me do parecer do ilustre escritor, ao escutar, o discurso em castelhano, do nosso Primeiro-ministro.

E não é de admirar o comportamento. Raro é o político ou figura pública portuguesa, que visitando um país estrangeiro, não dialogue na língua dessa nação.

E o mesmo acontece com o turista – português ou brasileiro, – quando viaja. Basta atravessarem a fronteira para balbuciarem em espanhol apalhaçado, amálgama de palavras quase incompreensíveis.

Conhecido actor brasileiro estava a ser entrevistado pela TVE. Respondia em castelhano tão macarrónico, que lhe pediram que falasse no seu idioma, pois seria perfeitamente compreendido.

E, no entanto, o português é falado por milhões e milhões de pessoas de várias nacionalidades.

O desprezo, pela nossa língua, demonstra-se, igualmente, nisto:
Existe lei, obrigando que nada se venda em Portugal, sem ser portador de instruções em português. Todavia, muitos utensílios, que importamos, limitam-se, muitas vezes, a poucas linhas escritas pelo importador.

Mas sempre assim foi – e houve tempo que, produtos fabricados em Portugal, apenas tinham informações em inglês e francês. - Sempre veneramos o que se faz e se diz lá fora: na moda, na literatura, na política. Não passamos de tristes imitadores.
Se outrora era de bom-tom conversar com galicismos, agora é snobe exprimir-se com termos anglo-saxónicos; e muitos, que assim falam, desconhecem, na maioria dos casos, o correspondente em português.

Se no tempo de Nicolau Tolentino, o francesismo estava na berra, levando-o a escrever, sobre a sociedade lisboeta:

“ Exalta os melhores franceses
Dos banquetes que lhe deram;
E balbuciará às vezes,
Fingindo que lhe esqueceram
Muitos termos portugueses.”

E o próprio Eça, confessa, em carta a Oliveira Martins: “ (Sou um) francês de província (…) fui educado e eduquei-me a mim mesmo, com livros franceses, sentimentos franceses e ideias francesas.
……………………………………..........................................
De gente portuguesa conheço apenas a alta burguesia de Lisboa - que é francesa - e que há-de pensar à francesa, se algum dia vier a pensar.”
- Carta Xl “ Correspondência”. Ed. Lello - 1978.

Estamos, agora, a inglesarmo-nos, melhor: americanizarmo-nos. Nação que muitos dizem detestar, mas se surge oportunidade de estudo ou trabalho, alegremente se mudam para lá.

Que se conheça línguas estranhas é louvável e útil, mas que se utilize esse conhecimento em detrimento da língua natal, é reprovável.
Nesta matéria é bom seguir o conselho queiroziano:

“Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza a língua da sua terra: - todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.”

Humberto Pinho da Silva

Humbertopinhosilva@sapo.pt


 

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