|
Cerca de 40 mil
brasileiros já teriam desembarcado em Angola, nos últimos anos, ao
mesmo tempo que alguns angolanos (e em particular as mulheres) vêm
cada cada vez em maior número “fazer compras” no Brasil, desde
roupas aos pequenos utensílios domésticos – primeiro, voavam de
Luanda a Fortaleza, na região nordeste, e agora começaram a descer
até São Paulo, no sul. E dizem que, apesar do alto custo da
viagem, vale a pena, porque são muito mais caros os produtos de
outros países, incluindo os adquiridos em Portugal (os
exportadores que se cuidem, pois os ventos mudaram).
O que está ocorrendo não
seria novidade no fim do século XVIII e no começo do XIX, isto é,
reata-se uma tradição secular. Quem sabe História, recordará que
os oportunistas holandeses, em virtude da guerra com os espanhóis,
tentaram asfixiar a economia portuguesa (ou luso-brasileira?) por
meio da ocupação do Brasil, pois chegaram a dominar uma boa parte
do Nordeste e foram até Angola, instalando-se em diversos pontos
do território. Portugal conseguiu libertar-se das grilhetas
filipinas, mas os flamengos venderam por bom preço as zonas
conquistadas temporariamente pelos militares dos comerciantes
vitoriosos.
Em relação a Angola, foram
os portugueses do Brasil e os seus descendentes “brasilianos” os
principais financiadores da reconquista genuinamente
luso-brasileira, ainda que com o denodado apoio da Metrópole,
esgotada pelos roubos napoleônicos e, depois, com os gastos da
guerra contra “nuestros hermanos (vizinhos, sim, mas não irmãos).
A penúria lusitana de homens e dinheiro foi tão grande que o Padre
Vieira, na dupla condição de diplomata e negociador, chegou a
admitir a hipótese de Portugal ter de recomprar aos holandeses as
terras que eles tinham descaradamente roubado a Portugal!
Felizmente, o despudor dos
flamengos não conseguiu descaracterizar o Nordeste do Brasil, em
virtude de eles haverem sido vencidos para sempre na batalha dos
Guararapes (no Recife), ao mesmo tempo que as posições assumidas
em território angolano foram destroçadas. Evidentemente, há
contemporâneos que não sabem nem querem saber que a unidade do
Brasil e de Angola só tem uma explicação – a coragem que os lusos
demonstraram na luta contra os inimigos de ontem no antigo
Ultramar e até em Portugal. E dizê-lo não significa que os
portugueses fossem colonialistas dos tipos inglês, francês,
espanhol, holandês, alemão ou italiano.
Não obstante, quando
ocorreu a independência do Brasil, em 1822, houve quem, em Angola,
defendesse a separação de Portugal e a união em nome de uma
brasilidade atlântica, nessa altura tão débil quanto irrealista. O
episódio histórico é mal conhecido, mas está documentado no livro
Angola e Brasil – 1808-1830, da autoria de Manuel dos Anjos da
Silva Ribeiro (ed. Agência Geral do Ultramar, Lisboa. 1970).
II
Mais de 50 empresas brasileiras (grandes, médias e pequenas) estão
já instaladas em Luanda e outros lugares, conforme artigo de O
Estado de S. Paulo, assinado por Edison Veiga, com base em
informações da Associação de Empresários e Executivos Brasileiros
em Angola. Os empreendimentos são de vulto – o Grupo Odebrecht,
por exemplo, dispõe de 10 mil empregados (2.500 são brasileiros) e
fez várias centrais hidroelétricas, constrói imóveis e participa
das obras de saneamento de Luanda e participa do único central de
compras do país (tem 89 lojas), ao passo que a Construtora Andrade
Gutierrez amplia os projectos.
Por seu turno, cresce a
influência da TV Globo Internacional, que fornece novelas para a
Televisão oficial e, além disso, tem 150 mil assinantes. E a
Universidade Agostinho Neto contratou diversos professores
brasileiros, dá facilidades aos 2 mil estudantes que freqüentam
escolas superiores do Brasil, em São Paulo, Rio de Janeiro,
Brasília e Rio Grande do Sul. Paralelamente, a Universidade
Agostinho Neto desenvolve-se a partir dos seus 50 mil alunos, que
freqüentam 68 cursos de licenciatura, 18 de bacharelato e 15 de
mestrado. E anuncia-se que funcionam igualmente 14 universidades
particulares em todo o território.
Para lá das saudades que
têm da Pátria, os brasileiros que optaram por Angola,
definitivamente ou com planos de regresso, vivem muitíssimo bem.
Considerando que são milhares os que auferem o triplo dos salários
que ganhariam no país natal. E são bastantes aqueles que têm
viagens pagas para revisitar de dois em dois meses as famílias que
deixaram no país natal.
Como não há bela sem
senão, os neo-emigrantes queixam-se da carestia angolana – e só os
produtos importados são bons, porque a jovem nação ainda não pôde
reformular a sua agropecuária, que foi outrora muito razoável. Os
alimentos mais apreciados custam 4 vezes mais do que no Brasil:
uma lata de coca-cola custa US$2,70 e uma refeição aceitável fica
em torno de USA$50,00 – a moeda nacional é o “kuwanza”, mas para
adquirir 1 dólar são precisos 75 “kwanzas”! E isto explica que um
apartamento de 2 dormitórios não seja acessível por menos de US$ 5
mil… mensais! (Os executivos mais bem pagos chegam a dispender US$
5 mil!).
Os brasileiros são como os
portugueses e, por isso, irritam-se com o trânsito mais do que
lento (em Luanda, nas horas de pico, há quem demore 3 horas para
percorrer uma distância de 15 km…). Apesar dos pesares, Angola
ainda vale a pena, em especial para os que têm paciência, porque
oferece ao visitante praias bonitas, paisagens belíssimas – e,
acima de tudo, ao que diz O Estado de S. Paulo, “o angolano é boa
gente”, simpático, bem educado e gosta dos brasileiros (e também
dos portugueses, porque a colonização foi muito pior noutras
terras africanas).
Todavia, o que confrange é
a pobreza vivida pela maioria dos 4,5 milhões de residentes na
cidade de São Paulo de Assunção de Luanda, fundada pelos
colonizadores, em contraponto a São Paulo de Piratininga. Resta
aos bons luandenses a esperança de um futuro melhor, já que o
presente é difícil.
Os brasileiros adaptam-se
à vida angolana, mal grado a falta de uma felicidade completa, que
não existe fora do sonho. E quem desembarca em Luanda para
trabalhar não deve esquecer a sua condição de emigrante. Aliás,
brasileiro que vai para Angola é um privilegiado, porque um alto
salário contribui decisivamente para reduzir a saudade.
João Alves das Neves
Escritor português residente no
Brasil
jneves@fesesp.org.br
|