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Andando el-rei D. João II, de
Portugal, a visitar os cárceres do reino, topou maltrapilho, de
barba em riste, semblante descaído e olhos quebrados, que mal
conseguia arrastar-se. Indagando o porquê da prisão, foi dito,
pelo carcereiro, que difamara El-rei, com vocábulos descompostos.
Lançou em graça, o rei, a
prevaricação, e ordenou que o soltassem, mandando dar-lhe quatro
mil reis, para se aprontar, no barbeiro.
O “Príncipe Perfeito “, cognome
de D. João, que afoitamente pelejou em Toro, e pela próprias mãos
acutilou o duque de Viseu, em Setúbal, não era, por certo, um
sentimentalão, mas comiserou-se do infeliz, que permanecia na
enxovia, por ter endereçado injurias verbais, enquanto muitos,
esses sim, conspiravam em surdina, e folgavam pelos casais das
abas de Lisboa.
Aconteceu esta curiosa cena no
último quartel do séc. XIII.
Nesse tempo a liberdade de expressão era uma utopia, só permitida
a quem mandava e a validos de sua majestade; e mesmo estes, para
venerar o rei e contubernais.
Nessa remota época, direitos e deveres, oscilavam, consoante o
nascimento; tal qual como hoje: direitos e deveres diferem de
harmonia com a classe social, bens e “ amigos” de cada um.
Assim se explica que o infeliz
Joaquim da Silva Xavier parecesse ao defender a independência num
dia de Abril, no Largo de S. Domingos, entre populaça, flores e
clarins; e trinta anos depois, D. Pedro fosse aclamado por todos,
ao proferir:” Independência ou morte!”
O primeiro, simples alferes,
foi morto pela proeza reaccionária. O segundo, príncipe e herdeiro
ao trono, foi louvado!… até pelo próprio rei!
Também pagaram com a vida, os
audazes Domingos José Martins, Padres Roma, Miguelinho e Tenório,
cinco anos antes de D. Pedro proclamar o “Fico”, a 9 de Janeiro.
A velha e bíblica parábola das panelas de barro e ferro, é ainda
actual: se o alfaiate Fernão Vasques fosse assíduo leitor do
Livro, por certo teria melhor destino; mas o imprudente não sabia
latim, e erradamente supunha, como muitos “alfaiates” de agora,
que a liberdade, quando há, é de todos.
Nasci em época de sensores e
outros tais, que se serviam do povo como “escada”e , quase sempre,
espezinhavam-no, depois de servidos.
Veio a revolução da liberdade,
foram apartados e alcunhados de fascistas, por casta de novos
oportunistas, que usaram o povo para alcançarem cargos cimeiros e
auferirem grossos salários. Em seguida, lançarem às urtigas as
benesses devidas aos bacocos “alfaiates”, que os levaram aos
ombros e de punho erguido, aclamaram quem mal conheciam.
Dizem-me que sou eterno
reaccionário. Não o nego, se ser “reaccionário” é ter opinião e
não tanger palmas para obter promoções e prémios.
Essa postura “reaccionária”
levou-me a ser preterido na vida profissional, após louvor. Parece
paradoxo, mas não é.
É o preço de todo aquele que
não milita em partido do poder e não reverencia forças políticas.
Sem essa veneração, ninguém se salva.
Salvei-me eu, que posso
caminhar de rosto erguido e nariz levantado, sem a raposa de Fedo
declarar, que nada há atrás da máscara, ainda que a reforma tenha
sido bem mais magra.
Defender, convictamente, a
Verdade e a Justiça, leva-nos a morrer, como Camões, pobre e
desprezado, mesmo por aqueles a quem prestamos bons serviços e
mantivemos lealdade.
Humberto Pinho da
Silva
Humbertopinhosilva@sapo.pt
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