>> OPINIÃO ARTIGOS

 

Bookmark and Share 

AUMENTAR FONTE

F

F

F

F

Por Humberto Pinho da Silva


Terça-feira | 19 MAI 09

“O Perigo de ser Independente”

Andando el-rei D. João II, de Portugal, a visitar os cárceres do reino, topou maltrapilho, de barba em riste, semblante descaído e olhos quebrados, que mal conseguia arrastar-se. Indagando o porquê da prisão, foi dito, pelo carcereiro, que difamara El-rei, com vocábulos descompostos.

Lançou em graça, o rei, a prevaricação, e ordenou que o soltassem, mandando dar-lhe quatro mil reis, para se aprontar, no barbeiro.

O “Príncipe Perfeito “, cognome de D. João, que afoitamente pelejou em Toro, e pela próprias mãos acutilou o duque de Viseu, em Setúbal, não era, por certo, um sentimentalão, mas comiserou-se do infeliz, que permanecia na enxovia, por ter endereçado injurias verbais, enquanto muitos, esses sim, conspiravam em surdina, e folgavam pelos casais das abas de Lisboa.

Aconteceu esta curiosa cena no último quartel do séc. XIII.
Nesse tempo a liberdade de expressão era uma utopia, só permitida a quem mandava e a validos de sua majestade; e mesmo estes, para venerar o rei e contubernais.
Nessa remota época, direitos e deveres, oscilavam, consoante o nascimento; tal qual como hoje: direitos e deveres diferem de harmonia com a classe social, bens e “ amigos” de cada um.

Assim se explica que o infeliz Joaquim da Silva Xavier parecesse ao defender a independência num dia de Abril, no Largo de S. Domingos, entre populaça, flores e clarins; e trinta anos depois, D. Pedro fosse aclamado por todos, ao proferir:” Independência ou morte!”

O primeiro, simples alferes, foi morto pela proeza reaccionária. O segundo, príncipe e herdeiro ao trono, foi louvado!… até pelo próprio rei!

Também pagaram com a vida, os audazes Domingos José Martins, Padres Roma, Miguelinho e Tenório, cinco anos antes de D. Pedro proclamar o “Fico”, a 9 de Janeiro.
A velha e bíblica parábola das panelas de barro e ferro, é ainda actual: se o alfaiate Fernão Vasques fosse assíduo leitor do Livro, por certo teria melhor destino; mas o imprudente não sabia latim, e erradamente supunha, como muitos “alfaiates” de agora, que a liberdade, quando há, é de todos.

Nasci em época de sensores e outros tais, que se serviam do povo como “escada”e , quase sempre, espezinhavam-no, depois de servidos.

Veio a revolução da liberdade, foram apartados e alcunhados de fascistas, por casta de novos oportunistas, que usaram o povo para alcançarem cargos cimeiros e auferirem grossos salários. Em seguida, lançarem às urtigas as benesses devidas aos bacocos “alfaiates”, que os levaram aos ombros e de punho erguido, aclamaram quem mal conheciam.

Dizem-me que sou eterno reaccionário. Não o nego, se ser “reaccionário” é ter opinião e não tanger palmas para obter promoções e prémios.

Essa postura “reaccionária” levou-me a ser preterido na vida profissional, após louvor. Parece paradoxo, mas não é.

É o preço de todo aquele que não milita em partido do poder e não reverencia forças políticas. Sem essa veneração, ninguém se salva.

Salvei-me eu, que posso caminhar de rosto erguido e nariz levantado, sem a raposa de Fedo declarar, que nada há atrás da máscara, ainda que a reforma tenha sido bem mais magra.

Defender, convictamente, a Verdade e a Justiça, leva-nos a morrer, como Camões, pobre e desprezado, mesmo por aqueles a quem prestamos bons serviços e mantivemos lealdade.

Humberto Pinho da Silva

Humbertopinhosilva@sapo.pt


ARTIGOS DO AUTOR

19/05/09 "O Perigo de ser Independente"

07/05/09 "Recordações de uma Vida"

25/03/09 "A Páscoa da Minha Infância"

05/02/09 "Eu tenho Nome!..."


 

© 2003-2008 Jornal Mundo Lusíada - Todos os direitos reservados.

Artigos assinados não exprimem propriamente a opinião do Mundo Lusíada Online.
Colunas e textos de opinião com assinatura são de responsabilidade de seus autores.