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Parece sina dos velhos acordar
o tempo que já não é. Lenitivo que purpurina derradeiros raios do
Sol, que acalentam o declinar de tarde outonal.
Veredas que todos percorremos, se a Previdência não colhe a vida
em flor. Não sou excepção.
Fecho os olhos e vejo-me – como
se vê melhor com eles cerrados! …. - ao regaço de minha mãe, na
velha casa de alforge do século XlX , sentado num banquinho, à
sombra de pelargónios do terraço. Vejo, meu pai, aconselhando-me e
imprimindo ensinamentos, que a juventude menosprezou.
Vejo-me, sentado na carteira da
escola, entre garotos travessos; e sinto horrorizado, como outro
Santo Agostinho, o temor da palmatória.
Vejo-me, de cabeça pendente sobre a secretária, tentando reter o
que a memória não queria ou não podia alcançar.
Ouço, meu pai, bradar: Querer é poder! Eu queria, mas não podia. E
deste jeito conclui, no meu pensar pueril, que o anexim era cruel.
Vejo-me, adolescente, calcorreando velhas ruas tripeiras na
companhia de amigo inseparável, que o tempo separou.
Vejo-me, em Bragança, a cumprir
o dever à Pátria; e revejo, de olhos orvalhados de gratidão, o
primo que cuidou com amor paternal.
Vejo-me, enrubescer de pejo, ao inquerirem, diante de meus
companheiros de folguedo : - Por que não estuda, se tão
inteligente é!? Como iria explicar! …. se passava horas de
profunda mágoa por não conseguir acompanhar os condiscípulos!
Quis Deus ou a bondade dos professores, que chegasse ao ensino
superior!
Mas nem tudo foram lágrimas. Passei férias encantadoras no Vale da
Vilariça. Conheci gente maravilhosa e amiga, e duas garotinhas,
que alegraram, em terras transmontanas, a soledade; meninas que
encheram o sofrido coração, de infindas alegrias.
Agora vivo de saudade, ladeado
de livros e de amigos, que persistem em o ser.
Ao observar pálidas e amarelecidas fotos; objectos que foram de
meus avós e pais; ao ver as cantarinhas de tosco barro, ofertadas
em tépida e risonha tarde de Primava, no vetusto burgo de
Bragança, afloram-me, aos fatigados olhos, sofridas lágrimas de
saudade… e compreendo, que o tempo que passou, já não é.
Avivam-se na memória, reminiscências de outrora, por feliz magia,
tudo se afigura presente. Animam-se, ganham vida e renascem cenas,
tão vivas, tão coloridas, que chego a pensar, que o tempo passado,
ainda é.
Oiço – como ouço! - o falar
dolente da minha mãe enferma; e sinto, enternecido, o aconchego de
sua mão, cor de areia….e, arrepiado, como se corrente
electrictrizante percorresse a espinhal medula, pressinto, ainda,
remotos e ancestrais medos, que escurentaram a nem sempre feliz
meninice.
Alegrias, tristezas, amizades,
amores…convivem comigo, como se nunca deixasse de ser menino. Tudo
e todos, conservo dentro de mim …tudo e todos, guardo no coração…
Humberto Pinho da
Silva
Humbertopinhosilva@sapo.pt
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