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Por Humberto Pinho da Silva


Quarta-feira | 07 MAI 09

“Recordações de uma Vida”

Parece sina dos velhos acordar o tempo que já não é. Lenitivo que purpurina derradeiros raios do Sol, que acalentam o declinar de tarde outonal.
Veredas que todos percorremos, se a Previdência não colhe a vida em flor. Não sou excepção.

Fecho os olhos e vejo-me – como se vê melhor com eles cerrados! …. - ao regaço de minha mãe, na velha casa de alforge do século XlX , sentado num banquinho, à sombra de pelargónios do terraço. Vejo, meu pai, aconselhando-me e imprimindo ensinamentos, que a juventude menosprezou.

Vejo-me, sentado na carteira da escola, entre garotos travessos; e sinto horrorizado, como outro Santo Agostinho, o temor da palmatória.
Vejo-me, de cabeça pendente sobre a secretária, tentando reter o que a memória não queria ou não podia alcançar.
Ouço, meu pai, bradar: Querer é poder! Eu queria, mas não podia. E deste jeito conclui, no meu pensar pueril, que o anexim era cruel.
Vejo-me, adolescente, calcorreando velhas ruas tripeiras na companhia de amigo inseparável, que o tempo separou.

Vejo-me, em Bragança, a cumprir o dever à Pátria; e revejo, de olhos orvalhados de gratidão, o primo que cuidou com amor paternal.
Vejo-me, enrubescer de pejo, ao inquerirem, diante de meus companheiros de folguedo : - Por que não estuda, se tão inteligente é!? Como iria explicar! …. se passava horas de profunda mágoa por não conseguir acompanhar os condiscípulos!
Quis Deus ou a bondade dos professores, que chegasse ao ensino superior!
Mas nem tudo foram lágrimas. Passei férias encantadoras no Vale da Vilariça. Conheci gente maravilhosa e amiga, e duas garotinhas, que alegraram, em terras transmontanas, a soledade; meninas que encheram o sofrido coração, de infindas alegrias.

Agora vivo de saudade, ladeado de livros e de amigos, que persistem em o ser.
Ao observar pálidas e amarelecidas fotos; objectos que foram de meus avós e pais; ao ver as cantarinhas de tosco barro, ofertadas em tépida e risonha tarde de Primava, no vetusto burgo de Bragança, afloram-me, aos fatigados olhos, sofridas lágrimas de saudade… e compreendo, que o tempo que passou, já não é.
Avivam-se na memória, reminiscências de outrora, por feliz magia, tudo se afigura presente. Animam-se, ganham vida e renascem cenas, tão vivas, tão coloridas, que chego a pensar, que o tempo passado, ainda é.

Oiço – como ouço! - o falar dolente da minha mãe enferma; e sinto, enternecido, o aconchego de sua mão, cor de areia….e, arrepiado, como se corrente electrictrizante percorresse a espinhal medula, pressinto, ainda, remotos e ancestrais medos, que escurentaram a nem sempre feliz meninice.

Alegrias, tristezas, amizades, amores…convivem comigo, como se nunca deixasse de ser menino. Tudo e todos, conservo dentro de mim …tudo e todos, guardo no coração…

Humberto Pinho da Silva

Humbertopinhosilva@sapo.pt


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