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A polêmica lançada sobre a Lei Seca, que
pune motoristas que tenham ingerido qualquer quantidade alcoólica,
é uma medida radical, indiscutivelmente, presumivelmente
arbitrária. Mas poderemos modificá-la, não eliminá-la, na medida
em que ratifica eficazmente a legislação. Os protestos sobre sua
edição vislumbram claramente a inferioridade do valor da vida e a
do lucro proveniente da atividade de venda de bebidas que,
argumenta-se, tem que ser preservado em nome da "liberdade". É bem
uma mostra da situação chegada em face de um sistema econômico que
elege os valores financeiros superiores aos da vida, como dos
empregos e dos impostos gerados pela indústria de armas, que matam
pessoas. Os exemplos concretos de eficácia da limitação alcoólica
são decisivos. Já na Constitunte poderosas manifestações
empresariais diziam da impossibilidade e sua aprovação, há vinte
anos.
Fala-se da pequena quantidade pemitida,
que é a única maneira de equalizar diferentes limites de efeito em
pessoas e estados alimentares diferentes. Não haveria outra forma
sob pena de continuar a liberalizarem-se as mortes. Ao estado cabe
a defesa do coletivo, diria Locke. A Lei Seca é o que precisavamos
neste país. Suspendeu-se a urgência a votação na Câmara federal a
Lei que proibia a propaganda alcoólica na TV, por pressões
insuportáveis da indústria que, argumentam, impedira o "direito de
informação" - que não é "informação", mas imposição. A propaganda
atinge o inconsciente - e não o consciente, daí a diferença -
ansioso pelo retôrno à força e à beleza juvenis supostamente
alcançadas, repletas de coragem e heroismo.
Liberdade é a consciência histórica da
necessidade, assertiva de Marx e Engels, que aceitam a tese de
Spinosa: liberdade é o conhecimento da necessidade, que escapa a
mera vontade. Spinosa afirmava que o homem determinado
externamente é escravo. Liberdade, na Constituição Francesa de
1791, é fazer tudo que fazer tudo o que não prejudique a outrem.
"Liberdade" de envenenar uma sociedade? Que liberdade é essa?
Pedra angular da democracia, como definiu Aristóteles, é positivo
seu direito quando faculdade individual de autodeterminação. Não
pode ser a liberdade e matar ou agredir o coletivo social com
venenos letais. A liberdade de comércio garantida
constitucionalmente deve, portanto, adequar-se às prioridades
sociais, dentro de uma ótica ampliada.
Enquanto se expõe na TV o falso heroismo
dos bebedores, que esconde as olheiras e sua tristeza real após 15
minutos, mata-se e morre-se.
Alcoolismo que importa em despesas que superam em muito às
arrecadadas em forma de impostos que geram: assistência médica,
danos materiais,
absenteismo no trabalho, dissoluções familiares. A plena liberação
do alcoolismo é a permissão de subversão social, não aquela
acusada pela
Ditadura Militar, mas outra geradora de morte e sofrimento. Os
prejuízos de curto, médio e longo prazo são enormes, destruindo
famílias e vidas pelo alcoolismo, degradando a juventude e
incentivando a prática de atos anti-sociais. "Necessidade"
coisificada e imposta pela propaganda, induzir ao alcóol é
axiologicamente negativo.
Os índices brasileiros de mortes por
acidentes automobilisticos gerados a partir da ingestão alcoólica
são os maiores do mundo, sem contar todos os crimes e acidentes -
e isso deve equivaler à radicalidade legal. A liberação é sempre
em defesa do "direito" ao lucro. E os grandes e pequenos juristas
e pseudo-comentaristas ainda discutem se o importante é a
elaboração de novas leis ou fazer cumprir as antigas. Enquanto se
morre e se mata eles discutem, indiferentes à violência das ruas.
A economia de vidas nestes curtos dias da Lei Seca demonstra por
si sua utilidade prática. Vamos amenizá-la, aperfeiçoá-la, mas
lembremos quantas crianças, mulheres, homens, futuros foram
poupados. Louvemos os que tiveram a coragem de introduzi-la e
torçamos para sua permanência, em nome da vida.
Ademir Pestana
Vereador em Santos/São Paulo
www.ademirpestana.com.br
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