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Desde que teve início o recente tempo
eleitoral no Zimbabué que tenho podido acompanhar mais uma das
típicas e constantes manifestações europeias de hipocrisia,
defendendo nuns casos o que não pratica noutros.
A prova de que tenho razão tornar-se-á
muitíssimo clara se nos recordarmos, por exemplo, do verdadeiro
genocídio que tem vindo a ter lugar, desde há uns bons anos a esta
parte, no Darfour, sem que a União Européia e os Estados que a
constituem tenham feito um gesto com efeitos mínimos. Tudo se tem
ficado por meras palavras, nas televisões ou em artigos académicos.
Mas podemos também recordar o caso dos
voos da CIA e das correspondentes prisões em locais diversos da
União Européia. E que foi feito dos culpados? Acaso se fez luz
sobre o que se percebe facilmente ter-se passado? Claro que não! E
não teria de ser este o desfecho? Ora, pois claro que sim!
E porque não recordar Augusto Pinochet,
que acabou mesmo por ser alvo de honras militares no seu funeral,
para mais com a patética presença da ministra da Defesa, que
também no Chile persiste em continuar a dizer-se socialista...?
Todo este hipócrita comportamento
político da União Europeia, e dos países que a constituem, está
igualmente presente nessa violação histórica que foi a dita
independência do Kosovo, ao mesmo tempo que vão continuando a
contemporizar com essa outra violação histórica que tem lugar no
País Basco. Uma tremenda hipocrisia!
Ora, se é verdade que no caso do Zimbabué há uma indiscutível
violação de direitos, liberdades e garantias dos cidadãos
nacionais que discordam da política de Robert Mugabe, também é
verdade que tal violação está a anos-luz do que se vem passando no
Darfour, ou do que se passou no Chile, ou, porventura, das mil e
uma violações de tipo diverso que tiveram lugar no caso dos voos
da CIA e dos seus prisioneiros.
O que se tem visto em torno da
reprovação do Tratado de Lisboa pela Irlanda, mostra que este caso
do Zimbabué só muito marginalmente tem a ver com a violação da
democracia e dos direitos humanos por tais paragens, sendo, acima
de tudo, consequência da nacionalização dos bens de cidadãos
britânicos por parte do poder político liderado por Robert Mugabe.
Com ou sem democracia, o que mais interessa aos
ingleses, que tanto se opõem a Mugabe, são os bens que lhes foram
confiscados.
Não admira, pois, que os europeus
acreditem cada vez menos na União Européia e nos seus líderes,
seja pelo crescimento rápido da pobreza que os está já a atingir,
seja porque já terão percebido que a União Europeia hoje em
construção está muito longe de se poder considerar um espaço de
real vivência democrática. Como não ter medo, pois, de referendar
o Tratado de Lisboa?!
Hélio Bernardo Lopes
De Portugal
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