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Semanas atrás, hackers apagaram a página
de internet da CPLP, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.
Nada de mais, não é? No mundo virtual, o que mais existe são
hackers, destruindo tudo o que encontram pela frente. Mas, como
sou um entusiasta da integração entre os povos lusófonos, preferia
que a CPLP levasse essa provocação a sério. Penso que pode ser uma
ótima oportunidade para fazer uma “autocrítica”, reavaliando os
seus conceitos e forma de atuação.
Acima de qualquer questionamento,
reconheço a importância da CPLP e acredito no seu futuro. Em pouco
mais de uma década de existência, a entidade realizou ações
exemplares e mostrou o seu valor, como no apoio à Guiné-Bissau e
Timor-Leste. Sinceramente, penso que a simples existência da
Comunidade já é uma vitória. Não deve ser fácil unir oito países,
de quatro continentes e com grandes problemas internos a resolver,
em torno de um ideal comum.
Mas, recentemente, dois acontecimentos
envolvendo pontos-chave da CPLP me deixaram bastante apreensivo.
Primeiro foi a aprovação do polêmico
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Apesar de ser conhecido
desde 1990, o tratado gerou acaloradas discussões no processo de
adesão de Portugal. Dos políticos aos humoristas, sobraram
críticas como: “nos obrigarão a falar brasileiro” ou “a Língua
Portuguesa é nossa”. Como já disse, também tenho reservas ao
acordo, mas acho que nada justifica essa postura. Não seria mais
produtivo ter participado ativamente da sua construção?
O segundo fato estranho foi o anúncio da
criação da Universidade da CPLP pelo Brasil. A notícia, que pegou
a todos de surpresa, foi dada pelo Chanceler Celso Amorim em
abril, numa visita à Guiné-Bissau. Em busca de mais informações,
pesquisei os sites da CPLP, do Ministério das Relações Exteriores,
do Ministério da Educação... e nada! Acabei enviando um e-mail
para o MRE. Recebi como resposta que “o projeto ainda está em fase
embrionária”.
Acabei encontrando o que procurava no
blog do ex-Ministro Zé Dirceu. Segundo ele, a instituição deverá
iniciar suas atividades em 2010 na cidade de Redenção, no interior
do Ceará. Terá 10 mil vagas e cursos nas áreas de administração,
agricultura, educação e saúde. Metade dos alunos deverá vir da
África e Timor. Curiosamente, em nenhum momento citaram Portugal.
Por outro lado, também li artigos lusos acusando o Brasil de
“tomar o lugar que é seu de direito na África”.
Ao analisar essas situações e,
principalmente, os comentários gerados dos “dois lados do
Atlântico”, passei a considerar que a CPLP corre o sério risco de
ser reduzida a um mero “cabo de guerra” entre Brasil e Portugal.
Nosso passado em comum, afinidades culturais, fartas
possibilidades de intercâmbio e o respeito mútuo parecem
interessar cada vez menos. O “novo jogo” pode ser apenas uma
disputa entre a velha e a nova “metrópole” pela soberania do mundo
lusófono.
Espero estar enganado. Ou, se estiver
certo, torço para que a CPLP aproveite o alerta do hacker para
corrigir o seu rumo. Mas, se o futuro se resumir mesmo a uma
disputa por “quem mima mais”, aproveito para deixar um aviso aos
“novos colonizadores”: preparem os bolsos que os Estados Unidos,
China, França, Austrália, entre muitos outros, também estão no
páreo!
“A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?”
Carlos Drummond de Andrade em “José”
Douglas Cavallari de
Santana
Publicado na seção “Iscas Intelectuais - Lusófonas” da página de
Internet do comunicador Luciano Pires -
www.lucianopires.com.br.
Para saber mais:
• CPLP (www.cplp.org): página da Comunidade dos Países de Língua
Portuguesa.
• Zé Dirceu (www.zedirceu.com.br): página oficial do ex-Ministro
da Casa Civil do governo Lula. Traz informações sobre a
Universidade da CPLP.
• Acordo Ortográfico (http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Ortogr%C3%A1fico_de_1990):
página da Wikipédia com todos os detalhes sobre o tratado.
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