|
Acompanhando um
telejornal da noite, vi uma reportagem que dava conta de que o
Governo do Distrito Federal estava preste a entrar em litígio
contra uma comunidade indígina para retirá-los de seu habitat com
o objetivo de construir no local um empreendimento imobiliário que
seria o metro quadrado mais caro de Brasília, que deveria custar
cerca de R$ 6 mil.
o índio entrevistado
disse que não sairia de suas terras em respeito aos seus
antecepassados, e comentou sobre a morte do índio Galdino.
Abrindo um parênteses:
quem não se lembra de uma das maiores injustiças ocorridas em
nosso país? O assassinato do índio Galdino, morto por jovens da
classe média alta de Brasília, que ateou fogo em seu corpo
enquanto dormia em uma praça pública. Hoje estão todos livres,
inclusive um deles se tornou funcionário público.
Enquanto assistia a
referida reportagem, eu me recordava da questão envolvendo os
índios da reserva Raposa Terra do Sol. E me perguntava: quem
chegou primeiro lá, os índios ou os arrozeiros? Claro que não
precisamos de muito esforço para saber a resposta.
Nesse episódio pude
ouvir e ler diversas entrevistas sobre o assunto. Ouví o
governador de Roraima afirmar em vários canais de televisão que os
índios não precisam de mais terras. Lí manifestação do General
Augusto Heleno, afirmando que a homologação das terras de forma
contínua seria uma afronta a soberania nacional. Também ouvi o
Ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello fazer
sarcasmo com o fato da demarcação.
Aqui destaco parte de
uma entrevista do ex-ministro Rubens Ricupero, concedida à Revista
Forum de junho desse ano, onde ele defende a demarcação da reserva
Raposa Serra do Sol, e assegura que os indíginas nunca foram
entrave para garantir a segurança das fronteiras.
"O fundamental é que os
povos indíginas nunca representaram nenhum tipo de problema para
as fronteiras, foram colaboradores valiosíssimos das comissões
demarcadoras. No trabalho das comissões demarcadoras, os índios
foram indispensáveis, porque conheciam o terreno, serviam de
canoeiros e de guias. Conheço bem o tema e desafio qualquer pessoa
a citar um caso concreto em que não pudemos delimitar um metro de
divisas porque havia uma reserva indígina. Um índio não tem a
propriedade da terra. Pela Constituição brasileira, não pode
vender, alienar nem nada, a não ser ele mesmo usufruir. Os
arrozeiros querem a propriedade, querem esbulhar o povo
brasileiro, porque vão especular, vender, alugar".
Nos dois casos em tela,
vemos o tamanho da ganância em que as pessoas estão mergulhadas,
inclusive pessoas que deveriam em tese defender os direitos dos
índios, são elas as maiores defensoras da usurpação. Ignoram a
verdade de que quando os portugueses chegaram aqui, as terras já
estavam ocupadas pelos indíginas. Foram esses os primeiros a
tomarem dos índios o seu espaço.
Espero que nossa justiça
ao analisar os dois casos, haja de fato com justiça e devolva aos
índios o que os homens brancos lhe roubaram. Reconheça os seus
direitos e permita que continuem morando onde enterraram os seus
antepassados. Que possam continuar cultuando e exercitando a sua
crença, para a perpetuação de sua cultura e do seu povo. Dê ao
índio o que é do índio, e que todo dia seja dia de índio.
"Cada um sabe a dor e
delícia de ser o que é"
Paulismar Duarte
|