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No passado, os políticos
costumavam dizer que o Brasil tinha tudo para dar certo – uma
frase que era o reconhecimento implícito de que, não obstante
condições favoráveis, o país continuava a não progredir à medida
dessa esperança.
Hoje, ao olharmos para
os índices económicos, embora inseridos numa conjuntura mundial
que está longe de mobilizar optimismos, fica-se com a sensação de
que a economia brasileira conseguiu garantir uma impressionante
cumulação de sinais positivos que podem, por uma vez, ajudar a
transformar o eterno país do futuro num ágil gigante do presente.
Com uma política
macroeconómica que soube escapar às tentações do
desenvolvimentismo imediatista, porque preocupada em evitar o
regresso dos fantasmas inflaccionistas, o Brasil atravessa hoje um
momento de saudável crescimento sustentado, susceptível de
continuar a gerar o afluxo de capitais externos, como os “ratings”
internacionais atestam.
Ao longo de mais de uma
década, os operadores portugueses não deixaram de ser sensíveis às
oportunidades que o Brasil proporcionou. Fizeram-no numa escala
acima de muitas expectativas, quase sempre com um elevado grau de
profissionalismo e com apostas sectoriais que, na maioria dos
casos, se provaram correctas.
Porém, é óbvio que, no
contexto geral da economia brasileira, a participação portuguesa
continua a ter uma dimensão pouco mais do que correspondente à que
o nosso próprio tecido empresarial assume à escala global e, de
certo modo, limitada por parte dele se ter deixado seduzir por
mercados com maior e mais rápida rentabilidade.
Interessante tem sido
verificar que, a nível de pequenas e médias empresas, em alguns
sectores tecnológicos de alguma sofisticação, começa a destacar-se
no Brasil uma actividade portuguesa mais agressiva, que responde,
na prática, à sede de mercado que operadores nacionais desses
novos sectores conseguem aqui satisfazer.
Um importante impacto
deste esforço empresarial reside no facto dele ter sinalizado uma
clara mudança do paradigma no tipo de presença portuguesa neste
país. E isso teve, há que reconhecer, um reflexo interessante na
imagem geral de modernidade de Portugal no imaginário brasileiro,
com efeitos positivos em alguns domínios mais imateriais e com
significado real noutros contextos das nossas relações bilaterais.
Nos últimos anos, o
turismo veio a acrescer outra vertente à presença portuguesa, quer
pelos fluxos de visitantes sazonais, quer pelo aparecimento de
empreendedores portugueses que foram capazes de se impor, com uma
qualidade que surpreendeu, na execução de projectos de valia, com
resultados concretos no esforço de qualificação da oferta “sol e
mar” em alguns Estados do Nordeste. A isto acresceu uma já
significativa afirmação portuguesa na oferta hoteleira
tradicional, sector onde o Brasil tem à sua frente um enorme
potencial de crescimento.
Face mais evidente e
destacada desta imagem empresarial de Portugal, a TAP ofereceu a
muitas regiões do Brasil verdadeiras “auto-estradas” para a sua
abertura externa, contribuindo para saltos de desenvolvimento
impossíveis de concretizar de outra forma.
Com um realismo face à
própria dimensão e às limitações derivadas da elevada
competitividade deste mercado, também sectores de serviços, como a
banca, estão a saber encontrar oportunidades e a conseguir
colocar-se no Brasil a um nível compatível com o grau de
eficiência que haviam atingido em Portugal.
Algum desapontamento há
que ter, contudo, ao olharmos para os números das exportações
portuguesas para o Brasil – e quero, desde já, deixar bem claro
que sou testemunha privilegiada do imenso esforço que o ICEP/AICEP
fez neste domínio, nos últimos anos. As taxas anuais de
crescimento das trocas chegam a ser impressionantes, mas apenas se
lidas de forma isolada dos valores absolutos que traduzem. O que
mais choca, porém, é a demasiado lenta mudança do leque de
produtos exportados, a contínua fixação em produtos de escasso
valor acrescentado, parte do quais corre o risco, aliás, de poder
vir a sofrer uma inversão no seu actual crescimento no mercado
brasileiro, no caso de vir a registar-se uma súbita acção
agressiva de alguns fortes competidores internacionais que actuam
nesses sectores.
Num país como o Brasil,
com um tecido administrativo e burocrático peculiar e muito
diverso, com uma cultura de comportamento de agentes económicos e
oficiais frequentemente dependente de factores pouco
transparentes, controláveis e previsíveis, temos também que ter a
franqueza de dizer que nem tudo são rosas para os operadores
estrangeiros.
O Brasil é um país com
uma cultura proteccionista muito firmada, onde alguns obstáculos
pautais e não pautais, agravados por limitações logísticas e de
infraestruturas, acabam, por vezes, por esmagar margens de lucro e
desestimular operadores. Mas não é sem orgulho que nos é possível
afirmar que, não obstante tais condicionalismos, conseguimos já
hoje superar uma agenda de contencioso económico-comercial
bilateral que se arrastava há anos e que se encontra praticamente
“zerada”, como por aqui se diz.
Problemas de outra
natureza ainda subsistem, em especial em investimentos portugueses
no sector da construção em zonas turísticas. Sem colocar em causa
a imperatividade da defesa dos valores ambientais, do património e
dos direitos das comunidades indígenas, torna-se muito importante
que seja criado um quadro de segurança jurídica sólida para os
investimentos, isento de surpresas, os quais não podem continuar a
ser vítimas de inopinadas contradições entre instâncias
decisórias, com atrasos na implementação dos empreendimentos, que,
a prazo, podem desmotivar futuros fluxos de capital.
Porém, que fique muito
claro: todas estas dificuldades são a face menor de um mundo de
grandes oportunidades que a economia brasileira hoje oferece aos
nossos operadores económicos, os quais podem sempre contar com o
apoio e o acompanhamento dos serviços oficiais portugueses que
actuam no Brasil.
Artigo publicado pela
revista Portugal Global, editada pela AICEP Portugal.
Francisco Seixas da
Costa
Embaixador de Portugal no Brasil,
especialmente para o Jornal Mundo Lusíada
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