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Por Francisco G. de Amorim


Segunda-feira | 16 JUN 08

“... descendente, de quem ?”

Sobretudo nos EUA um indivíduo, se tiver a pele mais escura do que o “padrão” estabelecido, ou é índio ou latino ou afro-descendente! Os do “padrão” - importados também - são simplesmente americanos e por isso se julgam donos do pedaço! Devagar o tempo vai mostrando que esse tal padrão foi mal escolhido!

Eu que serei descendente de iberos e incógnitos, de iemenitas do sul – um dos primeiros povos a chegar à Península Ibérica – fenícios e gregos, cartagineses, berberes e negros, celtas e bascos, suevos e alanos, godos e visigodos, romanos e árabes, e certamente de lusitanos, com 50% de antepassados nascidos no Brasil, vindos possivelmente dessa mesma misturada, vou-me classificar como? Poderia até ser banto-descendente, já que banto nada mais significa do que “gente”! Só encontro enfim uma designação “multi-descendente”, o que me deveria dar direito a um passaporte (coisa estúpida, inventada, segundo dizem, pelos franceses no século XVI) emitido por mais de cinqüenta países!

A verdade é que quando se trata de um americano mais escuro lá vem o irritante carimbo de “afro-descendente”!

O século XX foi pródigo em nos dar exemplos de grandes, grandes, personagens de África, no topo dos quais não hesito em colocar Nelson Mandela. Mas não só: Leopold Senghor, Martin Luther King, Pelé e Eusébio, Desmond Tutu, Sidney Poitier, Louis Armstrong e muitos outros que Deus sabe o quanto lutaram para se impor.

Agora, depois de se assistir a praticamente todos os desportos serem dominados pelos africanos, desde Tiger Woods há 500 semanas à cabeça do ranking mundial, num desporto que em princípio estava – e ainda é – muito reservado à classe dominante, Lewis Hamilton na Fórmula 1 e o jovem francês Monfils com as irmãs Williams no tênis, Ronaldo, Ronaldinho e Zidane, Oprah Winfrey, a celebridade mais admirada em todo o mundo ocidental, ao imenso escol de artistas musicais em todo o gênero, surge na constelação das estrelas americanas um fenômeno novo: Barak Obama.

Jovem, boa pinta, culto, educado, admirado no mundo inteiro, desafiando o status quo dos americanos racistas, representa, sem que as pessoas saibam exatamente porque, uma esperança nova para este mundo cansado de guerras e de inflação provocada artificialmente.

Já torci mais pelo Obama, para que ganhasse as prévias, do que jamais me aconteceu com qualquer outra eleição no mundo. E já vi muitas. Muitas. Em que os candidatos ou não apresentavam nada de novo ou pelo contrário se apresentavam como uma solução retrógrada e perigosa para o país. Vi isso acontecer e... continuo a ver!

Obama traz uma esperança grande, não só aos americanos que talvez deixem de ser chamados afro-descendentes, para serem unicamente o que são, americanos, da mesma maneira que os índios americanos também deveriam deixar de ser chamados de índios ou mongólico-descendentes (se é que vieram do interior da Ásia), a todos os povos que podem, e devem, assistir a um decrescer das atitudes racistas.

Ainda não foi eleito presidente dos EUA. E vai ter uma luta grande para chegar ao topo. Consegui-o Nelson Mandela, Tiger Woods e muitos outros. O meu voto é do coração, mesmo meio estropiado como já está.

E fica uma outra esperança para o Brasil: que este inepto desgoverno entenda que brincar de racismo é feio, sujo e perigoso. Cheira a interesses escusos. E é. Mais ainda no Brasil onde esse racismo está a ser FABRICADO.

Francisco G. de Amorim

Do Rio de Janeiro, Brasil


 

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