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Divulgação
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Ontem, ao perpassar pela
estação ferroviária de S. Bento, deparei com vendedeira,
vociferando a alta voz: “É p’ro menino e p’ra menina “
e, com saudade, recordei velhos tempos, quando, pela mão de
minha mãe, ia ao mercado do Bolhão.
Decorreu mais de meio
século! - Deus meu !, como o tempo passa!…
Após o almoço, minha
mãe, aprontava-se: pousava nos negros e encaracolados cabelos,
vistoso chapéu, aformoseado a penas azuis, cor de anil.
No Jardim do Morro
tomávamos o elétrico de “bigodes”, e assentados na palhinha
envernizada, atravessávamos a ponte de D. Luís, apeando-nos no
Teatro de S. João.
Descíamos depois Santo
António. Uma, trás outras, as viaturas caminhavam,
preguiçosamente, para a Praça.
Caixeiras, de mangas
arregaçadas e tamancos rústicos de celeiro, entregavam-se à
laboriosa limpeza de montras; nos passeios, calçados a lajes, rio
interminável de pessoas, desciam e subiam, lentamente.
Nos “Congregados”,
vendedores, diante de improvisadas bancas, apregoavam
algaraviadas, que minhas pueris orelhas mal alcançavam.
Havia trôpega mulher, de
pernas encaroçadas e chinelos de liga, que barregava: “Oitenta
anedotas de Bocage, por dez tostões!”- bom tempo, em que um
escudo valia oitenta anedotas!….; e, efetuando contrafeito
sorriso, rematava: “É um fartar de riso, apenas por dez
tostões!”
Arrimada à ombreira de
pedra da igreja, vizinha da tabacaria, mocinha, de meigos olhos
verdes, oferecia num trejeito dengoso: “Olha o bom embuçado da
Régua! É o autêntico rebuçado da Régua!”.
Na praça, que é da
Liberdade, mas já foi Nova, ardinas de sujas alparcatas ,
vociferavam ardentemente, à compita: “Janeiro, Comééércio!, ó
Notícias!…” No chão, rimas imensas de “Séculos Ilustrados” e
“Flamas ”.
Em “Sampaio Bruno”, o
transito deslizava em fila continua.. Perto da esquina do “Banco
de Londres” - há muito desaparecido - ceguinho, de rosto enrugado,
tangia violino; aos pés, na caixa ferruginosa, luziam moedas de
níquel.
Amparado por muletas, de
rosto vermelhusco, barba em ponta, homem roliço, gritava:
“Olha a sorte! Anda hoje! É mais barato que na casa! Onze escudos!
É a onze !…”
Junto a mesa
improvisada, forrada a flanela verde, cavalheiro, de
gravata rubra e colete cetim negro, conclamava: “É estojo
completo. Só doze mil e quinhentos! Caneta permanente,
esferográfica e lapiseira! Não é imitação!
Autentica, importada da Alemanha!”
De pés encardidos e
longas sais de chita a roçar a calçada, miúdas, travando a luva de
pelica ,de minha mãe, suplicavam em tom lamurioso: “Compre!
Compre!… É barato!… Esticadores para colarinhos! Seis e dez
tostões!…”
Na “Brasileira”,
palestravam senhores sisudos, engravatados, revestidos de boa
fazenda. Uns, de pé, altercavam, cortando e recortando o ar a
gestos largos; outros, sentados, liam calmamente o matutino,
diante de chávena meia cheia.
Ouvia-se rumor de vozes,
frases soltas: É a choldra nacional! Salazar… E
agora?!...Política de Saudade! Sempre baixos salários!… entre
tinir de xícaras e colheres. Pelo ar , pairava agradável e doce
aroma a café fresco.
Em “Sá da Bandeira”,
escorria a luz do Sol, pelas fachadas de velhos prédios, tombando,
em alvos lençóis, no polido granito dos paralelepípedos.
Parávamos diante do
teatro para comprar banana. De macacão azul, homem esquelético,
apartava de carro de madeira mal aparelhado, a fruta; e pesava-a,
célere, na balança de dois pratos.
No Bolhão, á porta Sul,
sobraçando cesta de verga, mulher lançava, a gritos, o pregão:
“Quem quer Limões à zalhos!…”
De saia arregaçada,
carregando à cabeça, acastelados utensílios de madeira, feitos em
Paredes, sempre a andar, mulher apregoava em voz esganiçada: “Merca
cruzetas, bancos, apanhadores e caixões de lavar!…”
Havia ainda a vareira,
que vendia sardinha de Espinho; o biscoiteiro de Valongo; o graxa,
de mãos encardidas, e a vendedeira de violetas; sumida na
penumbra de portal, do outro lado da rua, velhinha oferecia
envergonhada, paninhos de crochet.
Tudo morreu! Tudo
repousa no esquecimento…. A cidade transformou-se: novas ruas,
novos edifícios, novos costumes….
Ficou a saudade da
antiga cidade do Porto, onde se deambulava de madrugada, sem
receio de perder bolsa, e pior ainda: a vida.
Nessa recuada época,
havia paz; a baixa era sala de visita , de recreio do portuense,
que na maioria, não tinha posses de veranear na estranja, nem
dinheiro para gastar em lautas ceias.
Bons tempos!…
Humberto Pinho da
Silva
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