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Por Humberto Pinho da Silva


Segunda-feira | 16 JUN 08

“Quando se apregoava na Cidade do Porto”

Divulgação

Ontem, ao perpassar pela estação ferroviária de S. Bento, deparei com vendedeira, vociferando a alta voz: “É p’ro menino e p’ra menina “ e, com saudade, recordei velhos tempos, quando, pela mão de minha mãe, ia ao mercado do Bolhão.

Decorreu mais de meio século! - Deus meu !, como o tempo passa!…

Após o almoço, minha mãe, aprontava-se: pousava nos negros e encaracolados cabelos, vistoso chapéu, aformoseado a penas azuis, cor de anil.

No Jardim do Morro tomávamos o elétrico de “bigodes”, e assentados na palhinha envernizada, atravessávamos a ponte de D. Luís, apeando-nos no Teatro de S. João.

Descíamos depois Santo António. Uma, trás outras, as viaturas caminhavam, preguiçosamente, para a Praça.

Caixeiras, de mangas arregaçadas e  tamancos rústicos de celeiro, entregavam-se à laboriosa limpeza de montras; nos passeios, calçados a lajes,  rio interminável de pessoas, desciam e subiam, lentamente.

Nos “Congregados”, vendedores, diante de improvisadas bancas, apregoavam  algaraviadas, que  minhas pueris orelhas mal alcançavam.

Havia trôpega mulher, de pernas encaroçadas e chinelos de liga, que barregava: “Oitenta anedotas de Bocage, por dez tostões!”- bom tempo, em que um escudo valia oitenta anedotas!….; e, efetuando contrafeito sorriso, rematava: “É um fartar de riso, apenas por dez tostões!”

Arrimada à ombreira de pedra da igreja, vizinha da tabacaria,  mocinha, de meigos olhos verdes, oferecia num trejeito dengoso: “Olha o bom embuçado da Régua! É o autêntico rebuçado da Régua!”.

Na praça, que é da Liberdade, mas já foi Nova, ardinas de sujas alparcatas , vociferavam ardentemente, à compita: “Janeiro, Comééércio!, ó Notícias!…” No chão, rimas imensas de “Séculos Ilustrados” e “Flamas ”.

Em “Sampaio Bruno”, o transito deslizava em fila continua.. Perto da esquina do “Banco de Londres” - há muito desaparecido - ceguinho, de rosto enrugado, tangia violino; aos pés,  na caixa ferruginosa, luziam moedas de níquel.

Amparado por muletas, de rosto vermelhusco, barba em ponta,  homem roliço, gritava: “Olha a sorte! Anda hoje! É mais barato que na casa! Onze escudos! É a onze !…”

Junto a mesa  improvisada, forrada a flanela verde, cavalheiro, de gravata rubra e colete cetim negro, conclamava:É estojo completo. Só doze mil e quinhentos! Caneta permanente, esferográfica e lapiseira! Não é imitação! Autentica, importada da Alemanha!”

De pés encardidos e longas sais de chita a roçar a calçada, miúdas, travando a luva de pelica ,de minha mãe, suplicavam em tom lamurioso: “Compre! Compre!… É barato!… Esticadores para colarinhos! Seis e dez tostões!…”

Na “Brasileira”, palestravam senhores sisudos, engravatados, revestidos de boa fazenda. Uns, de pé, altercavam,  cortando e recortando o ar a gestos largos; outros, sentados, liam calmamente o matutino, diante de chávena meia cheia.

Ouvia-se rumor de vozes, frases soltas: É a choldra nacional! Salazar… E agora?!...Política de Saudade! Sempre baixos salários!… entre  tinir de xícaras e colheres.  Pelo ar , pairava agradável e doce aroma a café fresco.

Em “Sá da Bandeira”, escorria a luz do Sol, pelas fachadas de velhos prédios, tombando, em alvos lençóis, no polido granito dos paralelepípedos.

Parávamos diante do teatro para comprar banana. De macacão azul, homem esquelético, apartava de carro de madeira mal aparelhado, a fruta; e pesava-a,  célere, na balança de dois pratos.

No Bolhão, á porta Sul, sobraçando cesta de verga, mulher lançava, a gritos, o pregão: “Quem quer Limões à zalhos!…”

De saia arregaçada,  carregando à cabeça, acastelados utensílios de madeira, feitos em Paredes,  sempre a andar, mulher apregoava em voz esganiçada: “Merca cruzetas, bancos, apanhadores e caixões de lavar!…”

Havia ainda a vareira, que vendia sardinha de Espinho; o biscoiteiro de Valongo; o graxa, de mãos encardidas, e a vendedeira de violetas;  sumida na penumbra de portal, do outro lado da rua, velhinha  oferecia envergonhada, paninhos de crochet.

Tudo morreu! Tudo repousa no esquecimento…. A cidade transformou-se: novas ruas, novos edifícios, novos costumes….

Ficou a saudade  da antiga cidade do Porto, onde se  deambulava de madrugada, sem  receio de perder  bolsa, e  pior ainda: a vida.

Nessa recuada época, havia paz;  a baixa era  sala de visita , de recreio do portuense, que na maioria, não tinha posses de veranear na estranja, nem dinheiro para gastar em lautas ceias.

Bons tempos!…

Humberto Pinho da Silva


 

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