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Meus amigos, leitores, convenhamos que à véspera do 10 de
Junho – Dia de Portugal, de Camões e
das Comunidades, por oportuno, nada mais apropriado do que
se falar abertamente sobre a Língua Portuguesa e o seu uso nos
dias de hoje, particularmente no Brasil.
Entretanto, observe-se que, contrariamente à atitude presunçosa de
alguns, não me classifico como expert na matéria e muito
menos como professor de português ou jornalista, nem tenho a
pretensão de ser qualificado como um intelectual, porém, na
condição de CIDADÃO COMUM, ouso manifestar-me sobre um tema que,
pressupostamente, apenas caberia ser abordado ou discutido por
experts ou por quem se julga pertencer a uma presunçosa
pseudo-intelectualidade. Veja-se que sempre me coloco na 1ª pessoa
do singular dos pronomes pessoais e nunca na 1ª pessoa do plural,
ou seja, uso o EU e não o NÓS, haja vista que sou apenas uma
pessoa como indivíduo. ... Coloquem-se, por favor! ... E que enfie
a carapuça a quem ela couber!
Pois bem, apesar de alguns alegarem que a linguagem em uso no
Brasil enriquece a Língua Portuguesa, inequivocamente isso
demonstra, no mínimo, uma falta de bom-senso por parte de quem
insanamente tece esse tipo de louvor. Por isso, desde já manifesto
que não vou ser nada condescendente com tal ponto de vista que, a
meu ver, atinge as raias do ridículo.
Atente-se que o Português falado no Brasil está ultrapassado há
várias décadas, quiçá seja até uma questão com registro secular.
Isso, inclusive, segundo opinião de alguns intelectuais
brasileiros. Na verdade, em termos lingüísticos os “velhinhos
imortais” da Academia Brasileira de Letras pararam no tempo
e pecam por ser turrões ao extremo, visto que são eles o principal
obstáculo ao consenso, tal o radicalismo por eles adotado desde
longa data. E a própria imprensa local, tanto escrita, como falada
bem como a televisada, e os seus comunicadores profissionais
geralmente contribuem sobremaneira para esse estado de coisas,
tais os vícios da sua má-formação escolar ou até a falta de
empenho em o fazerem em defesa da qualidade da Língua que falam e
pela qual deveriam zelar.
Veja-se o caso da acentuação das palavras como, por exemplo, a
teimosia em impor que o Acordo Ortográfico permita
continuar a usar aqui no Brasil os termos “econômica”, “prêmio”,
“telefônica”, etc., com acento circunflexo; em vez de “económica”,
“prémio”, “telefónica”, etc., com acento agudo, respetivamente.
Isso não tem sentido algum. Afinal, que Acordo é esse? ...
Tudo leva a crer que se trata de mais um caso para “inglês ver”?
Sintetizando, quanto à eliminação das chamadas consoantes mudas,
como seja, por exemplo, o c em diversas palavras usadas em
Portugal e restantes países lusófonos, excetuando-se o Brasil que
não a usa nessas mesmas palavras, talvez até seja razoável, porém,
em Portugal em algumas dessas palavras essa consoante é
pronunciada como é o caso, por exemplo, da palavra “facto”, o que
impede a remoção dessa consoante, enquanto que no Brasil é “fato”,
portanto grafado e pronunciado sem essa consoante.
Da
mesma forma, há que considerar o caso similar da eliminação da
consoante p em diversas palavras, o que, em princípio,
seria viável, porém, observa-se que, por exemplo, o ato de receber
escreve-se com a mesma grafia em qualquer país lusófono sendo essa
consoante pronunciada exclusivamente no Brasil e, portanto, por
exemplo, pronuncia-se “recepção”, enquanto nesses outros países,
inclusive Portugal, pronuncia-se “receção”, porque, no caso, o
p é mudo. Eis, portanto, mais um contra-senso.
Isto posto, cabe aqui perguntar: qual a dificuldade em fazer as
correções ou adaptações necessárias nas palavras em uso no Brasil?
Isso sim, permitiria unificar a Língua Portuguesa e ela merece.
Portanto, que a Divina Providência ilumine os respeitáveis
senhores da ABL que, afinal, já têm “idadinha” suficiente
para ter um pouco de “juízo”.
Sabe-se que a Língua Portuguesa já sofreu metamorfoses em seu
percurso e, conseqüentemente, foi adequada à evolução dos tempos.
Sabe-se ainda que a Língua Portuguesa é latina na sua essência,
então pergunto: porque o Brasil é renitente em se ajustar à
realidade da Língua Mater em sua latinidade em vez
da insistência insana em pretender abrasileirar a Língua
desmistificando-a e, consequentemente, avacalhando-a, em suma,
“assassinando-a” sem dó nem piedade?
O
argumento de que há a prevalência de o Brasil ser territorialmente
o maior e também o mais populoso país lusófono, de per si nada
justifica. Afinal, aos 185 milhões de brasileiros contrapõe-se o
somatório de muitos outros milhões de habitantes distribuídos
pelos restantes países de expressão lingüística portuguesa
espalhados pelos quatro cantos do mundo, não esquecendo a ex-Índia
portuguesa composta pelos territórios de Goa, Damão e Diu, –
havendo ainda os 5,5 milhões da Diáspora, e todos respeitam a
Língua Mater, o Brasil não. Atente-se que não tenho nada
contra o Brasil nem contra os brasileiros mas é preciso reconhecer
que o Brasil é cria de Portugal, então?! ... Ora bolas!
Entendo que enquanto persistir essa maldita teimosia jamais será
viável a obtenção da tão almejada unificação ortográfica, o
que no mundo globalizado em que vivemos e considerando-se que,
segundo as estatísticas, a Língua Portuguesa é a 3ª língua
européia mais falada no mundo sendo a 5ª a nível mundial,
certamente que esse estado de coisas só acarretará em prejuízo
para todos os países lusófonos, ou seja, os oito países que
constituem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa
(CPLP), composta
por Portugal, Brasil, Angola, Moçambique,
Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe
e Timor Leste.
Ora vejam só, ... não era
à toa que já nos meus tempos de adolescente, lá pelos idos anos
50, em Portugal, era comum ouvir-se dizer que no Brasil se
“assassinava” o português, o que era o mesmo que dizer-se que a
Língua Portuguesa era muito maltratada aqui. Hoje, apesar de eu já
ter completado 36 anos de Brasil e, consequentemente, já viver há
mais tempo aqui do que vivi em Portugal, lamento que essa
realidade continue existindo. Chego a comentar que no Brasil
fala-se “Brasileiro”, tal a minha decepção. Alguns até dizem que
no Brasil fala-se
"Brasileirês".
... Vai-se fazer o quê? ... O problema é que fica difícil dormir
com um “barulho” desses! ... Lamentável!
Mas, a maior encruzilhada desta problemática é que
os erros linguísticos praticados no Brasil não existem só na
grafia mas também na fonética. Contrariamente ao cidadão
português, o cidadão brasileiro não escreve como fala e, por outro
lado, também não fala como escreve. E não se confunda pronúncia
com sotaque, haja vista que o grande mal é pronunciar as palavras
de forma errada, enquanto que, apesar dos pesares, o sotaque
brasileiro torna-se foneticamente mais perceptível do que o
sotaque português. Assim, a qualidade do sotaque brasileiro, em
sua essência, é um fator positivo porém com ressalvas pois que,
apesar dos méritos, existem alguns senãos gravíssimos no que
cocerne à fonética. Mas ressalve-se que adoro o “doce” sotaque da
minha querida Mãe Pátria e me orgulho disso.
Não pretendo entrar aqui no mérito da questão dos
erros ortográficos ou redatoriais praticados no Brasil, o que, no
caso, consideraria como uma questão de desculpável venialidade. A
levá-los em consideração iriamos entrar numa área que, por
inoportuna, a meu ver, não merece aqui perda de tempo ou de
espaço.
Também não cabe aqui discutir-se terminologias e calões, ou seja,
gírias, pois isso envolveria também questões étnicas e isso não
vem ao caso.
Entretanto, é imperdoável que, a qualquer nível
intelectual, se constate que os “pontapés na gramática” que aqui
no Brasil se dão são de lascar, como por exemplo, dizer-se “se eu
ver” em vez de “se eu vir”; ou, ainda, em vez de “se eu vier”
dizer-se “se eu vir”. Trocar o “isto aqui” pelo “isso aqui”; ou o
“este ano” por “esse ano”. Usar a expressão “mais eu estou legal”
em vez de “mas eu estou legal”. Usar o “para mim fazer” em vez de
“para eu fazer”. Ou, ainda, “isto é um mal exemplo” em vez de
“isto é um mau exemplo”. Por fim, vejam esta: “resolvi vim
para ficar” em vez de “resolvi vir para ficar”.
... E estes são
apenas alguns pequenos exemplos ... maus, é claro!
Como agravante, aqui no Brasil temos ainda uma
“coisa” absolutamente inexplicável que é o uso exacerbado do
gerúndio, o que, a meu ver, faz vislumbrar uma tendência para a
adoção da emitação da Língua Espanhola. Assim, parece-me que há
uma certa simpatia pelo “Espanholês”.
Também lhes chamo a atenção para o fato de que
vários amigos brasileiros formados a nível superior se queixam da
dificuldade de utilizar corretamente o uso da crase, o que é um
mal generalizado entre os brasileiros. O mais incrível é que
qualquer cidadão português de intrução primária a usa sem a mínima
dificuldade. Isto é bem significativo! ... Aliás,
circunstancialmente, sempre lhes exemplifico uma forma prática de
não errar nesse caso. Demonstro-lhes que isso não é nenhum “bicho
de sete cabeças”, com a garantia de que nessa área, modestamente,
não erro uma.
Sou da opinião que, conforme diziam os nossos
avós, “na terra onde estiveres faz como vires fazer” e assim parto
da premissa que estando no Brasil devo falar “Brasileiro”, porém
não me conformo em ter de falar o “Brasileiro” de forma errada e
muito menos aceito escrevê-lo de forma errada. Isto, em sã
consciência, eu não faço pois procuro escrevê-lo e falá-lo sempre
de forma correcta. Prezo-me de me empenhar em escrever
corretamente, tanto na versão portuguesa quanto na versão
brasileira. Aliás, atente-se que, obviamente, aqui falo com
sotaque brasileiro por ser mais adequado às circunstâncias visto
que isso facilita o diálogo no âmbito em que vivemos e, destarte,
o convívio social torna-se mais agradável até porque evita certas
atitudes discriminatórias quando não vermo-nos até,
circuntancialmente, alvo de chacota. Na verdade isso evita até
possíveis constrangimentos indesejáveis calcados na xenofobia,
mas, felizmente, trata-se de casos isolados.
Por outro lado observa-se que em Portugal os
brasileiros não se preocupam em falar com o sotaque português, o
que, afinal, seria natural. É que, na verdade não existe esse tipo
de discriminação em relação aos brasileiros que lá residem, o que
revela que são totalmente respeitados. O próprio “Felipão” é um
exemplo disso como já o fora o famoso Otto Glória nos idos anos
60.
Afinal, quem é que precisa de se corrigir, os
portugueses ou os brasileiros? Responderia que é tudo apenas uma
questão de mentalidade das autoridades brasileiras que deveriam
partir para uma remodelação que beneficiasse a qualidade do ensino
do Português no Brasil, abrindo as suas mentes para a
racionalidade. Não se pode aceitar a forma leviana com que
pretendem manipular a Língua Portuguesa tal qual uma
“brincadeirinha”, parecendo um simples “joguinho de palavras
cruzadas”.
Face às evidências, com que moral os veneráveis
velhinhos “os imortais” da Academia Brasileira de Letras
pretendem impor regras linguísticas espúreas em detrimento de um
consenso óbvio e construtivo. Não se pode fazer de conta que aqui
no Brasil se fala Português. Afinal, a Língua portuguesa não pode
ser loteada, ela não está à venda. Aliás, perdão, ... a Língua
Portuguesa é inalienável. E não é à toa que a defendo
ferrenhamente.
Para o bem comum, tudo deveria ser feito em
consenso em prol da preservação da qualidade e da genuinidade da
Língua Portuguesa! Afinal, os primórdios da Língua Portuguesa
remontam a vários séculos sendo, portanto, fundamental não a
vilipendiar. Caso contrário, seria o mesmo que condená-la à morte
transformando-a em meros dialetos a bel-prazer de cada país que a
tem como base de comunicação. Seria uma autêntica Babilónia com os
prejuízos daí inerentes. E, para quem não sabe, uma 7ª parte da
população mundial fala a Língua portuguesa.
A Língua Portuguesa é sagrada e o maior exemplo é
o legado que Camões – o grande símbolo da lusofonia
– nos deixou. Outrossim, destaque-se que, posteriormente,
Fernando Pessoa também a engrandeceu
sobremaneira ao dizer a célebre frase: “A minha Pátria é a
Língua Portuguesa!” ... Querem mais? ... Fica para outra vez!
Que Deus salve a Língua Portuguesa!!!
Gaspar Nunes
Rio de Janeiro
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