>> OPINIÃO ARTIGOS

 

 

AUMENTAR FONTE

F

F

F

F

Por Gaspar Nunes


Terça-feira | 10 JUN 08

O Conceito da Língua Portuguesa no Brasil

No mundo do faz de conta

Meus amigos, leitores, convenhamos que à véspera do 10 de JunhoDia de Portugal, de Camões e das Comunidades, por oportuno, nada mais apropriado do que se falar abertamente sobre a Língua Portuguesa e o seu uso nos dias de hoje, particularmente no Brasil.

Entretanto, observe-se que, contrariamente à atitude presunçosa de alguns, não me classifico como expert na matéria e muito menos como professor de português ou jornalista, nem tenho a pretensão de ser qualificado como um intelectual, porém, na condição de CIDADÃO COMUM, ouso manifestar-me sobre um tema que, pressupostamente, apenas caberia ser abordado ou discutido por experts ou por quem se julga pertencer a uma presunçosa pseudo-intelectualidade. Veja-se que sempre me coloco na 1ª pessoa do singular dos pronomes pessoais e nunca na 1ª pessoa do plural, ou seja, uso o EU e não o NÓS, haja vista que sou apenas uma pessoa como indivíduo. ... Coloquem-se, por favor! ... E que enfie a carapuça a quem ela couber!

Pois bem, apesar de alguns alegarem que a linguagem em uso no Brasil enriquece a Língua Portuguesa, inequivocamente isso demonstra, no mínimo, uma falta de bom-senso por parte de quem insanamente tece esse tipo de louvor. Por isso, desde já manifesto que não vou ser nada condescendente com tal ponto de vista que, a meu ver, atinge as raias do ridículo.

Atente-se que o Português falado no Brasil está ultrapassado há várias décadas, quiçá seja até uma questão com registro secular. Isso, inclusive, segundo opinião de alguns intelectuais brasileiros. Na verdade, em termos lingüísticos os “velhinhos imortais” da Academia Brasileira de Letras pararam no tempo e pecam por ser turrões ao extremo, visto que são eles o principal obstáculo ao consenso, tal o radicalismo por eles adotado desde longa data. E a própria imprensa local, tanto escrita, como falada bem como a televisada, e os seus comunicadores profissionais geralmente contribuem sobremaneira para esse estado de coisas, tais os vícios da sua má-formação escolar ou até a falta de empenho em o fazerem em defesa da qualidade da Língua que falam e pela qual deveriam zelar.  

Veja-se o caso da acentuação das palavras como, por exemplo, a teimosia em impor que o Acordo Ortográfico permita continuar a usar aqui no Brasil os termos “econômica”, “prêmio”, “telefônica”, etc., com acento circunflexo; em vez de “económica”, “prémio”, “telefónica”, etc., com acento agudo, respetivamente. Isso não tem sentido algum. Afinal, que Acordo é esse? ... Tudo leva a crer que se trata de mais um caso para “inglês ver”?

Sintetizando, quanto à eliminação das chamadas consoantes mudas, como seja, por exemplo, o c em diversas palavras usadas em Portugal e restantes países lusófonos, excetuando-se o Brasil que não a usa nessas mesmas palavras, talvez até seja razoável, porém, em Portugal em algumas dessas palavras essa consoante é pronunciada como é o caso, por exemplo, da palavra “facto”, o que impede a remoção dessa consoante, enquanto que no Brasil é “fato”, portanto grafado e pronunciado sem essa consoante.

Da mesma forma, há que considerar o caso similar da eliminação da consoante p em diversas palavras, o que, em princípio, seria viável, porém, observa-se que, por exemplo, o ato de receber escreve-se com a mesma grafia em qualquer país lusófono sendo essa consoante pronunciada exclusivamente no Brasil e, portanto, por exemplo, pronuncia-se “recepção”, enquanto nesses outros países, inclusive Portugal, pronuncia-se “receção”, porque, no caso, o p é mudo. Eis, portanto, mais um contra-senso.

Isto posto, cabe aqui perguntar: qual a dificuldade em fazer as correções ou adaptações necessárias nas palavras em uso no Brasil? Isso sim, permitiria unificar a Língua Portuguesa e ela merece. Portanto, que a Divina Providência ilumine os respeitáveis senhores da ABL que, afinal, já têm “idadinha” suficiente para ter um pouco de “juízo”.

Sabe-se que a Língua Portuguesa já sofreu metamorfoses em seu percurso e, conseqüentemente, foi adequada à evolução dos tempos. Sabe-se ainda que a Língua Portuguesa é latina na sua essência, então pergunto: porque o Brasil é renitente em se ajustar à realidade da Língua Mater em sua latinidade em vez da insistência insana em pretender abrasileirar a Língua desmistificando-a e, consequentemente, avacalhando-a, em suma, “assassinando-a” sem dó nem piedade?

O argumento de que há a prevalência de o Brasil ser territorialmente o maior e também o mais populoso país lusófono, de per si nada justifica. Afinal, aos 185 milhões de brasileiros contrapõe-se o somatório de muitos outros milhões de habitantes distribuídos pelos restantes países de expressão lingüística portuguesa espalhados pelos quatro cantos do mundo, não esquecendo a ex-Índia portuguesa composta pelos territórios de Goa, Damão e Diu, – havendo ainda os 5,5 milhões da Diáspora, e todos respeitam a Língua Mater, o Brasil não. Atente-se que não tenho nada contra o Brasil nem contra os brasileiros mas é preciso reconhecer que o Brasil é cria de Portugal, então?! ... Ora bolas!

Entendo que enquanto persistir essa maldita teimosia jamais será viável a obtenção da tão almejada unificação ortográfica, o que no mundo globalizado em que vivemos e considerando-se que, segundo as estatísticas, a Língua Portuguesa é a 3ª língua européia mais falada no mundo sendo a 5ª a nível mundial, certamente que esse estado de coisas só acarretará em prejuízo para todos os países lusófonos, ou seja, os oito países que constituem a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), composta por Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Ora vejam só, ... não era à toa que já nos meus tempos de adolescente, lá pelos idos anos 50, em Portugal, era comum ouvir-se dizer que no Brasil se “assassinava” o português, o que era o mesmo que dizer-se que a Língua Portuguesa era muito maltratada aqui. Hoje, apesar de eu já ter completado 36 anos de Brasil e, consequentemente, já viver há mais tempo aqui do que vivi em Portugal, lamento que essa realidade continue existindo. Chego a comentar que no Brasil fala-se “Brasileiro”, tal a minha decepção. Alguns até dizem que no Brasil fala-se "Brasileirês". ... Vai-se fazer o quê? ... O problema é que fica difícil dormir com um “barulho” desses! ... Lamentável!

Mas, a maior encruzilhada desta problemática é que os erros linguísticos praticados no Brasil não existem só na grafia mas também na fonética. Contrariamente ao cidadão português, o cidadão brasileiro não escreve como fala e, por outro lado, também não fala como escreve. E não se confunda pronúncia com sotaque, haja vista que o grande mal é pronunciar as palavras de forma errada, enquanto que, apesar dos pesares, o sotaque brasileiro torna-se foneticamente mais perceptível do que o sotaque português. Assim, a qualidade do sotaque brasileiro, em sua essência, é um fator positivo porém com ressalvas pois que, apesar dos méritos, existem alguns senãos gravíssimos no que cocerne à fonética. Mas ressalve-se que adoro o “doce” sotaque da minha querida Mãe Pátria e me orgulho disso.

Não pretendo entrar aqui no mérito da questão dos erros ortográficos ou redatoriais praticados no Brasil, o que, no caso, consideraria como uma questão de desculpável venialidade. A levá-los em consideração iriamos entrar numa área que, por inoportuna, a meu ver, não merece aqui perda de tempo ou de espaço.

Também não cabe aqui discutir-se terminologias e calões, ou seja, gírias, pois isso envolveria também questões étnicas e isso não vem ao caso.

Entretanto, é imperdoável que, a qualquer nível intelectual, se constate que os “pontapés na gramática” que aqui no Brasil se dão são de lascar, como por exemplo, dizer-se “se eu ver” em vez de “se eu vir”; ou, ainda, em vez de “se eu vier” dizer-se “se eu vir”. Trocar o “isto aqui” pelo “isso aqui”; ou o “este ano” por “esse ano”. Usar a expressão “mais eu estou legal” em vez de “mas eu estou legal”. Usar o “para mim fazer” em vez de “para eu fazer”. Ou, ainda, “isto é um mal exemplo” em vez de “isto é um mau exemplo”. Por fim, vejam esta: “resolvi vim para ficar” em vez de “resolvi vir para ficar”. ... E estes são apenas alguns pequenos exemplos ... maus, é claro!

Como agravante, aqui no Brasil temos ainda uma “coisa” absolutamente inexplicável que é o uso exacerbado do gerúndio, o que, a meu ver, faz vislumbrar uma tendência para a adoção da emitação da Língua Espanhola. Assim, parece-me que há uma certa simpatia pelo “Espanholês”.

Também lhes chamo a atenção para o fato de que vários amigos brasileiros formados a nível superior se queixam da dificuldade de utilizar corretamente o uso da crase, o que é um mal generalizado entre os brasileiros. O mais incrível é que qualquer cidadão português de intrução primária a usa sem a mínima dificuldade. Isto é bem significativo! ... Aliás, circunstancialmente, sempre lhes exemplifico uma forma prática de não errar nesse caso. Demonstro-lhes que isso não é nenhum “bicho de sete cabeças”, com a garantia de que nessa área, modestamente, não erro uma.

Sou da opinião que, conforme diziam os nossos avós, “na terra onde estiveres faz como vires fazer” e assim parto da premissa que estando no Brasil devo falar “Brasileiro”, porém não me conformo em ter de falar o “Brasileiro” de forma errada e muito menos aceito escrevê-lo de forma errada. Isto, em sã consciência, eu não faço pois procuro escrevê-lo e falá-lo sempre de forma correcta. Prezo-me de me empenhar em escrever corretamente, tanto na versão portuguesa quanto na versão brasileira. Aliás, atente-se que, obviamente, aqui falo com sotaque brasileiro por ser mais adequado às circunstâncias visto que isso facilita o diálogo no âmbito em que vivemos e, destarte, o convívio social torna-se mais agradável até porque evita certas atitudes discriminatórias quando não vermo-nos até, circuntancialmente, alvo de chacota. Na verdade isso evita até possíveis constrangimentos indesejáveis calcados na xenofobia, mas, felizmente, trata-se de casos isolados.

Por outro lado observa-se que em Portugal os brasileiros não se preocupam em falar com o sotaque português, o que, afinal, seria natural. É que, na verdade não existe esse tipo de discriminação em relação aos brasileiros que lá residem, o que revela que são totalmente respeitados. O próprio “Felipão” é um exemplo disso como já o fora o famoso Otto Glória nos idos anos 60.

Afinal, quem é que precisa de se corrigir, os portugueses ou os brasileiros? Responderia que é tudo apenas uma questão de mentalidade das autoridades brasileiras que deveriam partir para uma remodelação que beneficiasse a qualidade do ensino do Português no Brasil, abrindo as suas mentes para a racionalidade. Não se pode aceitar a forma leviana com que pretendem manipular a Língua Portuguesa tal qual uma “brincadeirinha”, parecendo um simples “joguinho de palavras cruzadas”.

Face às evidências, com que moral os veneráveis velhinhos “os imortais” da Academia Brasileira de Letras pretendem impor regras linguísticas espúreas em detrimento de um consenso óbvio e construtivo. Não se pode fazer de conta que aqui no Brasil se fala Português. Afinal, a Língua portuguesa não pode ser loteada, ela não está à venda. Aliás, perdão, ... a Língua Portuguesa é inalienável. E não é à toa que a defendo ferrenhamente.

Para o bem comum, tudo deveria ser feito em consenso em prol da preservação da qualidade e da genuinidade da Língua Portuguesa! Afinal, os primórdios da Língua Portuguesa remontam a vários séculos sendo, portanto, fundamental não a vilipendiar. Caso contrário, seria o mesmo que condená-la à morte transformando-a em meros dialetos a bel-prazer de cada país que a tem como base de comunicação. Seria uma autêntica Babilónia com os prejuízos daí inerentes. E, para quem não sabe, uma 7ª parte da população mundial fala a Língua portuguesa.

A Língua Portuguesa é sagrada e o maior exemplo é o legado que Camões – o grande símbolo da lusofonia – nos deixou. Outrossim, destaque-se que, posteriormente, Fernando Pessoa também a engrandeceu sobremaneira ao dizer a célebre frase: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa!” ... Querem mais? ... Fica para outra vez!

Que Deus salve a Língua Portuguesa!!!

Gaspar Nunes

Rio de Janeiro


 

© 2003-2008 Jornal Mundo Lusíada - Todos os direitos reservados.

Artigos assinados não exprimem propriamente a opinião do Mundo Lusíada Online.
Colunas e textos de opinião com assinatura são de responsabilidade de seus autores.