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Acaba de me chegar às mãos este livro
por deferência do distinto Escritor e Amigo Aníbal Pacheco, pelo
qual lhe fico muito agradecida.
Aníbal Pacheco, nesta obra, descreve muito bem a sua terra, sede
de freguesia de Pampilhosa da Serra. O nome é curioso e deriva
duma antiga lenda muito interessante, e tem a sua razão de ser.
Em tempos muito antigos esta freguesia
estava integrada no Concelho da Covilhã, pelo que em Unhais havia
um homem já idoso, mas crente, que ia a pé todos os Domingos à
missa, que, por maus caminhos e atalhos, seriam meia centena de
quilómetros. Um dia achou-se com coragem e foi falar com o Senhor
Padre, contando-lhe o esforço que fazia para cumprir o preceito
todos os Domingos. Comovido, o Prior prometeu interessar-se pela
construção duma Igreja na sua terra, mas nas condição de ele não
faltar durante um ano à missa dominical.
Era já o último Domingo e o velho ao
rigor dos temporais e frio que fazia, estava a ver que não cumpria
a promessa e o padre muito contente com isso… Até que o viram
entrar muito cansado dizendo: “cá está o Velho de Unhais!”
A Igreja foi então edificada em Unhais e daí ficou o nome de
Unhais – o Velho, sede de freguesia, com ruas estreitinhas e
várias aldeias em ser derredor. Tem por padroeiro S. Mateus que é
ainda festejado desde os mais remotos tempos, segundo arquivos da
sua Igreja, tendo sido ali realizadas profundas obras de
restauração e beleza em 1992. O povo gosta de manter o espírito
religioso dos seus ascendentes. Tem uma boa sede de Junta de
Freguesia e secção de quartel dos Bombeiros, uma Escola Primária,
um Posto Médico e Centro de Dia.
Desde sempre que aquelas famílias viviam
do amanho das terras e a actividade mineira da Panasqueira, ali
perto, também contribuía para a sua sobrevivência. Produzia – se
azeite, queijo, vinho, batatas, feijão, milho e centeio etc.
resumindo-se hoje a pequenas hortas tratadas por gente mais idosa,
pois os jovens saíram para os grandes centros.
Era no tempo que havia grandes rebanhos
de cabras que alegravam os campos e serras com o tilintar das
campainhas. Os automóveis eram os carros de bois que se viam a
passar pelas ruas, com velhos “motores” a chiarem nos rodados…
Mas era um viver alegre apesar de cansativo. As festas e romarias,
as esfolhadas na eira. Escola já havia onde aprenderam as
primeiras letras muitas crianças, que se viam agrupadas a brincar.
Já no século XX, 46 jovens dali passaram pelos bancos dos
seminários, e seis deles foram ordenados sacerdotes.
Na vida quotidiana do campo ajudavam-se uns aos outros em
companhia alegre e solidária. Muitas tradições e lendas deixadas
por gerações antigas serviam de entretenimento nas famílias. Os
bailes, as tocatas que se faziam em casas de recreio alegravam a
mocidade e dali se efectuavam muitos matrimónios.
Uma vida alegre e sã, trabalhosa também, mas vivia-se com a graça
de Deus, alimentando porcos, galinhas, coelhos etc.
Atualmente, as aldeias são muito menos
povoadas e fizeram – se tristes, porque só velhos e poucos ali se
mantêm por amor e recordação das suas leiras, e quantos há
sentados na soleira da porta a pensarem na grande transformação
que se deu nas povoações rurais, porque a terra é que nos dá vida
e é dela que vem o nosso sustento. Depois, também é penoso “o
armazenamento” nos Lares em ambiente doentio e pouco fraterno.
Hoje vive-se nas cidades em andares que
quase não se conhecem uns aos outros, cada qual vive para si, já
não há a satisfação de dizer um olá ao vizinho, perguntado: como
está vossemecê e como vãos os seus renovos? Uma vizinha pede um
ramo de salsa e outra traz uma abóbora menina para as filhós do
Natal, para que se viva cristãmente e em santo convívio familiar.
É assim que se vive hoje, penosamente,
com as ausências destes valores da Amizade que se vai finando
através dos tempos.
Fez muito bem Senhor Escritor Aníbal
Pacheco deixar memória viva e gravada em livro as tradições e
maneiras de vida digna dos antepassados, que, se cá viessem hoje,
morreriam de susto… Os meus parabéns e sinceros agradecimentos por
esta obra que me deixou curiosa e também satisfeita por tão bem
descrever a vida da sua aldeia, como seja a de muitas povoações de
Portugal, que daqui a uns anos, só delas guardarão o nome.
Clarisse Barata
Sanches
De Góis – Portugal
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