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Por Clarisse Barata Sanches


Segunda-feira | 16 JUN 08

“Freguesia de Unhais – O – Velho”

(um livro de Aníbal Pacheco)

Acaba de me chegar às mãos este livro por deferência do distinto Escritor e Amigo Aníbal Pacheco, pelo qual lhe fico muito agradecida.

Aníbal Pacheco, nesta obra, descreve muito bem a sua terra, sede de freguesia de Pampilhosa da Serra. O nome é curioso e deriva duma antiga lenda muito interessante, e tem a sua razão de ser.

Em tempos muito antigos esta freguesia estava integrada no Concelho da Covilhã, pelo que em Unhais havia um homem já idoso, mas crente, que ia a pé todos os Domingos à missa, que, por maus caminhos e atalhos, seriam meia centena de quilómetros. Um dia achou-se com coragem e foi falar com o Senhor Padre, contando-lhe o esforço que fazia para cumprir o preceito todos os Domingos. Comovido, o Prior prometeu interessar-se pela construção duma Igreja na sua terra, mas nas condição de ele não faltar durante um ano à missa dominical.

Era já o último Domingo e o velho ao rigor dos temporais e frio que fazia, estava a ver que não cumpria a promessa e o padre muito contente com isso… Até que o viram entrar muito cansado dizendo: “cá está o Velho de Unhais!”
A Igreja foi então edificada em Unhais e daí ficou o nome de Unhais – o Velho, sede de freguesia, com ruas estreitinhas e várias aldeias em ser derredor. Tem por padroeiro S. Mateus que é ainda festejado desde os mais remotos tempos, segundo arquivos da sua Igreja, tendo sido ali realizadas profundas obras de restauração e beleza em 1992. O povo gosta de manter o espírito religioso dos seus ascendentes. Tem uma boa sede de Junta de Freguesia e secção de quartel dos Bombeiros, uma Escola Primária, um Posto Médico e Centro de Dia.

Desde sempre que aquelas famílias viviam do amanho das terras e a actividade mineira da Panasqueira, ali perto, também contribuía para a sua sobrevivência. Produzia – se azeite, queijo, vinho, batatas, feijão, milho e centeio etc. resumindo-se hoje a pequenas hortas tratadas por gente mais idosa, pois os jovens saíram para os grandes centros.

Era no tempo que havia grandes rebanhos de cabras que alegravam os campos e serras com o tilintar das campainhas. Os automóveis eram os carros de bois que se viam a passar pelas ruas, com velhos “motores” a chiarem nos rodados…

Mas era um viver alegre apesar de cansativo. As festas e romarias, as esfolhadas na eira. Escola já havia onde aprenderam as primeiras letras muitas crianças, que se viam agrupadas a brincar. Já no século XX, 46 jovens dali passaram pelos bancos dos seminários, e seis deles foram ordenados sacerdotes.

Na vida quotidiana do campo ajudavam-se uns aos outros em companhia alegre e solidária. Muitas tradições e lendas deixadas por gerações antigas serviam de entretenimento nas famílias. Os bailes, as tocatas que se faziam em casas de recreio alegravam a mocidade e dali se efectuavam muitos matrimónios.

Uma vida alegre e sã, trabalhosa também, mas vivia-se com a graça de Deus, alimentando porcos, galinhas, coelhos etc.

Atualmente, as aldeias são muito menos povoadas e fizeram – se tristes, porque só velhos e poucos ali se mantêm por amor e recordação das suas leiras, e quantos há sentados na soleira da porta a pensarem na grande transformação que se deu nas povoações rurais, porque a terra é que nos dá vida e é dela que vem o nosso sustento. Depois, também é penoso “o armazenamento” nos Lares em ambiente doentio e pouco fraterno.

Hoje vive-se nas cidades em andares que quase não se conhecem uns aos outros, cada qual vive para si, já não há a satisfação de dizer um olá ao vizinho, perguntado: como está vossemecê e como vãos os seus renovos? Uma vizinha pede um ramo de salsa e outra traz uma abóbora menina para as filhós do Natal, para que se viva cristãmente e em santo convívio familiar.

É assim que se vive hoje, penosamente, com as ausências destes valores da Amizade que se vai finando através dos tempos.

Fez muito bem Senhor Escritor Aníbal Pacheco deixar memória viva e gravada em livro as tradições e maneiras de vida digna dos antepassados, que, se cá viessem hoje, morreriam de susto… Os meus parabéns e sinceros agradecimentos por esta obra que me deixou curiosa e também satisfeita por tão bem descrever a vida da sua aldeia, como seja a de muitas povoações de Portugal, que daqui a uns anos, só delas guardarão o nome.

Clarisse Barata Sanches

De Góis – Portugal


 

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