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Por Gaspar Nunes


Segunda-feira | 12 MAI 08

A História não se inventa, é o Registro da Realidade dos Fatos!

O Mundo inteiro acaba de festejar mais um aniversário da bendita ocorrência de 8 de Maio de 1945, dia em que se comemorou o fim da 2ª Grande Guerra Mundial e que, conseqüentemente, encerrou uma das mais catastróficas páginas da História da Humanidade, dando fim aos terríveis males que o nazismo trouxera sob o comando de Adolf Hitler. A Humanidade é grata com tantos milhares de Heróis de então. ... Hoje, poucos são sobrevivos mas a sua memória sempre merecerá justas homenagens e a Paz eterna.

Entretanto, lembrando que o dia do Combatente em Portugal é comemorado em 9 de Abril, por oportuno, resolvi, destarte, abordar um tema para o qual, há já decorridos 4 anos, fui desafiado a me manifestar publicamente, porém, naquela ocasião, resolvi, por bem, protelar sine die. Mas, inegavelmente, há que se admitir que esse desafio é de grande significado já que envolve a defesa da Pátria e, consequentemente, a soberania de um País e os interesses de uma Nação, ou seja, de toda uma Sociedade, partindo da premissa que Pátria ou País significa a terra onde nascemos enquanto que Nação significa o Povo, ou seja, a própria Sociedade que é a razão de ser de um País.

Assim, esclareço que esse desafio me foi instigado por um nosso patrício, Emigrante no Canadá, que participava de um site onde, então, ambos publicávamos os nossos artigos de opinião, o qual, segundo ele mesmo contou, anteriormente “fugiu” a salto para França para escapar de ir, obrigatoriamente, prestar o serviço militar o que o levaria a, provavelmente, ir dar com os costados n`África onde seria mais um Combatente a fazer parte das estatísticas perante a realidade de que, face à Guerra Colonial, que durou mais de 13 anos, com início em 4 de Fevereiro de 1961 e o seu fim face à “Revolução dos Cravos” ocorrida em 25 de Abril de 1974, onde, conforme publicado no Jornal de Notícias de 16 de Outubro de 2006, estiveram 1,2 milhões de efetivos, dos quais ainda estavam vivos 700 mil Ex-combatentes (hoje certamente já são menos), com um saldo de 9 mil mortos, 30 mil feridos e estropiados portugueses. Por isso, depois desse longo período em que muito refleti sobre a forma de apresentar esta questão tão melindrosa, resolvi, finalmente, abordá-la e o faço de espírito aberto.

Trata-se exatamente da questão que envolve os chamados “fujões” que, a meu ver não merecem ser execrados face à atitude tomada de emigrar para fugir à Tropa pois que, inclusive na maioria casos, não o fizeram por iniciativa própria mas sim por iniciativa dos próprios pais, levando-os a tomar um rumo contrário aos interesses da Nação. Porém, humanamente, nem esses pais merecem ser inculpados pois a intenção deles foi tudo fazer na tentativa de preservar a segurança e a própria vida do filho, em alguns casos filho único. Entretanto, atente-se que, o pavor (talvez exagerado em alguns casos) terá sido o principal motivo dessas “fugas” pois que, no caso de filho único – este era considerado arrimo de família –, dificilmente seria mobilizado para a campanha então em curso nas Colônias em África (às quais, então, era atribuída a condição de Províncias Ultramarinas).

Contudo, há que ser realistas pois, na verdade, de jeito algum poderá ser dignificante tal atitude já que estava em jogo a soberania da Pátria e essa soberania, seja qual for o País, terá de ser defendida pelos seus cidadãos e, inevitavelmente, não existe Pátria sem Heróis, os mortos e os vivos, ressalvada a relevância dos primeiros pois que acabaram dando a vida pela Pátria, ... honra lhes seja feita. Admitindo-se que teria sido o caso de uma questão de falta de patriotismo e, consequentemente, de falta do cumprimento do dever para com a Pátria, mesmo assim trata-se de uma questão extremamente delicada onde, a meu ver, essas pessoas não deixam de merecer a compreensão necessária para a obtenção da concessão de um perdão magnânimo, haja vista as atenuantes, que as há de fato.

Da mesma forma, não há como esquecer os desertores, que os houve, aliás, todas as guerras os têm, desde simples soldados a oficiais, os quais, dessa forma, traíram não só a Pátria como também os seus companheiros de armas. Neste caso, eram pessoas passíveis de condenação ao abrigo da lei. Já os chamados “fujões”, até uma certa faixa etária, que não sei precisar agora (acho que o limite era os 40 anos de idade), caso voltassem ao País, só eram passíveis de, obrigatoriamente, ter de comparecer para cumprir o serviço militar. Mas, o pior é que, a mudança de regime político veio permitir que, mesmo os traidores, passassem a usufruir não só do beneplácito do poder mas também sendo, inclusive, privilegiados com altos cargos públicos ou “tachos” na área privada em Portugal ou até, por opção, nos novos Países, as Ex-Colónias, já que se bandearam para o outro lado durante a Guerra Colonial.  Entretanto, convenhamos que um perdão magnânimo todos mereceriam, mas serem premiados por um comportamento condenável, isso não tem o mínimo sentido.

Por outro lado, destaque-se que houve as Forças de Voluntários – pressupostamente taxados de “malucos”, mas que, na verdade, eram pessoas extremamente corajosas, autênticos guerreiros –, que também lá combateram e que tanto ajudaram as Forças Armadas na odisséia das nossas gloriosas Tropas contribuindo de forma relevante para o sucesso das conquistas face aos combates realizados em terras africanas.

Entenda-se que não existe País sem Forças Armadas pois não haveria como manter a sua soberania. Assim, obviamente que se todos se tornassem “fujões” não teríamos uma Pátria. A Nação não teria como ser protegida, ou seja, a Sociedade seria inevitavelmente aniquilada.

Lembre-se que face à Guerra Colonial muitos pais perderam os seus filhos, muitas mulheres ficaram viúvas, muitas crianças ficaram órfãs e muitas noivas ficaram por casar.

E ainda há quem pratique a insanidade de achar que os Ex-combatentes e/ou as sua famílias não tem de ser compensados de forma justa atenuando os prejuízos materiais e as conseqüências das seqüelas físicas ou até emocionais que sofreram, relevando-se a situação dos pais (que hoje quase todos já morreram pois o tempo não perdoa), das viúvas e filhos que, na verdade, foram vítimas da perda do principal arrimo de família. Essa insanidade evidentemente que é atribuída aos Parlamentares e ao Governo e ainda, por tabela, aos ingratos ou frustrados.

Enfim, a Sociedade Portuguesa é, inequivocamente, devedora dessa casta de Heróis por ela esquecidos. A Sociedade Portuguesa deve mais respeito a essa classe que já passou à História de Portugal. A Sociedade Portuguesa deve carinho e proteção a esses bravos que hoje já são senhores de terceira idade, sendo que muitos estão carentes da cobertura das necessidades básicas inerentes à própria sobrevivência. A Sociedade Portuguesa é representada pelos deputados(as), senhores(as) do Parlamento, pois que vote em pessoas das quais poderão cobrar depois em prol do Povo. E os Ex-combatentes também são Povo, devendo, porém, por direito, ser reconhecidos como Cidadãos por excelência.

Evidentemente que a maioria dos Combatentes era formada por Soldados, Cabos, Sargentos Milicianos e Oficiais Milicianos. Estes foram os verdadeiros “Senhores da Guerra Colonial”! Os Cabos, Sargentos e Oficiais do Quadro Permanente das Forças Armadas, conhecidos popularmente como “lateiros”, inclusive os Oficiais Generais, eram pequena minoria entre as tropas enviadas para a Guerra Colonial. ... E estes sim, ficaram devidamente protegidos socialmente.

Nota: Para quem não sabe, Milicianos, nas Forças Armadas, eram os mancebos que, dependendo da escolaridade ser média ou superior, já iam direto para o Curso de Sargentos Milicianos ou de Oficiais Milicianos, respectivamente. Portanto, cumpriam serviço militar estritamente obrigatório e, consequentemente, não pertenciam ao Quadro Permanente das Forças Armadas, ou seja, não eram “lateiros” e, portanto não beneficiavam das benesses destes, que eram profissionais dessas mesmas Forças.

Para finalizar, atente-se que uma suposta suspeição não invalida a minha opinião, em se tratando de um Ex-combatente. Entretanto, entenda-se que o que acabo de explanar é fato, é História! Portanto, “Dê-se a César o que é de César!”

Gaspar Nunes

Rio de Janeiro


 

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